Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano 2026 – Dias 1, 2 e 3: Peak Season, The Featherweight, Christmas Eve in Miller’s Point, Ham on Rye e Rebuilding

EquipaJaneiro 31, 2026

Arrancou a quinta edição do Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano, organizado pela FLAD e com curadoria de Carlos Nogueira. Para esta edição, foram selecionados doze filmes recentes, inéditos em Portugal, que procuram retratar os Estados Unidos da América nas suas várias realidades e pontos de contacto. A Tribuna do Cinema une-se, mais uma vez, a este tão agradável micro-festival que tem consolidado, por mérito próprio, um lugar no calendário cinéfilo da capital… e não só. Pela primeira vez, este ano, o Outsiders sairá de Lisboa e estará presente no Porto de 19 a 22 de Março, no Cinema Trindade, e em Ponta Delgadas, na ilha de São Miguel, nos Açores, de 9 a 12 de Abril, no Teatro Micaelense, demonstrando assim a robustez e crescimento desta iniciativa da FLAD.

Estivemos presentes na sessão de abertura, na qual foi apresentado o programa deste ano e exibido Peak Season, o filme que deu o pontapé de partida da presente edição, na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. Nos dois dias seguintes, assistimos ainda a The Featherweight, um falso documentário sobre um pugilista reformado de regresso ao ringue; e Rebuilding, uma sessão esgotada para ver Josh O’Connor no papel de um cowboy que procura reconstruir a sua vida após incêndios devastadores no Colorado. Tivemos ainda a oportunidade de conhecer o realizador Tyler Taormina, que veio ao Outsiders para uma masterclass e apresentação de dois dos seus filmes: Ham on Rye, a sua estreia na realização, aos 24 anos, e o mais recente Christmas Eve in Miller’s Point. Clara Mendes Pereira entrevistou o realizador numa conversa que pode ser lida na Tribuna na próxima semana. Para já, ficam as críticas aos cinco filmes exibidos nos 3 primeiros dias do Outsiders.

 

*

 

Peak Season (2023) de Henry Loevner & Steven Kanter

Peak Season é um daqueles filmes de aspecto simples, macio, redondo, de fácil consumo. Tudo isso é verdade, mas nem por isso é um filme menos texturado, ou tolo. Mais que uma “comédia romântica”, Peak Season é um filme que captura de forma realista as comunidades do interior norte-americano (aqui no estado do Wyoming) e o seu quotidiano. Rodeos, fogo de artifício, caminhadas pela natureza, pesca, incerteza profissional, inflação. É na captura desse realismo que a protagonista Amy (Claudia Restrepo) se caracteriza na tela. Consultora de Nova Iorque, noiva de um gestor metódico e com dinheiro a mais, Amy deixa-se apaixonar nestas férias idílicas não pelo seu guia de pesca Loren (Derrick DeBlasis), mas pela projecção de uma ideia de um estilo de vida diferente. O choque da vida organizada, profissional e financeira em que acredita, numa fantástica cena de bar, com as ideias mais mundanas e humildes, e sobretudo mais livres, de Loren nunca determinam na realidade um desenvolvimento de personagem exacerbado da protagonista. Tal como o noivo Sam não é uma caricatura, mas antes um estereótipo bem conseguido – ele vê-a, respira o seu oxigénio engarrafado, e está “cheio de trabalho”, como tantos no mundo corporativo – nem por isso Amy o despreza. Fica a dúvida emocional do “e se eu tivesse ficado” perto do fim, mas esse final telenovelesco nunca chega. Dotado de uma fotografia naturalista, que captura as paisagens do Wyoming de forma avassaladora e imponente, Peak Season é um dos mais agradáveis exemplares desse cinema indie americano que não mata nem mói e que consegue encapsular em 80 minutos muito mais do que aparenta a olho nú.

