Óscares 2026: As Escolhas da Tribuna do Cinema

EquipaMarço 14, 2026

Enquanto prova de excelência das estreias recentes – ou simultaneamente desacreditados por muitos como simples veículo de promoção de um cinema medianamente qualitativo destinado ao grande público – os Óscares continuam a ser uma passagem inevitável do ano cinematográfico. Se muito da mística se terá perdido, e se o glamour da cerimónia nos pode parecer algo atávico num mundo que deveria, de facto, preocupar-se com questões mais essenciais, o tema nunca deixa de aquecer discussões. Este ano, entre vários vencedores aparentemente “certos” e “anunciados”, chegamos à cerimónia com novas interrogações que conferem um interesse acrescido ao próprio evento. É também um dos anos mais “internacionais” dos prémios da Academia, prova, enfim, de que esta cerimónia continua a servir de barómetro para o mundo do cinema visto a partir do lado dos grandes estúdios americanos.

À semelhança do que fizemos no passado, e no seguimento da contagem decrescente dos últimos meses conduzida por Pedro Barriga, nove críticos da Tribuna partilham as suas previsões e escolhas para as principais categorias, bem como algumas observações gerais sobre os nomeados deste ano. Aqui fica, para começar, o nosso Quadro de Estrelas dedicado aos Óscares :

 

E podem consultar as nossas críticas aos filmes nomeados para Melhor Filme aqui:

O Agente Secreto
Bugonia
F1
Frankenstein
Hamnet
Marty Supreme
One Battle After Another
Sentimental Value / Affeksjonsverdi
Sinners
Train Dreams

 

*

 

David Bernardino

De ano para ano, a velha conversa do costume — a de que “este ano foi particularmente fraco” no que diz respeito aos nomeados aos Óscares, mas também ao panorama geral do cinema de 2025 — parece acentuar-se de forma cada vez mais evidente. O facto de um filme de género absolutamente banal como Sinners ser a obra mais nomeada da história dos prémios da Academia é um sintoma revelador de que algo está muito mal no reino da sétima arte. Na verdade, os dois únicos filmes dignos de figurar em qualquer tipo de palmarés são One Battle After Another e O Agente Secreto, e talvez o sejam apenas porque a fasquia está demasiado baixa. One Battle After Another, o melhor dos nomeados, talvez nem sequer seja um dos cinco melhores filmes de Paul Thomas Anderson.

Seja como for, cá estamos, com o veterano realizador a correr o risco de perder a noite para Sinners de Ryan Coogler. Essa será provavelmente a realidade. Sinners tem vindo a ganhar força no imaginário oscariano e, com tantas nomeações, acredito que acabe mesmo por vencer a estatueta de melhor filme, surpreendendo os cinéfilos que dão como certa a vitória do filme de PTA. Ainda assim, a melhor realização deverá ir para Paul Thomas Anderson, não sendo impossível que Ryan Coogler acabe por protagonizar uma surpresa. Marty Supreme parece estar fora da corrida, com excepção do prémio de melhor actor, onde Timothée Chalamet parece ter feito tudo para sair vencedor. A tendência apontava nesse sentido, mas Michael B. Jordan, por Sinners, pode ainda estragar os planos ao jovem actor. A categoria de melhor actor secundário é talvez a mais bem composta deste ano, com a possível excepção da indicação algo patética de Jacob Elordi como Frankenstein, da Netflix. Entre Sean Penn, Benicio del Toro, Stellan Skarsgård e Delroy Lindo — este último talvez mais pela carreira do que propriamente por Sinners — o prémio ficaria bem entregue, com uma ligeira preferência para os dois primeiros. Nas categorias femininas de interpretação, parece evidente que os prémios deveriam ir para as duas actrizes de Sentimental Value. No entanto, Teyana Taylor está tão em voga que deverá acabar por vencer o prémio de actriz secundária, enquanto o de actriz principal poderá ir para Jessie Buckley, por Hamnet, outro filme muito amado pelo público.

