Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano 2026 – Dias 4, 5 e 6: Eephus, Twinless, Keep Quiet e Fantasy Life

EquipaFevereiro 3, 2026

Chega ao fim a quinta edição do Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano 2026, com curadoria de Carlos Nogueira que selecionou cuidadosamente doze filmes independentes produzidos nos Estados Unidos que, como sempre, procuram oferecer outros olhares sobre esse país que são vários num só. O binómio rural/urbano, as identidades comunitárias, a captura do momento, foram várias as abordagens propostas pelos filmes que por lá passaram. Nesta segunda metade da nossa cobertura destacamos Eephus, de Carson Lund, co-produzido e apresentado por Tyler Taormina, convidado especial desta edição do festival, sobre o último jogo de baseball a ser jogado num campo público antes da sua demolição para a construção de uma escola. Vimos também o tocante drama romântico Twinless, o thriller policial/social Keep Quiet, protagonizado pelo veterano Lou Diamond Phillips e, na sessão de encerramento, Fantasy Life protagonizado por outra veterana, Amanda Peet, com uma bela interpretação. Clara Mendes Pereira, Miguel Allen, Rita Costa, Maria Inês Opinião e David Bernardino assinam as críticas.

O Outsiders estará no Porto no Cinema Trindade – 19 a 22 de março, e em Ponta Delgada no Teatro Micaelense – 9 a 12 de abril

 

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Eephus (2024) de Carson Lund

Para o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, a maneira como usamos a linguagem acontece em forma de jogo. As coisas que dizemos ganham conteúdo não porque as palavras (pensa: “ponto”, “saudade”, “vencer”, entre outros) têm um significado intrínseco e inamovível em si, mas porque são interpretáveis dentro de um contexto, das suas regras e objetivos, que tornam vivas as palavras em ações e objetivos concretos. Assim ganha sentido falar, e viver. É precisamente isto que acontece às personagens do filme de estreia Carson Lund — homens suburbanos, de vidas presumivelmente pouco estonteantes, que encontram num simples campo de beisebol algo, à falha de melhor termo, importante. A indústria cinematográfica não é propriamente estrangeira a filmes de desporto. Expoentes originais do género  ‘male weepy’ (filmes feitos para trazer lágrimas aos olhos do estoico e emocionalmente reprimido homem americano), este tipo de filmes sempre foram um veículo para Hollywood atender às emoções de metade do seu mercado ao mesmo tempo que exaltava valores como glória, conquista, e honra. No entanto, a maior parte da trama emocional ocorria fora do campo, que servia apenas como projeção e metáfora das provações e tribulações que assistem ao protagonista. Eephus reverte o género: o jogo é a trama. Os diálogos acontecem dentro dos autocontidos segundos entre jogadas, as relações que importam são análogas às posições em campo, e toda a irritação, felicidade, e demais temperamentos têm como origem única as condições do campo e figuras no quadro de resultados. 

Este formato não é tarefa fácil, especialmente porque Lund pretende distrair a audiência por completo do resultado do jogo, para que nos foquemos nos seus jogadores. Fá-lo com mestria: a atmosfera é calma mas cheia, sendo pontuada de modo clínico pela trilha sonora de Carson e Erik Lund, que direciona a nossa atenção sem dar demasiada importância a nenhuma jogada. O filme segue o estilo a que a Omnes nos tem habituado, partindo de um elenco de ensemble para dar um retrato completo de um único momento. O pano de fundo do momento de Eephus é não apenas um jogo, mas um último jogo. O campo onde esta equipa amadora se encontra será terreno para a construção de uma escola, havendo um relógio a comer as horas até ao fim do beisebol na vida destes homens, para a maior parte deles para sempre. O tique-taque saturnino é medido pela transformação natural da luz, de manhã à noite, que é captada pela fita da película, e pela soberba iluminação e coloração do filme, de modo vivo, real, e urgente. Os jogadores não têm escolha senão se adaptar a esta luz. É o marco da sua felicidade e melancolia. Como audiência, empatizamos com a dedicação que levam nesta partida final — ouvimos as suas conversas cheias e desprovidas de sentido sentimos o suor e terra a manchar os equipamentos que carregam com orgulho, a cerveja que bebem para passar as horas e o tédio (do qual o filme não se esquiva) — sabendo que em todos estes elementos se esconde um profundo sentido de perda. 

Aprendemos, a certo ponto, que um eephus é uma bola atirada de modo ostensivamente lento, de modo a confundir o batedor, a desordenar a sua noção de tempo: 

Podes perceber quando é um eephus. Fica no ar uma eternidade. Ficas entediado a vê-lo. Eu fico entediado. E o batedor também, por isso tenta bater na bola normalmente, mas ela já passou por ele ou espera até ele acabar de bater. O eephus fá-lo perder a noção do tempo. É bastante cruel dessa forma.

