Não é segredo que o cinema de terror é um género querido na Tribuna do Cinema. Procurando fugir às habituais listas de melhores filmes de terror, de uma forma geral, que aliás já fizemos em 2022 e que pode ser lida aqui, decidimos este ano celebrar o Halloween de uma forma diferente. A decisão foi a de reunir seis sugestões no subgénero creature horror, ou terror com criaturas, que não sejam meros zombies ou extraterrestres (quem sabe no futuro). O resultado, talvez surpreendente, foram 6 clássicos do cinema que vão das formigas mutantes de Them! a parasitas que provocam alucinações em Brain Damage. Do monstruoso Night of the Demon de Tourneur aos vampiros espaciais de Lifeforce do mestre Tobe Hooper. Das crianças aterrorizantes de The Damned, ao clássico “Bela e o Monstro” em versão new wave checa. São seis escolhas ecléticas e influentes no espectro do horror, que esperamos possam oferecer uma noite de Halloween diferente e repleta de criaturas nefastas. Afinal de contas onde estaria a piada da noite das bruxas sem uma bela dose de monstruosidade?

Them! (1954) de Gordon Douglas
Ao mesmo tempo que, no Japão, Ishiro Honda tornava tangível a paranóia da era nuclear com Gojira (Godzilla), também de 1954, nos Estados Unidos Gordon Douglas realizava Them!. Poucos filmes encapsulam tão bem o terror de ficção científica de série B dos anos 50 como Them!, pioneiro do género em que, no deserto americano, uma criança em estado catatónico se torna o ponto de partida para uma investigação levada a cabo por cientistas, polícias e soldados, enquanto algo gigante e misterioso parece estar a destruir casas isoladas. Tratam-se, claro, de formigas radioativas gigantes, fruto dos testes nucleares realizados na região em 1945, pré-Hiroshima e Nagasaki. Perfeitamente equilibrado entre o suspense e a construção gradual que conduz à revelação das criaturas — cujo zumbido ensurdecedor aumenta à medida que se aproximam —, os modelos gigantes que definem a idade de ouro dos efeitos especiais práticos são simultaneamente assustadores e hilariantes.
Mais curioso ainda é ver, em várias cenas de Them!, pequenos elementos que viriam a inspirar obras icónicas décadas mais tarde. Alien e a sua primeira sequela vêm imediatamente à cabeça. O jogo de sombras, a antecipação criada pela proximidade das criaturas, mas sobretudo os ovos deixados pelas formigas-rainhas, o ninho, os lança-chamas — tudo isso são referências quase copiadas a papel químico. Altamente militarizado (e patriótico), o filme antecipa também Starship Troopers, de Verhoeven, na forma como os soldados descarregam as munições contra os insetos mutantes sedentos por conquistar o planeta. Entre a diversão série B, horror e suspense, fica eternizada a frase final, proferida pelo sábio entomologista: “Quando o Homem entrou na Era Atómica, abriu a porta para um novo mundo. O que poderemos vir a encontrar nesse novo mundo, ninguém pode prever.”
David Bernardino


Night of the Demon (1957) Jacques Tourneur
The real horror is to show that we all live unconsciously in fear. Many people suffer today from a fear that they don’t begin to analyze and which is constant. When the audience is in the dark and recognizes its own insecurity in that of the characters of the film, then you can show unbelievable situations and be sure that the audience will follow. For another thing, people love to be afraid. It’s strange, when we’re children, we say to our nurse or to our parents: ‘Frighten us,’ and we love that. These fears stay in us all of our life: we’re afraid of thunder, we’re afraid of darkness, of the unknown, of death. The horror film, if it’s well done, awakens in the mind of the audience this fear that it didn’t know it had in it, and this discovery makes it shiver.
Existe uma tese relativamente popular entre uma certa fação da crítica de cinema que defende que, nos filmes de género marcados pela presença de uma criatura ou monstro, quanto mais tarde o espectador se depara com a sua aparição no ecrã, melhor. Parte-se do pressuposto de que a eficácia do suspense se intensifica através do desconhecido e da mera sugestão. Contudo, independentemente da pertinência pontual dessa teoria, Night of the Demon demonstra que tal generalização carece de fundamento.