No fundo, é essa a sensação ao antecipar a cerimónia deste ano: um desfile de vencedores moldado por percepções e ondas de apoio, no qual Sinners e One Battle After Another serão provavelmente coroados. Haverá Conan O’Brien como anfitrião, mas, num evento tradicionalmente politizado pelos seus protagonistas, resta ver que tipo de intervenções surgirão este ano, num contexto marcado por uma grande guerra no Médio Oriente e por escândalos de enorme dimensão nos quais a elite de Hollywood parece estar no centro do furacão.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – Sinners
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Sinners

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – O Agente Secreto
Quem pode surpreender – A Voz de Hind Rajab

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Ryan Coogler (Sinners)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Quem devia ganhar – Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Quem pode surpreender – Michael B. Jordan (Sinners)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (If I Had Legs I’d Kick You)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Benicio Del Toro (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Sean Penn (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Stellan Skarsgard (Sentimental Value)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Teyana Taylor (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Wunmi Mosaku (Sinners)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Sinners
Quem devia ganhar – Sentimental Value
Quem pode surpreender – Marty Supreme

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – Hamnet
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Hamnet

 

Pedro Barriga

Mais um ano, mais um grupo de filmes nomeados aos Óscares – de longe a melhor colheita dos últimos anos, talvez até das últimas décadas. One Battle After Another, Sentimental Value, It Was Just an Accident, The Voice of Hind Rajab, O Agente Secreto… Todos eles filmes que acredito que resistirão à passagem do tempo, quer sejam premiados ou não na cerimónia de dia 15. Tudo indica que a noite pertencerá a One Battle After Another, a primeira vez que Paul Thomas Anderson subirá ao palco dos Óscares. Jessie Buckley também o fará, assim como KPop Demon Hunters quando vencer tanto Melhor Filme de Animação como Melhor Canção Original. As minhas maiores dúvidas encontram-se em três categorias. Primeiro, Melhor Filme Internacional: Sentimental Value aparenta ser a escolha óbvia, mas o poder do Brasil é muito forte, como pudemos comprovar no ano passado quando Ainda Estou Aqui derrotou o filme mais nomeado do ano, Emilia Pérez. Segundo, Melhor Actor: há uns meses, Chalamet parecia destinado a vencer a estatueta, mas Michael B. Jordan e Wagner Moura provaram-se candidatos à altura. Por último, Melhor Actriz Secundária: uma corrida muitíssimo renhida entre Taylor, Madigan e Mosaku, que nos deram três interpretações memoráveis em 2025. Feliz Óscares a todos os que celebram!

Melhor Filme
Quem vai ganhar – One Battle After Another
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Sinners

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – It Was Just an Accident
Quem pode surpreender – O Agente Secreto

Melhor Filme de Animação
Quem vai ganhar – KPop Demon Hunters
Quem devia ganhar – KPop Demon Hunters
Quem pode surpreender – Zootopia 2

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Ryan Coogler (Sinners)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Michael B. Jordan (Sinners)
Quem devia ganhar – Ethan Hawke (Blue Moon)
Quem pode surpreender – Timothée Chalamet (Marty Supreme)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – ninguém

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Sean Penn (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Stellan Skarsgard (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Stellan Skarsgard (Sentimental Value)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Amy Madigan (Weapons)
Quem devia ganhar – Teyana Taylor (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Teyana Taylor (One Battle After Another)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Sinners
Quem devia ganhar – Blue Moon
Quem pode surpreender – Sentimental Value

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – One Battle After Another
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Hamnet

 

Carla Rodrigues

Ainda sou uma daquelas teimosas otimistas em relação aos Óscares. Sim senhor, é um desfile de vaidades que no fim de contas recompensa não os melhores filmes mas os maiores interesses, as maiores campanhas. Todavia, não consigo deixar de sentir um certo fascínio por isto. Goste-se mais ou menos do ano que passou em termos cinematográficos, fiquei surpreendida no bom sentido com a diversidade e relativa qualidade dos nomeados de 2026. Talvez mais interessante do que tudo isso, noto uma permeabilidade cada vez maior entre o cinema internacional e as categorias principais. Filmes e intérpretes que há poucos anos estariam confinados à categoria de Filme Internacional aparecem agora, com naturalidade, a disputar melhor filme, interpretação ou argumento, o que diz muito sobre a forma como o mapa cinematográfico da Academia se tem vindo a redesenhar.