David Bernardino

 

Como filme de abertura do Outsiders, Peak Season é uma escolha acertada. Inclui todos os tropos que estamos à espera vindos das profundezas do outro lado do Atlântico: rodeos, montanhas, e uma história de relações improváveis entre mundos que colidem. O filme de Henry Loevner e Steven Kanter é uma tentativa geralmente bem sucedida de uma reconciliação entre o meio urbano (do qual vem a maioria do elenco, diretamente da caída Buzzfeed) e a sua conceção redentora da ruralidade, mostrando a promessa e falha de ambas sem considerável julgamento. Ainda que não encontremos nada neste filme de muito impressionante, tudo é agradável. A narrativa, não surpreende pela profundidade nem pela construção de nenhuma teia com importe emocional considerável, mas é bastante satisfatória no modo como carrega a história sem pretensão. A fotografia é bonita sem ser ambiciosa, aproximando-se por vezes do estilo TV-movie, sem nunca tropeçar para esse lado. Destaca-se talvez o diálogo, que é engraçado, leve, e genuíno, aproximando-nos da crença e preocupação pela relação central da história. Um daqueles filmes que é difícil lembrar, mas que também não deixam mossa.

Clara Mendes Pereira

 

Enquanto filme de abertura, Peak Season deveria cumprir a função clássica de inauguração: abrir o apetite para o resto da programação, criar expectativa, marcar um tom. Foi essa a intenção sublinhada por Carlos Nogueira, curador do Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano, ao apresentar a sessão no Cinema São Jorge. O problema é que o filme falha precisamente nesse gesto inaugural. Em vez de estimular curiosidade ou desejo pelo que viria a seguir, instala uma sensação de esvaziamento precoce, como se o festival começasse já num ponto de recuo, sem energia suficiente para contaminar a sala ou preparar o olhar para o resto da programação. O filme assume-se claramente como cinema independente, no pior sentido do termo: economia de meios confundida com economia de pensamento. A promessa de contenção e intimidade nunca se concretiza porque o filme parece estruturalmente vazio. Não há risco, não há tensão, não há sequer um desconforto que justifique a duração.

A cinematografia agrava esse problema. Longe de construir um olhar, oscila entre uma imagem genérica de vlog de viagem e uma limpeza publicitária que lembra anúncios de televisão de lifestyle. Em certos momentos, parece um vídeo de YouTube com boa luz natural. Noutros, um spot turístico disfarçado de cinema introspectivo. Essa indefinição visual retira qualquer possibilidade de densidade ao espaço. Serve apenas como fundo bonito, e o bonito aqui é profundamente irrelevante. A encenação acompanha essa vacuidade. Os planos não duram o suficiente para criar tensão, nem são cortados de forma expressiva. O filme limita-se a registar estados de espírito difusos, como se isso fosse suficiente para produzir sentido. Não é.

O único ponto positivo deve-se à escrita de diálogos, com algum humor. Há precisão, escuta, uma certa honestidade no modo como as personagens falam. Mas essa qualidade fica isolada, quase decorativa, porque o cinema à volta não a sustenta. As palavras pediam um corpo, um espaço, uma mise-en-scène capaz de as contrariar ou aprofundar. Recebem imagens vazias e uma realização excessivamente polida para ser incisiva. O vazio que apresenta não é trabalhado nem interrogado, apenas exibido com boa luz. No fim, não fica nada. Nem desconforto, nem memória, nem forma.

Rita Costa

 

The Featherweight (2023) de Robert Kolodny

The Featherweight usa o boxe como ponto de partida, mas o seu interesse está sobretudo no que se constrói à margem do ringue. A narrativa afasta-se rapidamente do drama desportivo clássico para se concentrar num retrato de desgaste físico e emocional. Robert Kolodny observa as personagens com alguma contenção, evitando explicações excessivas. As dinâmicas afectivas surgem fragmentadas, marcadas por aproximações falhadas e por uma intimidade sempre instável. A presença da droga e do desejo não é tratada como comentário moral, mas como prolongamento natural de um quotidiano em desequilíbrio, o que contribui para um retrato coerente e discreto. O trabalho de imagem e de câmara é um dos pontos mais fortes do filme. A proximidade aos corpos, o uso da luz e a atenção ao espaço conferem espessura visual a cenas que poderiam ser narrativamente frágeis. A montagem revela-se sólida e consistente, garantindo continuidade emocional, embora o ritmo abrande em demasia em alguns momentos, criando passagens menos eficazes. The Featherweight é um filme irregular, mas sustentado por um rigor formal evidente e por uma atenção cuidada aos seus subtemas. Mesmo com zonas de estagnação e alguma dispersão, afirma-se pela qualidade visual e pela forma como desloca o foco do boxe para um retrato mais amplo de fragilidade.