O cineasta francês Jacques Tourneur opta por revelar o seu monstro logo nos primeiros momentos do filme — decisão que, longe de enfraquecer o suspense, faz com que a força dessa imagem permaneça a pairar sobre toda a restante narrativa. No limiar entre o terror e o noir hitchcockiano, Night of the Demon acompanha o professor John Holden (Dana Andrews), que chega a Londres para participar numa conferência sobre parapsicologia e acaba envolvido na investigação de atividades suspeitas lideradas pelo enigmático Julian Karswell (Niall MacGinnis).
Tourneur, assumidamente crente no sobrenatural, constrói um protagonista profundamente cético, devoto à ciência e resistente a qualquer forma de misticismo. É precisamente nessa tensão que o filme encontra o seu cerne: a eterna dicotomia entre fé e razão, entre o que é visível e o que permanece invisível.
Reza a lenda que, na primeira exibição pública de L’Arrivée d’un Train à La Ciotat (1895), dos irmãos Lumière, os espectadores gritaram e recuaram apavorados quando o comboio se aproximava da estação. Night of the Demon é também um filme sobre a própria arte de fazer cinema, tal como a restante obra de Tourneur, e sobre o poder aterrorizante das imagens em movimento. Não por acaso, o clímax da narrativa ocorre precisamente numa estação de comboios: o local onde o protagonista é finalmente impelido a acreditar naquilo que ultrapassa a sua compreensão lógica e racional, para assim conseguir transmitir a maldição que sobre ele recaía.
“Maybe it’s better not to know.”
Bruno Victorino

The Damned (1962) de Joseph Losey
A ilha do Doutor Moreau da era nuclear. Realizado pelo exilado Joseph Losey para a Hammer Films, The Damned, também conhecido como These are the Damned, é desarmante pela serenidade com que introduz o elemento de Horror. Que são aquelas crianças?
A princípio quase um biker film, com King (Oliver Reed) e o seu gang de teddy boys em demonstrações de fúria juvenil. O alvo da quadrilha é um americano rico que engraça com Jenny, a irmã de King. Tal como nós, o dono do barco conclui que a Inglaterra dos prados sossegados e velhinhas a tomar chá é matéria de postais – “The age of senseless violence has caught up with us too you know”. Destrunfada a narrativa, o diálogo por símbolos. Paralelamente à trama, um cientista e uma escultora chamada Freya vão desconversando, entre tiradas sobre a burocracia e estatuetas de pássaros e figuras desmembradas. Um ambiente insuportável protagonizado por uma juventude conscientemente alienada nos seus preparos, entretida em gritos e espasmos.
Descemos à gruta. Uns laivos de mundo novo nos pequenos detalhes, da bolacha oferecida por uma das crianças que funciona como soma huxleyana ao Grande Pai no grande ecrã. Que são aquelas crianças? Ainda temos um par de grandes planos nas suas expressões, mas a miudagem procura, literalmente, os ângulos mortos da câmara. Crianças de outro século? Perguntam-nos se não somos nós os seus progenitores, interpelam-nos umas quantas vezes pela sua salvação.
O filme continua e nada acontece. Dir-se-ia que Losey retira o que nunca chegou a dar. A ameaça suspensa como o plano final do helicóptero sobre o barco. Quantas crianças gélidas e abertamente inocentes, sementes laboratoriais e embriões da nova humanidade, andarão por aí? Chega à costa um bote de ansiosas interrogações. Onde pára?
Eduardo Magalhães

Panna a netvor / “A Bela e o Monstro” (1978) de Juraj Herz
Tomando à letra o repto de Halloween deste ano, Panna a netvor, de Juraj Herz, é a história que escolho apresentar. A clássica “Bela e o Monstro” é o mote para este filme – recontada à moda da new wave checa, é-lhe retirada a infantilização da sociedade degradante e adiciona-se-lhe o assombroso toque de um realizador que utiliza, ironicamente sem medo, o terror atmosférico e onírico no seio de um conto de fadas. As personagens mantêm uma forma primordial: o pai ignorante querendo que as filhas conheçam o luxo; destas, as mais velhas, apenas aflitas com o casamento, ou antes, com o enxoval; enquanto a pequena Julie, que aspira apenas à harmonia e felicidade comuns, acaba prisioneira de uma criatura dubiamente malévola.