Nem todas as escolhas me entusiasmam (que me perdoem os admiradores do desporto automóvel, mas F1 parece estar a jogar ao “Pertence/Não Pertence” da Rua Sésamo); porém temos filmes muito estimulantes no conjunto. De entre todos, o meu favoritismo cai sobre Valor Sentimental, uma obra que encontra na delicadeza das relações familiares um território de enorme densidade emocional. Talvez não seja esta a cerimónia de consagração, mas pelo menos já arrecadou seis prémios nos European Film Awards e é capaz de levar mais um daqui. Não posso deixar de elogiar o meu Marty Supreme, um caos delirante que pode não ser o tipo de cinema que domina a conversa cinéfila mais exigente, mas é difícil negar o prazer que encontra na própria ideia de espetáculo. O mesmo se pode dizer de Sinners, aliás, ainda que neste caso me pareça que as 16 nomeações sejam um delírio coletivo. Ao lado destes convivem outros filmes, alguns mais musculados, outros mais intimistas, mas todos a contribuir para um alinhamento variado e competitivo. Se os Óscares continuam a ser, em grande medida, um jogo de campanhas e narrativas industriais, ainda assim fica a sensação de que o cinema em si (com as suas abordagens, estéticas, línguas, geografias e sensibilidades distintas) consegue ser o que sobressai mais desse jogo.

Acima de tudo, este ano não temos Emília Pérez, por isso ganharemos sempre, aconteça o que acontecer.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – Batalha Atrás de Batalha
Quem devia ganhar – Marty Supreme
Quem pode surpreender – Pecadores

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Valor Sentimental
Quem devia ganhar – Valor Sentimental
Quem pode surpreender – Foi Só Um Acidente

Melhor Filme de Animação
Quem vai ganhar – KPOP Demon Hunters
Quem devia ganhar – KPOP Demon Hunters
Quem pode surpreender – Arco  

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem pode surpreender – Josh Safdie (Marty Supreme)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Thimotée Chalamet (Marty Supreme)
Quem devia ganhar – Thimotée Chalamet (Marty Supreme)
Quem pode surpreender – Michael B. Jordan (Pecadores)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Benicio del Toro (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Jacob Elordi (Frankenstein)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Wunmi Mosaku (Pecadores)
Quem devia ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Amy Madigan (Hora do Desaparecimento)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi com Nader Saïvar, Shadmehr Rastin, e Mehdi Mahmoudian
Quem devia ganhar – Valor Sentimental, Joachiem Trier e Eskil Vogt
Quem pode surpreender – Marty Supreme, Josh Safdie e  Ronald Bronstein

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – Batalha Atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson
Quem devia ganhar – Bugonia, Will Tracy
Quem pode surpreender – Hamnet, Chloé Zhao e Maggie O’Farrell

 

Hugo Dinis

Naquele que parece ser o último ano antes da compra definitiva da Warner Brothers, seja pela família Ellison seja por parte da Netflix, os Óscares veem-se na encruzilhada entre a redução progressiva das estreias em sala da parte dos grandes estúdios de Hollywood e a perda de relevância cultural dos lançamentos das plataformas de streaming. O ano fica necessariamente marcado pelo sucesso crítico e de bilheteira de duas produções inteiramente americanas, Sinners e One Battle After Another. Do ponto de vista da legitimação contínua dos Óscares enquanto cerimónia e instituição, essa é uma necessidade anual que impacta a própria vitalidade da indústria. Mas os argumentos de show business esbarram com a decrescente qualidade do produto fílmico enquanto objecto cultural. One Battle After Another, por exemplo, não será o melhor filme de Paul Thomas Anderson. O mesmo se poderá dizer das obras de Joachim Trier ou Jafar Panahi. Esta missão de fazer recuperar a arte como produto cultural não será sequer exclusiva dos Óscares e faz parte de um debate mais abrangente, apesar de tudo. Para já, o que nos garante mais uma noite de celebração de uma indústria americana cada vez mais apoderada pela realpolitik dos seus termos de relação.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – One Battle After Another
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Hamnet

