Foi um ano curioso. A nossa lista conjunta de “melhores filmes do ano” evidencia as inevitáveis fracturas de um 2025 que muito pouco se deu a consensos. Ano bom ou ano mau, foram raros (ainda que evidentes) os pontos de acordo entre dez listas individuais que se espalharam por mais de uma centena de títulos. Um primeiro lugar destacadíssimo (que se anunciava), dois outros filmes transversalmente nomeados. Mas, de seguida, uma lista muito numerosa de filmes com resultados muito próximos uns dos outros.
A nossa lista final parece confirmar a pluralidade de vozes que se vive na Tribuna, deixando-nos, nisso, tão satisfeitos quanto necessariamente frustrados. Se filmes como Miroirs no. 3, Sinners ou The Mastermind ficaram à porta deste top, outros filmes seleccionados terão mesmo sido motivo de artigos menos positivos da nossa parte. 28 Years Later, Bugonia, Weapons ou mesmo Caught by the Tides não são as escolhas de todos. E se, por um lado, o consenso é contrário ao espírito crítico, somos também forçados a assumir que nos parece que ninguém compreendeu exactamente de que ano se tratava este.
Enfim, de mencionar ainda que, para além desse número inédito de filmes nomeados, alguns títulos mais apreciados acabaram “pendurados” entre o ano passado e este, perdendo claramente destaque na lista conjunta final (por exemplo Miséricorde ou The Shrouds). Se tal se deve à passagem dos filmes por festivais, com estreia comercial apenas no ano seguinte, importa salientar que esta ocorrência não afecta o cinema mais “comercial”, que acaba beneficiado pelo ar de discordância que se sente. O nosso critério de escolha recaiu sobre filmes vistos em 2025, desde que estreados nesse ano “em algum lugar”. E aqui chegámos.
-
-
- One Battle After Another de Paul Thomas Anderson
- Foi Só Um Acidente (یک تصادف ساده), de Jafar Panahi
- O Agente Secreto de Kléber Mendonça Filho
- Cloud de Kiyoshi Kurosawa
- Sentimental Value de Joachim Trier
- Caught by the Tides (风流一代) de Jia Zhangke
- 28 Years Later de Danny Boyle
- Bugonia de Yorgos Lanthimos
- Weapons de Zach Cregger
- A Traveler’s Needs (여행자의 필요), de Hong Sang-soo
-
_______________
listas individuais

Os melhores de David Bernardino
Não querendo soar velho do Restelo, não há como negar. Apesar de ainda não terem passado em Portugal filmes sonantes como Sentimental Value, Marty Supreme ou No Other Choice, 2025 foi um ano muito fraco. Mesmo comparado com 2024, no ano passado sempre tivemos The Substance, Ferrari, Grand Tour, Juror #2 ou All We Imagine as Light, entre vários outros filmes interessantes como Strange Darling, The Iron Claw ou Scorched Earth. Este ano contam-se pelos dedos das mãos os filmes que, penso, serão recordados no futuro. O que mais me encheu as medidas foi One Battle After Another, pela sua imagem, interpretações e vertigem. 28 Years Later terá sido a grande surpresa, longe de consensual, com um fantástico regresso de um Danny Boyle descontrolado. O Agente Secreto recorda Antonioni, e Rental Family, com Brendan Fraser no Japão, teria tudo para estar nos grandes prémios, mas parece ter sido afastado. Fecho a mão com Where to Land, a nova comédia existencialista do independente americano Hal Hartley. Todas as minhas outras 15 escolhas, com mais ou menos ordem, reflectem propostas interessantes que foram passando nas salas comerciais e nos festivais. Aquilo que fica de 2025 olhando agora para trás é sobretudo a falta de ideias. Filmes mastigados, quase sempre sobre a “actualidade política” ou o trauma das novas gerações, parecem ter encontrado terreno fértil em 2025, copiando-se uns aos outros e sem nada para dizer além de banalidades circulares. Há excepções claro, aliás nas minhas 20 escolhas muitos percorrem inevitavelmente esses temas, mas pelo menos souberam também encontrar neles cinema. Onde se notou, e muito, esta falta de ideias e qualidade foi nos festivais. Festivais que nos habituaram a pensar a sétima arte, como o LEFFEST ou o MOTELX, sofreram claramente com a falta de novos filmes de qualidade e isso notou-se na programação. Por outro lado os pequenos festivais parecem ter vindo cada vez mais a ganhar o seu espaço, realçando-se o Outsiders e o Porto/Post/Doc. Nota ainda para um ano especial na Cinemateca, com destaque para os westerns e o cinema mudo acompanhado ao piano tocado ao vivo que tanto prazer nos têm dado, numa parceria que nos orgulha. Esperemos que 2026 seja um ano mais relevante, com maior liberdade temática e criativa. Se assim não for, teremos sempre o cinema de outros tempos para encher as nossas linhas.