Não é por acaso que o filme tem o nome que tem. Se por vezes ficamos entediados a ver esta sujeição arbitrária a regras para passar o tempo, ou seja um jogo, no seu cerne perfeitamente inútil, percebemos ao sair da sala que não poderia ser de outro modo. Este filme é uma carta de amor aos terceiros espaços, e ao que significa jogar, por outras palavras, estar vivo: uma coletânea de personagens, sem semelhança alguma, partilhando aborrecimentos e excitações, até acabar o tempo. É também uma tragédia, da luta até ao fim contra a cruel  inevitabilidade da realidade que se imiscui no jogo, sempre já aqui e ainda por chegar. 

Clara Mendes Pereira

 

O sino de uma igreja vizinha vem pontuando o dia que passa, e a vida em torno do encontro vai pontualmente irrompendo pela vida do filme. The Last Picture Show. Para quem não dispõe da mínima noção de basebol, um jogador dos Adler’s Paint explica-nos, a dada altura, o que é afinal um lançamento eephus. A bola, lançada em arco e a uma velocidade anormalmente lenta, parece suspensa no ar, acabando por confundir o batedor, que se antecipa em demasia, falhando a sua resposta. Eephus respira nessa mesma suspensão. Numa tarde de sábado, duas equipas de uma liga recreativa de basebol juntam-se para uma última partida. Não se trata simplesmente da última jornada de uma época, mas de um último jogo em definitivo. Aquele terreno será em breve cedido para a construção de uma escola pública, e o outro campo mais próximo é pouco qualitativo ou mesmo demasiado distante para que qualquer um daqueles jogadores queira recorrer a essa opção. Eephus será tanto extenso e rigoroso na descrição das jogadas daquele encontro como um filme sistematicamente anticlimático. Os jogadores não são os melhores, o empenho é diverso e as cervejas, como a barriga (ou  os anos), vão-se acumulando. Fora o belíssimo home run de um dos jogadores mais frescos, grande parte das jogadas acaba por falhar, e uma bola parece até, para espanto de todos, desaparecer em pleno ar. Nada disso interessa, é claro. E o filme decorre como o tempo naquele campo, para aqueles jogadores.

Se, no desfecho, o resultado pouca relevância tem face às responsabilidades que chamam do outro lado da cerca, horas antes quase ninguém queria sair dali com um insosso empate. Graham, desiludido, desvia o olhar do fogo-de-artifício que Chuck preparara, enquanto todos correm para o seu carro. Eephus é o filme de um esforço que aplicamos a algo sem uma qualquer finalidade própria. Muito mais do que um passatempo, e muito menos do que uma religião, mas algo que nos vemos cumprir com um rigor quase metódico (chamemos-lhe… cinéfilia). Uma comédia melancólica sobre amizades difíceis entre homens com pouco mais do que aquele campo em comum (talvez nem mesmo o desporto). Com o sol a pôr-se, serão os faróis dos carros a possibilitar a conclusão atrapalhada da partida. Por breves instantes, não existe nada para além daquele quadrado fechado, cuja vida se extingue apressadamente. O terreno será então entregue a um propósito maior… maior? O tempo passa, tanto naquele jogo que se prolongou bem para além de uma hora normal, como pelos joelhos de alguns daqueles velhos. A sociedade também avançou. Hora para outras actividades. Mas, para Franny, aquele foi ainda um dia bonito e ele, o mais feliz dos homens. Oh I hate this business.

Miguel Allen

 

Twinless (2025) de James Sweeney

Há filmes que começam por ganhar a nossa confiança antes de nos começarem a puxar o tapete. Twinless é um deles. Um filme seguro do território emocional que quer explorar, mesmo quando nós ainda não fazemos ideia, e que não hesita em avançar para zonas desconfortáveis, ao contrário do que o seu cartaz fofinho dá a entender. As interpretações, na sua maioria, funcionam bem, com destaque para Dylan O’Brien, que dá corpo a um par de gémeos que podiam ser azeite e água. O filme tem nuances emocionais difíceis de executar sem cair no exagero, e o elenco consegue, muitas vezes, encontrar notas mais contidas, até, inesperadas.

O que surpreende mais neste filme que, ao início, pode parecer um pouco paint-by-numbers são as arrojadas reviravoltas sombrias do argumento. Há que admirar a coragem de ir por aí, sem medo de deitar a boa vontade do espectador pela janela fora. Tem um twist bravo, que o transforma de dramedy indie simpática numa espécie de thriller proto-De Palma. O problema é que o filme confia tanto na ambiguidade que acaba por correr o risco de alienar parte do público, sobretudo quando certas decisões narrativas pedem empatia sem oferecer ferramentas suficientes para a reconstruir. E a imagem acompanha essa troca de tom. Twinless oscila entre 35 mm e digital, entre intimidade e frieza, entre calor e desconforto.