No entanto, acostumados que estamos aos inúmeros recontares desta história – normalmente adocicados –, esta versão surge-nos cheia de enigmas e toca-nos pelo seu cunho radical, dando continuidade à herança deixada por La Belle et la Bête, de Cocteau.
A violência não é desconhecida, como também não o é a avareza – logo nos primeiros momentos, vemos as joias negociadas serem despedaçadas, caindo sobre o rio, enquanto quem as transporta é atacado fatalmente por um vulto nunca visto. A crítica é clara, e vem a descobrir-se esse vulto reivindicador na criatura híbrida, hermética e isolada, em constante estado de conflito interior: ao vaguear pela mansão obscurecida, encontra-se com os seus reflexos, que diabolizam, questionam e manipulam as suas ações, numa esperança autodestrutiva. E são, sobretudo, estes impulsos que constroem o terror que vemos também materializado nos cenários – as ruínas e nevoeiro góticos, a natureza grotesca –, nos figurinos e nas impurezas do filme – a sujidade literal e moral que afasta Julie da sua terra natal e a leva a encontrar uma beleza mascarada, quebrada.
O alvo é o espectador, e não a personagem que enfrenta os perigos – serena, cúmplice, posteriormente sobrevivente, Julie faz-se serva e amiga daquele que não vê e que nós encaramos, algo apavorados. Ingénua e distraída, assemelhando-se a uma vítima perfeita ou final girl, tememos não pela sua integridade física, mas pelo que advirá da descoberta do que está por detrás da voz inquietante, contudo frágil, que a mantém cativa – os papéis do bom e do mau, da presa e do predador, são mutáveis.
Uma metáfora para a cura que o amor pode proporcionar, ou para os interstícios do mesmo, as oscilações inerentes à transformação do disforme em belo – acompanhadas pelo misticismo da assombração, da aparência, para que atentemos ao que subjaz a um repentino final feliz. É amor, é desejo de ser amada? Poderá ser terror passional que, juntamente com o psicológico e social, cria uma obra imprescindível para compreender as várias faces e valências dos clássicos contos de fadas que nascem da experiência humana, passíveis de serem subvertidos. Porque o verdadeiro terror é aquele que arrepia à vista de algo tão íntimo, tão assustadoramente familiar.
Laura Mendes

Lifeforce (1985) de Tobe Hooper
Que criatura mais devastadora aos nossos olhos do que a figura de uma perfeição carnal? De um desejo sexual mais forte do que a morte, de uma viagem para além dos limites (ou do mistério) da vida humana, Lifeforce é um desastre assombroso de cinema fantástico, parecendo sempre operar pela mais desequilibrada sucessão de ideias. “Our bodies are unimportant”, afirma-nos ela, perfeita e adormecida, e no entanto todo o horror deste filme horrendo se focalizará no corpo – perfeito ou disforme, destruído ou em formação – esse veículo da alma, essa força vital aos olhos do espectador.
A marcha triunfal de Henry Mancini abre o filme, seguindo um travelling sobre uma terra rochosa, nocturna. Quase imaginaríamos um western até nos descobrirmos, afinal, no espaço sideral, com a equipa da Churchill em missão de pesquisa ao cometa Halley (que, curiosamente, visitaria a Terra no ano seguinte à estreia deste filme, sem vítimas). Um corpo estranho – um primeiro – surge no radar, levado pela cauda verde do cometa. Uma imensa torre perdida no espaço (belíssimo travelling vertical, mas na horizontal), paisagens de H. R. Giger e uma macro-colonoscopia, gárgulas medievais fossilizadas até chegarmos, enfim, a ela. Ela, e outros dois, mas sobretudo ela, no interior do seu caixão de vidro, ao centro daquela grande sala de cristal. Ela, “definitivamente humanoide”, que deixará os astronautas embasbacados, esgotados perante a perfeição do seu corpo despido, ali tão longe da Terra.