Rita Costa

 

Robert Kolodny realiza este falso documentário sobre o comeback de um pugilista italo-americano (que realmente existiu) e a sua intenção de regressar ao ringue, 4 anos após a reforma, em 1964. Guglielmo Papaleo, mais conhecido como Willie Pep, aqui interpretado por James Madio, foi um histórico campeão peso pluma quase incontestado. Bem ciente das suas influências cinematográficas, com o Jake LaMotta de Raging Bull e Rocky à cabeça, Kolodny procura aproximar esta ficção documental da linguagem da Nova Hollywood de Scorsese. As interpretações obstinadas do elenco tornam The Featherweight um retrato teatral desse ecossistema italo-americano dos anos 70 retratado em cinema: temperamental, passional, autodestrutivo. Além da sua relação obsessiva com o boxe e o desejo intenso de regressar aos dias de glória, carregando em frente esse seu desejo contra tudo e todos, o ponto de melhor execução, e talvez intencionalmente o mais central do filme, é a relação de Willie Pep com a esposa Linda. Ruby Wolf, com uma grande interpretação, destaca-se do restante elenco fazendo-nos acreditar, por momentos, que não é tudo a fingir. Ainda assim, é. Kolodny tem muita dificuldade em mascarar o seu falso documentário de real e nunca consegue escapar à colagem, à realização insegura, forçando movimentos de camera de backstage, e uma estranha montagem que está amarrada ao seu próprio conceito.

David Bernardino

 

Christmas Eve in Miller’s Point (2024) de Tyler Taormina

Um filme profundamente triste, por detrás do seu verniz de conforto e de homenagem à quadra natalícia. Às imagens de cores exuberantes e textura granulada acolhedora — a casa enfeitada, a mesa farta, a família grande — opõem-se problemas de “mundo real” que insistem em imiscuir-se neste parêntesis de alegria, lembrando a vulnerabilidade inerente a juntar sob o mesmo teto as bagagens emocionais de várias pessoas em diferentes pontos da vida. O que fazer com a matriarca envelhecida? Para onde foram os melhores anos das nossas vidas? Porque não consigo chegar à minha filha… ou à minha mãe? Quem sou eu, afinal? Todas estas perguntas pairam no ar, mas Taormina está pouco interessado em dramatizá-las.

Ao invés, faz a sua câmara vaguear de forma subjetiva por aquelas divisões, pelas ruas da pequena localidade de Long Island, pelas fotografias, pelos rostos, como se fosse um convidado estranho àquela família e àquela terra. Trata-se menos de compreender do que de sentir. Miraculosamente (estamos, afinal, no Natal), este propósito é quase sempre bem-sucedido. Passamos por um elenco enorme sem nunca termos total certeza das relações de parentesco entre todos, talvez nem decoremos todos os nomes, mas acedemos profundamente à intimidade e às fragilidades de cada um.

Este raio-X não se limita, contudo, ao particular. No seu registo observacional, Taormina consegue auscultar costumes, afetos e pequenas fraturas de uma comunidade inteira, atravessada por três gerações distintas, captando as especificidades de uma família que “só poderia ser italo-americana”. Poderíamos dizer que este filme está para o Natal como Dazed and Confused está para o Secundário, enquanto ritual suspenso no tempo; mas Taormina opera num nível de profundidade bastante maior, menos nostálgico e mais atento ao desgaste silencioso que se infiltra nas relações. Aliás, um dos grandes méritos de Christmas Eve in Miller’s Point está precisamente na forma como bebe de outros cinemas sem nunca parecer pertença de outro autor. Há nos diálogos cruzados e no ruído constante de vozes uma evidente herança de Altman, reforçada pelos zooms e pelo estilo observacional da câmara que serpenteia pela casa cheia; mas o sentimento geral — esta atenção à interioridade, ao não-dito, àquilo que se pressente mais do que se afirma — aproxima mais o filme de The Dead, de John Huston. Menos sacralizado e mais material, é certo, mas atravessado pela mesma ternura e pela mesma melancolia discreta das gentes que retrata.