Um desconforto intencional, convenhamos. Twinless não está interessado na catarse fácil. Prefere ficar num estado de irresolução, num lugar ingrato onde o luto e o trauma não se transvertem numa conclusão limpinha com um estalar de dedos. Talvez o espectador fique à espera de um pouso emocional mais claro, e o filme recusa oferecê-lo. A vida poucas vezes o faz, e o cinema também não tem, de todo, obrigação de o fazer. Ainda assim, é um pequeno filme envolvente sobre perda, dor, obsessão, amor e trauma, que consegue encontrar caminhos novos dentro de temas muito familiares. É bem interpretado, atrevido, com cuidado óbvio com os visuais, e pontuado por momentos inspirados: a sequência de festa com recurso a um split-screen foi a que mais se destacou, uma ideia formalmente inspirada e que, mais do que fogo de vista, serve o argumento acima de tudo. Longe de ser um filme perfeito, é um filme que arrisca, e isso também merece as suas flores.

Carla Rodrigues

Keep Quiet (2025) de Vincent Grashaw

Um thriller policial passado numa reserva indígena nos Estados Unidos. Pouco se sabia deste Keep Quiet, estreado no festival de Locarno e que chegou fresco ao Outsiders para uma apreciação livre de influências. Notável no seu contexto de filme independente, o realizador Vincent Grashaw traz o veterano actor Lou Diamond Phillips para interpretar Teddy Graves, um polícia de reserva indígena pragmático mas texturado, cuja missão de velar pela comunidade se sobrepõe à detenção de jovens criminosos ou membros de gangues por “dá cá aquela palha”. Policiamento social ao invés de repressivo, ciente do seu dilema moral, a personagem de Graves, e assim o filme, percorrem com uma linguagem cinematográfica dos anos 90 temáticas actuais como a violência polícial, a identidade e o multiculturalismo das comunidades nativas norte-americanas. Indo beber às convenções do thriller policial, Keep Quiet executa bem a dinâmica entre policía veterano e polícia novata que acabou de chegar e é surpreendida pelo modus operandi de Teddy Graves. A fotografia naturalista, a violência que surge sem avisar, a soturnidade da comunidade e do próprio protagonista, são apenas alguns dos elementos deste thriller de baixo orçamento surpreendentemente sólido e com uma excelente interpretação de Phillips, intenso, magnético, taciturno, como se carregasse o peso do trauma da comunidade aos ombros. O resto do elenco tem dificuldade em acompanhar mas nem por isso Keep Quiet deixa de ser um esforço que, apesar de condenado a ser visto por poucos, é inspirador.

David Bernardino

 

Fantasy Life (2025) de Matthew Shear

Um filme leve sobre ansiedade e sobre a sensação de estar parado num momento em que a vida pede decisões. A história segue Sam, um homem emocionalmente e profissionalmente à deriva, que acaba por aceitar um trabalho improvável como babysitter, servindo de ponto de partida para uma narrativa de tom descontraído e acessível. O filme vê-se com facilidade, apoiado num humor suave e numa observação quotidiana que evita dramatismos, mas essa mesma leveza acaba por ser também a sua principal limitação. Sam é uma personagem pouco ativa, quase sempre a reagir aos acontecimentos em vez de os provocar, o que torna o percurso narrativo difuso e sem verdadeira tensão. A abordagem à saúde mental é cuidada, mas superficial, ficando-se por um conforto que nunca arrisca confronto ou aprofundamento real. O filme ganha consistência quando se aproxima da personagem interpretada por Amanda Peet, cuja presença traz densidade emocional e relações mais interessantes, sobretudo no contexto familiar, evidenciando um desequilíbrio claro entre o protagonista e o universo que o rodeia. Essa disparidade faz com que, em vários momentos, o centro emocional do filme pareça deslocado. Fantasy Life é simpático, bem interpretado e agradável, mas demasiado seguro, pouco ambicioso e incapaz de deixar uma marca duradoura, funcionando mais como um filme de passagem do que como uma obra que se imponha.

Rita Costa

Carismático e divertido, tipificando os filmes que marcaram a 5ª edição do Outsiders. Matthew Shear é o protagonista da sua longa-metragem de estreia onde a saúde mental toma o lugar central. A sua personagem é perfeitamente amável e afectuosa, retirando alguma da censura que poderá existir das suas ações. Todas as outras apresentam arcos de redenção que consistem em ser – à falta de um portuguesismo – likeable. A filha mais nova deixa de ser insuportável para ser engraçada e brincalhona e a explosão de David é mitigada pelo acidente que sofre sem, claro, consequências graves. Shear apresenta o tema da luta contra a ansiedade com humor, sem lhe retirar a seriedade, as consequências e, principalmente, sem apresentar uma cura milagrosa que se acredita poder acontecer quando se reencontra um rumo ou alguém que nos compreende. As atuações enternecedoras são, de facto, o ponto alto de um filme simples nos restantes aspectos técnicos e representa o feel-good americano.

Maria Inês Opinião