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – O Agente Secreto
Quem pode surpreender – It Was Just An Accident

Melhor Filme de Animação
Quem vai ganhar – K-Pop Demon Hunters
Quem devia ganhar – ninguém
Quem pode surpreender – Zootopia 2

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Chloé Zhao (Hamnet)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Leonardo DiCaprio (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Wagner Moura (O Agente Secreto)
Quem pode surpreender – Michael B. Johnson (Sinners)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (If I Had Legs I’d Kick You)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Stellan Skarsgård (Sentimental Value)
Quem devia ganhar – Benicio Del Toro (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Benicio Del Toro (One Battle After Another)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Amy Madigan (Weapons)
Quem devia ganhar – ninguém
Quem pode surpreender – Elle Fanning (Sentimental Value)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Marty Supreme
Quem devia ganhar – It Was Just An Accident
Quem pode surpreender – Sinners

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – One Battle After Another
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Hamnet

 

Pedro Bastos Oliveira

A cerimónia deste ano confirma a recente internacionalização dos Óscares. Isso deve-se – ao contrário das acusações de “politicamente correto” – ao aumento do número de votantes da Academia, sobretudo membros não norte-americanos, que trazem as suas produções para a discussão do cinema mundial. Por essa razão, os continentes asíatico, europeu e sul americano têm não só participado, mas protagonizado a própria cerimónia. E embora o grande vencedor da noite seja, provavelmente, um filme americano – Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson , é uma questão de tempo até que Parasitas (2019) deixe de ser um caso isolado, havendo outros vencedores “internacionais” nas categorias de Ator Principal, Argumento, Realização e, sim, Melhor Filme. Batalha não é o melhor filme de PTA, mas vencerá por ser um filme vistoso, por apresentar um género bem definido (o filme de ação), e porque “já era tempo de ele ganhar um Óscar” – um caso que espelha em absoluto The Departed (2006), que deu a Scorsese o primeiro, e tardio, Óscar. É preciso relembrar que vencer um Óscar não equivale a qualidade cinematográfica – nem agora, nem no passado. Na verdade, o evento não passa de uma enorme campanha publicitária (mesmo que o prestígio e audiências da cerimónia estejam a diminuir). Todavia, é positivo ver Joachim Trier a recuperar um certo prestígio perdido do cinema europeu, fazendo relembrar Bergman e Fellini, ou Jafar Panahi, herdeiro evidente de Abbas Kiarostami, que, mesmo numa versão acessível, trará novos espectadores ao cinema iraniano. Não esquecer o fenómeno do ano, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho e da estrela Wagner Moura, que penetrou audiências com sensibilidades opostas, levando a claque brasileira a preencher o vazio deixado por antigos seguidores da cerimónia (desconfiados da nova “globalidade”). Por último, é de esperar uma condução da noite competente e divertida, do experiente, e agora unânime, Conan O’Brien.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – One Battle After Another
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Sinners 

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – O Agente Secreto
Quem pode surpreender – It Was Just an Accident

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Ryan Coogler (Sinners)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Quem devia ganhar – Wagner Moura (O Agente Secreto)
Quem pode surpreender – Michael B. Jordan (Sinners)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley, Hamnet
Quem devia ganhar – Renate Reinsive, Sentimental Value
Quem pode surpreender – Renate Reinsive, Sentimental Value