-
-
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- 28 Years Later, de Danny Boyle
- O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho
- Where to Land, de Hal Hartley
- Rental Family, de Hikari
- Black Bag, de Steven Soderbergh
- Cloud, de Kiyoshi Kurosawa
- Weapons, de Zach Cregger
- Caught Stealing, de Darren Aronofsky
- Keeper, de Osgood Perkins
- Miséricorde, de Alain Guiraudie
- Dangerous Animals, de Sean Byrne
- Presence, de Steven Soderbergh
- Eddington, de Ari Aster
- Lucky Lu, de Lloyd Lee Choi
- F1, de Joseph Kosinski
- Bulk, de Ben Wheatley
- The Smashing Machine, de Benny Safdie
- Touch Me, de Addison Heimann
- Flight Risk, de Mel Gibson
-
Os melhores de Bruno Victorino
2025 foi um ano em que vi poucos filmes, por circunstâncias diversas. Optei por dar prioridade, por exemplo, aos excelentes ciclos programados pela Cinemateca Portuguesa ou pelo Nimas, em detrimento do cinema contemporâneo. Assim, os meus filmes do ano são muito mais Les Parapluies de Cherbourg (1964), de Jacques Demy, Corps à Cœur (1979), de Paul Vecchiali, Shadows of Forgotten Ancestors (1965), de Sergei Parajanov, Banditi a Orgosolo (1961), de Vittorio De Seta, Hatari! (1962), de Howard Hawks, Naufragio (1978), de Jaime Humberto Hermosillo, Les Naufragés de l’Île de la Tortue (1976), de Jacques Rozier, 7th Heaven (1927), de Frank Borzage, ou The Ox-Bow Incident (1943), de William A. Wellman, entre outros.
No entanto, importa sublinhar que, contrariamente ao que tem sido veiculado acerca da menor qualidade do ano cinematográfico, e mesmo tendo em conta a reduzida amostra que tive oportunidade de ver, considero a lista bastante nobre. Note-se, contudo, que dos quinze títulos elencados apenas seis estrearam efetivamente no circuito comercial ao longo do ano que agora termina. Talvez não se esteja a procurar o cinema nos lugares certos. E, se há um espaço que continua a importar e a destacar-se claramente dos restantes — por ir muito além da programação mais ou menos óbvia de festivais como o LEFFEST — é o Doclisboa. Alguns destes títulos poderão ainda vir a estrear comercialmente em 2026; outros, infelizmente, não terão essa sorte, pelo que seria injusto excluí-los da elaboração deste top.
Muito ficou por ver. Fica, por agora, apenas a menção ao filme estreado em Portugal que mais me custou nao ter visto em sala: Youth, de Wang Bing.