Notável é também a sonoplastia e o uso da banda sonora como guia emocional para o espectador. São estes elementos que sustentam a sensação de que os momentos mais felizes já se estão a dissolver à medida que passam diante dos nossos olhos: uma dinâmica constante de ascensão e queda, de calor e arrefecimento, como se em cada gesto de alegria já se insinuasse a sombra da sua perda. Ainda assim, há instantes de serena felicidade — e é aí que surge uma cena de leitura absolutamente inesquecível (talvez a mais bem construída de que tenho memória no cinema dos últimos anos), em que tudo parece encontrar um equilíbrio precário sob o bafejo de uma qualquer providência que entra sorrateira pela janela aberta.

Não fossem os polícias kaurismäkicos, Christmas Eve in Miller’s Point estaria muito próximo de um filme perfeito. Ainda assim, é fácil aceitar essa imperfeição no conjunto de um gesto que arrisca ser profundamente pessoal, quase excessivo na sua generosidade. Num filme que prefere expor-se ao desequilíbrio do que proteger-se numa forma polida, encontrando precisamente nessa abertura a sua força mais comovente.

Gil Gonçalves

 

Um filme de Natal do Taormina é tão desconcertante como seria de esperar. A enorme família italo-americana que enfrenta uma matriarca envelhecida, com relações de parentesco incompreensíveis, como se vistas pelo olhar de um dos primos mais novos. O jantar é animado, mas Katheleen (Maria Dizzia) não consegue chegar à filha Emily (Matilda Fleming) que se aproxima das outras mulheres da família; o tio Ray (Tony Savino) enfrenta uma solidão profunda; o primo Bruce (Chris Lazzaro) sente-se tão desapontado consigo mesmo como com aqueles que o rodeiam.

Numa câmara revolta, Taormina apresenta-nos esta família com dinâmicas de poder que se alteram consoante os intervenientes, num estudo de personagem que revela conhecer muito bem. O filme constitui-se de momentos que preenchem uma noite interminável, sejam eles uma discussão entre irmãos, um videojogo, pausas para cigarrinho ou um ataque dos mais novos à avó, sem grande contexto. O contexto não é particularmente necessário, já que vivemos sem ele, dos momentos, e, quando ele efetivamente é recompensador.

Emily vive a idade do afastamento da família, preterindo a noite com estes por uma com os amigos, que juram ser incompreendidos pelos pais, vítimas do capitalismo que só se identificam com aquele grupo em particular que é, claro, o melhor grupo de amigos, aquele que todos ambicionam ter. Tanto o grupo familiar como o dos amigos é honesto e cru, revelando uma dedicação particular ao trabalho do realizador com os atores – todos na mesma página, da frontalidade, do embaraço, destacando Taormina como um realizador surpreendentemente maduro para a idade

Maria Inês Opinião

 

Ham on Rye (2019) de Tyler Taormina

Ham on Rye é uma maneira de marcar um tom. Tyler Taormina não está interessado em entreter com histórias que se contam numa linha. O que lhe interessa não é delimitável nem atomizável; é acerca da história que emerge da interação de pequenas partes indefiníveis, quando dançam em conjunto. Ham on Rye, neste caso, acaba por ser acerca da adolescência, ou melhor, aquilo que se ganha e perde quando se ganha consciência de si. Não é um filme que tenha propriamente um fio condutor muito forte, nem personagens destacadas que o conduzam, uma decisão que, considerando os riscos, não corre mal para o realizador. Por outras palavras: o filme tinha tudo para ser chato, e só o é um bocadinho. São poucas as vezes em que deixa o espetador pendurado num delírio estético sem narrativa ou intenção; no geral, é um filme vivo o suficiente para que o embalo de sensações não caia no sonífero, mas na transmissão de uma mensagem muito clara através de sensações que sabe que o espetador já tem.