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Stellan Skarsgård, Sentimental Value
Quem devia ganhar – Benicio Del Toro, One Battle After Another
Quem pode surpreender – Sean Penn, One Battle After Another

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas, Sentimental Value
Quem devia ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas, Sentimental Value
Quem pode surpreender – Amy Madigan, Weapons

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – It Was Just an Accident, Jafar Panahi em colaboração com Nader Saïvar, Shadmehr Rastin, and Mehdi Mahmoudian
Quem devia ganhar – It Was Just an Accident, Jafar Panahi em colaboração com Nader Saïvar, Shadmehr Rastin, and Mehdi Mahmoudian
Quem pode surpreender – Sinners, Ryan Coogler

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – One Battle After Another, Paul Thomas Anderson, inspirada na obra de Thomas Pynchon, “Vineland”
Quem devia ganhar – One Battle After Another, Paul Thomas Anderson, inspirada na obra de Thomas Pynchon, “Vineland”
Quem pode surpreender – Hamnet, Chloé Zhao and Maggie O’Farrell, adaptado do romance de Maggie O’Farrell

Dado que não vi nenhum dos filmes deste ano nomeados para Melhor Filme de Animação, decidi não realizar previsões nessa categoria.

 

Ana Matos

Correndo o risco de partilhar uma visão muito pouco consensual, a corrida aos Oscars deste ano gera um entusiasmo bastante limitado, já que muitos dos principais candidatos me parecem claramente sobrevalorizados. De Sinners a One Battle After Another, passando por Hamnet e até, em certa medida, Sentimental Value, poucos estão verdadeiramente à altura da recepção efusiva da crítica. Duas exceções destacam-se: Sirāt, mais do que um filme, uma experiência sensorial difícil de esquecer, e Marty Supreme, que contra todas as expectativas e apesar de uma campanha de marketing no limite do irritante, trouxe uma frescura que faltou a muitos dos favoritos. Resta saber se a noite confirmará a supremacia de Sinners, o filme mais nomeado de sempre, ou se acabará por sair da cerimónia com pouco mais do que alguns prémios técnicos. A categoria de Melhor Ator é talvez a que mais curiosidade desperta. Timothée Chalamet partia como favorito, mas nas últimas semanas a sua vitória deixou de parecer tão certa. Nota final para a forte presença de filmes internacionais em várias categorias, sinal de uma Academia cada vez mais aberta ao cinema estrangeiro.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – One Battle after Another
Quem devia ganhar – Marty Supreme
Quem pode surpreender – Sentimental Value

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – Sirāt
Quem pode surpreender – Agente Secreto

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle after Another)
Quem devia ganhar – Josh Safdie (Marty Supreme)
Quem pode surpreender – Ryan Coogler (Sinners)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Quem devia ganhar – Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Quem pode surpreender – Michael B. Jordan (Sinners)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Renate Reinsve (Sentimental Value)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Sean Penn (One Battle after Another)
Quem devia ganhar – Benicio del Toro (One Battle after Another)
Quem pode surpreender – Benicio del Toro (One Battle after Another)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Elle Fanning (Sentimental Value)
Quem devia ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Inga Ibsdotter Lilleaas (Sentimental Value)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Sinners
Quem devia ganhar – Marty Supreme
Quem pode surpreender – Sentimental Value

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – One Battle after Another
Quem devia ganhar – Bugonia
Quem pode surpreender – Hamnet

Não incluí a categoria melhor filme de animação porque não vi nenhum dos nomeados.