-
-
- Miséricorde, de Alain Guiraudie
- Avenida Saenz 1073, de Lucía Seles
- Cloud, de Kiyoshi Kurosawa
- La Noche Está Marchándose Ya, de Ramiro Sonzini, Ezequiel Salinas
- Trois Amies, de Emmanuel Mouret
- The Mastermind, de Kelly Reichardt
- Água Mãe, de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres
- “Caught by the Tides“, de Jia Zhangke
- Miroirs No. 3, de Christian Petzold
- Blue Moon, de Richard Linklater
- Where to Land, de Hal Hartley
- La Prisonnière de Bordeaux, de Patricia Mazuy
- Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes
- Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo, de Fábio Rogério e Wesley Pereira de Castro
- After the Hunt, de Luca Guadagnino
-
Os melhores de Pedro Barriga
Para a minha lista, considerei apenas filmes estreados em Portugal ao longo de 2025, com exceção de Sentimental Value, que vi em Cannes e que estreia por cá em janeiro de 2026.
Prova de que 2025 foi um ano rico em cinema – todos são na verdade, basta dar-se ao trabalho de procurar – é o facto de algumas das melhores cenas que vi este ano pertencerem a filmes que não entraram na minha lista: o prelúdio de Frankenstein, o assalto ao museu (The Mastermind), a droga alucinogénia (Avatar: Fire and Ash), a entrevista de Lois Lane (Superman), o submarino afundado (Mission: Impossible – The Final Reckoning), ou a cena final de On Becoming a Guinea Fowl.
Muitas das minhas interpretações preferidas do ano também vieram de filmes fora da minha lista: Ralph Fiennes (28 Years Later), Robert Pattinson (Mickey 17), June Squibb (Eleanor the Great), Billy Crudup (Jay Kelly), Amy Madigan (Weapons), Vicky Krieps (Father Mother Sister Brother).
Passemos, por fim, para a dita lista. 2025 foi sinónimo de One Battle After Another, incontornavelmente o filme do ano. Também as vozes dissidentes e urgentes de Jafar Panahi e Kaouther Ben Hania materializaram-se sob a forma de duas grandes obras. Para lá da ficção, muito de bom se fez no documentário (e.g. As Flores e Cover-Up). Já na animação, do que vi nada me marcou particularmente – apenas dois títulos de 2023, Robot Dreams e Mars Express, que só em 2025 chegaram ao nosso país.
-
-
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- It Was Just an Accident, de Jafar Panahi
- The Voice of Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania
- Sentimental Value, de Joachim Trier
- A House of Dynamite, de Kathryn Bigelow
- Bugonia, de Yorgos Lanthimos
- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
- Robot Dreams, de Pablo Berger
- Romería, de Carla Simón
- Pillion, de Harry Lighton
- Black Bag, de Steven Soderbergh
- Blue Moon, de Richard Linklater
- Ballerina, de Len Wiseman
- F1, de Joseph Kosinski
- Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques
- As Flores, de Madalena Fragoso
- A Vida Luminosa, de João Rosas
- If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstein
- Mars Express, de Jérémie Périn
- Cover-Up, de Laura Poitras e Mark Obenhaus
-
Os melhores de Gil Gonçalves
Um ano terrível. Tiremos isto rapidamente do caminho, porque sou incapaz de me juntar ao coro de indefetível otimismo que, entre certezas mais ou menos absolutas, continua alegremente a declarar que 2025 se situa entre o “muito bom, ao contrário do que inicialmente se fazia anunciar” e o “nem foi assim tão mau”. Foi. Não vale a pena (valerá, noutros lugares) entrar em grandes reflexões sobre mudanças estruturais de paradigma na forma-cinema ou na indústria-cinema, pois também não é de agora, nem exclusivamente neste campo, que se vem notando uma progressiva homogeneização dos modos de fazer e pensar a arte e o mundo e, crucialmente, do gosto. O gosto dos cineastas, antes do gosto dos críticos e do público; todos cada vez mais constrangidos, nivelados e ditados por uma bitola discursiva e mercantil do que vale e do que não vale.