Adaptando o romance The Space Vampires (Colin Wilson, 1976), Lifeforce move-se da ficção científica ao horror fantástico, da fábula gótica ao filme-catástrofe, sempre na linhagem de um “grande filme de aventura” (eventualmente deformando o signo de Spielberg, que produzira o filme anterior de Hooper). Os seus “vampiros”, que vêm do espaço, darão origem a uma feroz armada de zombies vorazes de sangue. E, necessariamente, tudo se processa não pelas habituais dentadas, mas através de rasgos de desejo carnal. Como em The Thing, neste filme imprevisível, que nunca sabemos bem o que é, também a criatura – que se assumira naquela figura insuperável de mulher – é uma entidade praticamente imaterial, que passa de corpo em corpo, infectando, como sugando, os diferentes veículos que assume.
É tudo um tanto confuso, algo ilógico para além do pulsar daquele desejo. A execução de Hooper nunca deixa de assumir os seus intentos mais populares. Sexo e muito sangue, gritos macabros e diálogos caricatos, há um pouco de tudo num filme onde, a dada altura, dois corpos mortos a bordo de um helicóptero militar cospem o sangue de um corpo de mulher que se forma diante dos nossos olhos. Londres arde pela acção de fantásticos relâmpagos de luz azul. E a resposta virá pelo golpe de uma espada medieval. Um filme absolutamente irrepetível.
Miguel Allen


Brain Damage (1988) de Frank Henenlotter
Olhando para a filmografia de Frank Henenlotter, talvez Brain Damage não seja a escolha imediata, mas pareceu-me fazer todo o sentido nesta nossa lista de Halloween criaturófila. É verdade que o realizador tem um currículo cheio de aberrações memoráveis (por isso comecei logo por restringir a minha escolha a uma das suas obras). Ainda assim, esta tem um charme muito próprio. Enquanto muitas das criaturas do cinema gritam, babam-se ou arranhamparedes, a de Brain Damage é educada, afável e prefere conversar.
É essa inversão que, para mim, torna Brain Damage mais interessante do que o típico filme de terror trash dos anos 80. Aylmer, assim se chama o pequeno parasita de origem alienígena no centro do filme, é cortês e persuasivo. Oferece prazer em troca de obediência. Por ironia do destino, acaba ligado à base da nuca de Brian, um rapaz vulnerável com quem estabelece um pacto de vício químico e psicológico. É, no fundo, o final boss das relações tóxicas. O acordo é simples: Brian alimenta Aylmer, e Aylmer retribui com uma dose de um psicadélico potente que injeta na nuca do rapaz e o mergulha num estado de êxtase. Essa substância azul representa prazer absoluto, mas também dependência. Aylmer pode ser pequeno, só que tem um apetite desmedido e a sua pirâmide alimentar é composta exclusivamente por cérebros (frescos, de preferência). E Brian quer sempre mais umas gotas do delicioso líquido azul.
Henenlotter, mestre do grotesco nova-iorquino, filma esta espiral como uma trip suja, delirante e néon. Por baixo da borracha, dos creature effects questionáveis e do humor negro há uma espécie de moral semi-séria sobre a natureza do vício: o verdadeiro monstro não é o parasita que literalmente se alimenta de cérebros. É a voz interior que cochicha “só mais esta vez”, mesmo quando já sabemos que isso vai acabar mal.
Os filmes de criaturas convencionais focam-se no confronto físico literal. Brain Damage, em última instância, também acaba por o fazer, embora sem nunca se apoiar nisso como pilar narrativo. O combate aqui não é com o “outro”; é com uma parte de nós mesmos, aquela que pede mais, que quer mais prazer e nunca se cala. Aylmer não morde nem desmembra: ele convence. E o seu legado está precisamente em mostrar que a nossa destruição poucas vezes vem de algo que odiamos. Vem daquilo que desejamos demais. Num universo saturado de criaturas brutamontes, Henenlotter criou uma das mais educadas e divertidas da história do género. Mas também uma das mais realistas, em que a ameaça verdadeira reside paredes meias com o desejo. E a cada “só mais esta vez”, o Aylmer sorri, educado, satisfeito, paciente. Ele sabe que acabamos (quase) sempre por ceder.
Carla Rodrigues