 

Paulo Ventura

Se há algo evidente na seleção de nomeados deste ano aos prémios da Academia é que a diferenciação entre “cinema” e “cinema internacional” (ou “estrangeiro”, como lhe chamavam anteriormente) parece estar a aproximar-se do fim. Se, por um lado, o desaparecimento dessa diferença significa uma maior valorização de filmes produzidos fora do espaço norte-americano, ou falados numa língua que não seja o inglês, por outro, é bastante claro que tal fenómeno acontece porque Hollywood já não consegue esconder as suas próprias limitações criativas, o seu insucesso e a sua decadência artística. Não se trata de um ano em que os filmes americanos tenham sido particularmente péssimos, nem de um momento em que o cinema feito fora dos Estados Unidos tenha revolucionado a arte e a indústria. Trata-se antes do culminar de um ciclo de mesmice que a Academia (e Hollywood) não consegue mais esconder, o que a obriga a assumir alguma humildade – ainda que forçada – e a tornar-se mais inclusiva na escolha dos seus membros e dos seus nomeados.

Sentimental Value, de Joachim Trier, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, merecem toda e qualquer glória na noite de Óscares, mas independentemente da entrega de prémios, estes filmes “internacionais” levarão para casa o mérito de verem os seus nomes espalhados por diversas categorias numa das maiores noites da cultura norte-americana. Apesar disso, a maior figura em destaque nesta edição, e a que provavelmente levará o maior número de pessoas a acompanhar a cerimónia, será sem dúvida Sinners, de Ryan Coogler, com o seu surpreendente número de nomeações. Não seria inconcebível um cenário em que este se tornasse um dos maiores vitoriosos da história da Academia, pois já se viram coisas mais escabrosas em cerimónias de prémios. Contudo, a acumulação de vitórias por parte de um único filme seria, no mínimo, curiosa (para não dizer ofensiva) numa noite com tanta variedade.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – O Agente Secreto
Quem pode surpreender – Sinners

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – O Agente Secreto
Quem pode surpreender – It Was Just an Accident

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Ryan Coogler (Sinners)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Quem pode surpreender – Joachim Trier (Sentimental Value)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Ethan Hawke (Blue Moon)
Quem devia ganhar – Ethan Hawke (Blue Moon)
Quem pode surpreender – Wagner Moura (O Agente Secreto)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (If I Had Legs I’d Kick You)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Delroy Lindo (Sinners)
Quem devia ganhar – Stellan Skarsgård (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Sean Penn (One Battle After Another)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Elle Fanning (Sentimental Value)
Quem devia ganhar – Elle Fanning (Sentimental Value)
Quem pode surpreender – Wunmi Mosaku (Sinners)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – Sentimental Value
Quem pode surpreender – It Was Just an Accident

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – Hamnet
Quem devia ganhar – One Battle After Another
Quem pode surpreender – Bugonia

Como este ano a animação ficou fora do meu radar e não vi nenhum dos nomeados, deixo de fora a minha previsão para Melhor Filme de Animação.

 

Maria Inês Opinião

Os Óscares são, ainda, uma porta de entrada à cinefilia e uma ponte entre os próprios cinéfilos e o público mais moderado do cinema. A recente abertura ao mundo não-americano (quem se consegue esquecer da cerimónia de 2019?) pode significar uma maior adesão ao cinema europeu (nórdico, em particular) e ao iraniano. Ainda que as nomeações de 2026 apresentem alguns soluços, em particular aquelas de Sinners, é um conjunto mais composto do que os dos últimos anos. 

O grande vencedor da noite deverá ser Paul Thomas Anderson, já que a Academia tem a tendência de oferecer os seus prémios a quem já está na fila de espera, mesmo que não seja a sua melhor obra. A PTA devem já 6 estatuetas de melhor argumento e 3 de melhor realizador e filme – Yorgos Lanthimos terá de ficar para a próxima. É provável que Sentimental Value fique com apenas uma das suas históricas nomeações de atores, mas o seu caráter apolítico poderá garantir-lhe o melhor filme internacional. Timothée Chalamet teve a sua campanha mais expressiva, o que lhe custou algum público por ter destruído a imagem de rapaz ponderado que lhe fora construída; assim, poderá ter garantido o Óscar a um dos veteranos da indústria. Seja qual for o resultado da madrugada, esperemos que Sinners vá como chegou.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – Batalha Atrás de Batalha
Quem devia ganhar – Valor Sentimental
Quem pode surpreender – Pecadores