É neste contexto que a minha lista de eleitos de 2025 deve ser lida. Não porque todos os filmes que a compõem sejam maus, mas porque todos eles têm em si alguma forma de resistência – seja na pura inventividade do gesto (Caught by the Tides); no olhar muito particular dos seus cineastas sobre as “coisas do mundo” (Una Película de Miedo, Cloud, Justa, Self Driver, River Returns, Trains, Sentimental Value); na intransigência dos princípios fílmicos e, portanto, políticos e filosóficos (Oh Canada, The Mastermind, Hard Truths, Eddington, A Traveler’s Needs, The Shrouds, The Phoenician Scheme); ou ainda na muito séria e nobre empresa de proporcionar ou discutir o prazer sem o entender como alienação (One Battle After Another, Babygirl, Nova ’78, Miséricorde).
Não sendo a lista que queria apresentar (talvez o primeiro e o segundo títulos sejam os únicos a recordar e recomendar com um sopro no coração em anos vindouros), é, apesar de tudo, um conjunto de filmes feitos com seriedade e visão autoral. Nos dias que correm, não é coisa pouca.
-
-
- “Caught by the Tides“, de Jia Zhangke
- Henry Johnson, de David Mamet
- Una Película de Miedo, de Sergio Oksman
- Cloud, de Kiyoshi Kurosawa
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- Justa, de Teresa Villaverde
- Self Driver, de Michael Pierro
- Oh Canada, de Paul Schrader
- “River Returns”, de Masakazu Kaneko
- The Mastermind, de Kelly Reichardt
- Babygirl, Halina Reijn
- Nova ’78, de Rodrigo Areias, Aaron Brookner
- Hard Truths, Mike Leigh
- Eddington, Ari Aster
- The Shrouds, David Cronenberg
- “A Traveler’s Needs”, Hong Sang-soo
- After the Hunt, Luca Guadagnino
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- The Phoenician Scheme, Wes Anderson
- Sentimental Value, Joachim Trier
-
Os melhores de Francisco Sousa
2025 chega ao fim, um ano de altos e baixos, que teve alguns dos melhores filmes a estrear em sala bem antes daquela que é a altura considerada normal para os melhores filmes do ano. Uma Batalha Atrás de Batalha é mais uma prova que Paul Thomas Anderson é uma das grandes vozes do cinema norte-americano dos últimos 30 anos. Baseado no livro de Thomas Pynchon, Vineland, considerado por muitos como impossível de adaptar, OBAA é um sucesso a todos os níveis e por isso está no primeiro lugar deste top. Os três filmes que se seguem são as grandes surpresas de 2025. O regresso à grande forma da dupla Danny Boyle e Alex Garland com 28 Years Later, a confirmação de Ryan Coogler como um dos realizadores da sua geração e Michael B Jordan como estrela em Sinners e, finalmente, Zach Cregger vem provar que o sucesso de Barbarian não foi um acaso com o espetacular Weapons. Finalmente, destaque para a presença de O Agente Secreto, filme sensação brasileiro de 2025.
O resto da lista reflete um ano onde o cinema de autor continuou a mostrar vitalidade — de Joachim Trier a Park Chan-wook —, o cinema de género encontrou algumas das suas propostas mais interessantes dos últimos anos (Weapons, Wake Up Dead Man, Black Bag), e os grandes estúdios oscilaram entre o espetáculo tecnicamente irrepreensível (Avatar: Fire and Ash, F1) e resultados mais discutíveis a nível narrativo. Um ano desigual, mas com identidade, risco e vários filmes que justificaram plenamente a ida às salas.
Nota: à data da publicação, ainda não foi possível ver dois dos filmes sensação do ano, Hamnet e Marty Supreme.