Um grande destaque vai para o elenco de adolescentes, que ilustram as suas mensagens com autenticidade e idiossincrasia. São desajeitados e sensíveis, no fundo, ficamos com a impressão que estão menos a representar do que simplesmente a existir de outra maneira, uma lufada de ar fresco naquilo que é o cinema coming-of-age. Taormina, notamos também, tem imenso respeito por estes miúdos e a fase da vida em que se encontram, deixando que tomem muito das rédeas desta obra. Afinal, como nenhum adulto se consegue lembrar assim tão bem do que é ser criança, mais vale dar espaço para que elas nos recordem. Os quase 90 minutos nos quais decorre Ham on Rye seguem um fio enganadoramente simples. Os adolescentes em procissão para o restaurante Monty’s, uma típica Meca da cidade pequena. Seguem ansiosos, temos a sensação que quando lá chegarem seguirão o ritual e tudo mudará. A passagem é confusa — o que se deu? Talvez, crescer assim não seja transmissível por palavras. Som, êxtase, cor, ausência — não é este o tom das nossas memórias? Taormina sabe-o bem. Experimenta com honestidade e qualidade, abrindo caminho para o que será o ethos marcante de um realizador que terá muito para dar.

Clara Mendes Pereira

 

A primeira parte de Ham On Rye leva o espectador a acreditar estar perante um coming-of-age num subúrbio norte-americano quase mágico, pautado por rituais de transição tão lascivos quanto humilhantes. Quando os cumprem – muito longe de os compreender – os adolescentes unem-se em comunidade; como recompensa, divertem-se mais. Taormina é um excelente diretor de atores, que tanto consegue puxar um embaraço natural que os jovens tanto se esforçam por esconder, como eliminar toda a euforia anterior, substituindo-a por um misterioso fardo. Com 24 anos, sabia já querer explorar este espaço da adolescência através de um dispositivo organizatório-social com referência a obras que certamente o terão marcado, como os vestidos brancos das Virgens Suicidas, cujo simbolismo não se perde na narrativa. Reflete na pertença a um lugar, em particular naquele onde crescemos, à margem das grandes cidades, nas suas consequências, naquelas de ir e naquelas de ficar, num filme amador que consegue esconder o seu amadorismo, todo ele conciso.

Maria Inês Opinião

 

Rebuilding (2025) de Max Walker-Silverman

O filme protagonizado por Josh O’Connor é mais uma história bem executada sobre uma comunidade rural do interior dos Estados Unidos que não deixa de ter as suas particularidades interessantes. O cenário é peculiar: zona do Colorado intensamente afectada por incêndios, deixando comunidades desalojadas à mercê de apoios e entidades do Estado. Com a ausência de seguradoras que se responsabilizem pelos custos da recuperação destas vidas suspensas, caberá a cada uma destas pessoas reconstruir a sua vida. No centro está esse cowboy, Dusty, dono de uma vasta propriedade de terra queimada que só voltará a ser fértil em 10 anos. A sua ruína psicológica após a venda do gado que lhe restava (sem pasto onde comer) anula por completo todo o ecossistema de vida que sempre conheceu. Nesse silêncio, a piscar o olho ao underacting, o olhar para paisagens distantes, mas também para a sua pequena filha em idade de início de leitura, Josh O’Connor vai procurando razões para não procurar uma nova vida longe do que mais ama. Nessa indecisão crónica percorrem-se memórias, fortalecem-se laços familiares e criam-se amizades, comunidades, num filme calmo, bonito, fortemente cultural e dado à reflexão. Formalmente inocente, silenciosamente feroz. Rebuilding segue todos os pontos do indie americano, dos cavalos, aos parques de roulottes, passando pelas crianças espertalhonas, de forma eficaz, controlada e sobretudo confiante.

David Bernardino

 

Josh O’Connor é Dusty, um cowboy divorciado, de origem escocesa (numa ode ao próprio ator), que tem de encontrar o seu rumo após perder todo o seu rancho num incêndio florestal (o que lhe confere uma infeliz proximidade a Portugal). Prova, mais uma vez, as suas qualidades de ator dramático, amiúde de sorriso tímido. Provam-no também Meghann Fahy e a pequena Lily LaTorre, contrapondo o pessimismo de O’Connor, conquistando-o com o passar dos dias. Aparentemente esperançoso, é um filme triste que põe em cheque a temática do esquecimento e da perda, da própria fragilidade financeira, após uma vida de trabalho. Rebuilding encara os seus temas de frente, num diálogo que poderia ser demasiado explicativo, mas que funciona melhor nos seus silêncios, tornando-se num produto honesto e enternecedor. A segunda longa de Max Walker-Silverman é um desafio à adversidade com uma vista particularmente bonita, tal como a desaparecida quinta de Dusty.

Maria Inês Opinião