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – Foi Só Um Acidente
Quem pode surpreender – Sirat

Melhor Filme de Animação
Quem vai ganhar –
Quem devia ganhar –
Quem pode surpreender –  

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem pode surpreender – Josh Safdie (Marty Supreme)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Michael B. Jordan (Pecadores)
Quem devia ganhar – Thimotée Chalamet (Marty Supreme)
Quem pode surpreender – Wagner Moura, O Agente Secreto

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Benicio Del Toro (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Sean Penn (Batalha Atrás de Batalha)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Quem devia ganhar – Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Amy Madigan (Hora do Desaparecimento)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi com Nader Saïvar, Shadmehr Rastin, e Mehdi Mahmoudian
Quem devia ganhar – Valor Sentimental, Joachiem Trier e Eskil Vogt
Quem pode surpreender – Valor Sentimental, Joachiem Trier e Eskil Vogt

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – Frankenstein, Guillermo del Toro
Quem devia ganhar – Batalha Atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson
Quem pode surpreender – Bugonia, Will Tracy

 

Raquel Sampaio

Independentemente do que aconteça a 15 de Março, a temporada que chegou até aqui já valeu a pena. 2025 foi um ano extraordinário para o cinema e, mais importante, para o cinema visto em sala. One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, e Sinners, de Ryan Coogler, são dois filmes que nasceram para o grande ecrã, que exigem o grande ecrã, e que fizeram as pessoas regressar a ele. Isso, por si só, já merecia celebração.

Esta edição é também aquela onde a aposta da Academia na diversidade (de vozes, de geografias, de géneros cinematográficos) deu mais frutos. Jafar Panahi e o seu It Was Just an Accident (o meu filme favorito do ano passado), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, chegam às nomeações para Melhor Filme Internacional e Melhor Argumento Original numa lista que inclui também o maior número nomeações para filmes estrangeiros de que há memória. Um realizador iraniano que filmou em condições impossíveis, perseguido pelo próprio Estado, nomeado para o prémio mais visto do mundo ao lado de filmes brasileiros, noruegueses, espanhóis e tunisinos. Que assim continue, por muitos mais anos.

Melhor Filme
Quem vai ganhar – Batalha Atrás de Batalha
Quem devia ganhar – Batalha Atrás de Batalha
Quem pode surpreender – Sinners

Melhor Filme Internacional
Quem vai ganhar – Sentimental Value
Quem devia ganhar – Foi Só Um Acidente
Quem pode surpreender – O Agente Secreto

Melhor Filme de Animação
Quem vai ganhar –  KPop Demon Hunters
Quem devia ganhar – KPop Demon Hunters
Quem pode surpreender –  Zootopia 2

Melhor Realização
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem pode surpreender – Ryan Coogler (Sinners)

Melhor Actor
Quem vai ganhar – Michael B. Jordan (Sinners)
Quem devia ganhar – Ethan Hawke (Blue Moon)
Quem pode surpreender – Wagner Moura (O Agente Secreto)

Melhor Actriz
Quem vai ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem devia ganhar – Jessie Buckley (Hamnet)
Quem pode surpreender – Rose Byrne (If I had legs I’d kick you)

Melhor Actor Secundário
Quem vai ganhar – Sean Penn (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
Quem pode surpreender – Benício Del Toro (Batalha Atrás de Batalha)

Melhor Actriz Secundária
Quem vai ganhar – Amy Madigan
Quem devia ganhar – Wunmi Mosaku (Sinners)
Quem pode surpreender – Teyana Taylor (Batalha Atrás de Batalha)

Melhor Argumento Original
Quem vai ganhar – Sinners
Quem devia ganhar – Jafar Panahi (Foi Só Um Acidente)
Quem pode surpreender – Sentimental Value

Melhor Argumento Adaptado
Quem vai ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem devia ganhar – Paul Thomas Anderson (Batalha Atrás de Batalha)
Quem pode surpreender – Will Tracy (Bugonia)