-
-
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- 28 Years Later, de Danny Boyle
- Sinners, de Ryan Coogler
- Weapons, de Zach Cregger
- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
- It Was Just an Accident, de Jafar Panahi
- Sentimental Value, de Joachim Trier
- Warfare, de Alexander Garland
- Splitsville, de Michael Angelo Covino
- Roofman, de Derek Cianfrance
- The Phoenician Scheme, de Wes Anderson
- Blue Moon, de Richard Linklater
- No Other Choice, de Park Chan-wook
- Avatar: Fire and Ash, de James Cameron
- Eddington, de Ari Aster
- F1, de Joseph Kosinski
- Eephus, de Carson Lund
- Black Bag, de Steven Soderbergh
- Friendship, de Andrew DeYoung
- Wake up Deadman, de Rian Johnson
-
Os melhores de Carla Rodrigues
Tenho de confessar que no início do ano não me senti muito otimista em relação aos meses de filmes que estavam por vir. Não foi uma sensação que tenha batido logo em janeiro ou fevereiro (altura em que me dediquei a apanhar as pontas do que tinha perdido em 2024) mas mais quando começaram a chegar os primeiros filmes oficialmente carimbados como sendo de 2025. O arranque foi frouxo. Companion foi a primeira estreia de 2025 que vi e deixou-me com uma sensação terrível, um filme pouco original, sensaborão, sem nada de interesse para dizer nem mostrar. Demorei algum tempo a sacudir o amargo. Parecia-me um mau augúrio.
Mas lá para o meio do ano, o cenário começou-se a compor. Até os filmes de super-heróis, terreno onde há muito sinto a exaustão do “já dei para esse peditório”, trouxeram coração. Thunderbolts* ou Superman não reinventaram o género, mas lembraram-me que o cinema de grande escala ainda pode ser feito com convicção, sem cinismo.
A dado ponto, começaram a chegar os filmes que assentaram o ano para mim. Obras muito diferentes entre si, mas ligadas por uma atenção meticulosa às relações humanas e a sua inerente fragilidade. Alguns, como Sentimental Value, Sorry, Baby e Die, My Love lidam com histórias complexas de forma frontal, às vezes desconfortável, mas sempre honesta. Outros avançaram por territórios de excesso e ambição, como One Battle After Another, Bugonia ou Eddington, filmes que transformam o colapso social e a tensão política em motores narrativos, para servir de eco a esta sensação diária e arrepiante que temos de um mundo prestes a sair dos eixos. No campo do terror, Weapons foi uma delícia que conseguiu ir do terror genuíno à comédia e ao slapstick sem ser, por um segundo, incoerente.
Esta reta final do ano foi particularmente ingrata para quem, como eu, gosta de listas. Entraram filmes, saíram filmes, voltaram a entrar. No fim, o que ficou foi a sensação de um ano que começou morno, mas acabou com sangue na guelra. Um ano em que o cinema encontrou espaço tanto para o íntimo quanto para o excessivo, para a contenção e para o desvario. E, mais uma vez, um ano que me deixou com muita coisa para explorar nos primeiros meses de 2026, porque o tempo não perdoa.
A lição que tiro é básica e já a devia saber de cor: no cinema, como na vida, nem todos os anos se anunciam logo à partida. Mas mesmo quando a luz tarda, 365 dias de imagens em movimento continuam a guardar espaço para o assombro. Vale, quase sempre, a pena esperar para ver.
-
-
- Sentimental Value, de Joachim Trier
- Sorry, Baby, de Eva Victor
- Bugonia, de Yorgos Lanthimos
- Friendship, de Andrew DeYoung
- Urchin, de Harris Dickinson
- Die, My Love, de Lynne Ramsay
- Weapons, de Zach Cregger
- Frankenstein, de Guillermo del Toro
- Black Bag, de Steven Soderbergh
- Sinners, de Ryan Coogler
- Flow, de Gints Zilbalodis
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- It Was Just An Accident, de Jafar Panahi
- Eddington, de Ari Aster
- Thunderbolts*, de Jake Schreier
- Materialists, de Celine Song
- Sirāt, de Oliver Laxe
- Superman, de James Gunn
- No Other Choice, de Park Chan-Wook
- Mickey 17, de Bong Joon-Ho
-
Os melhores de André Filipe Antunes
São quinze os 20 melhores de 2025. Os que foram possíveis espremer, num ano marcado por desilusões de cineastas consagrados (Guadagnino, Aster) e por filmes que muito prometiam mas pouco entregaram, ou eu pouco fui capaz de me entregar a eles – o diálogo interno em Marés Vivas, de Jia Zhangke, que outros tribunos certamente terão entre as suas escolhas, foi para mim perdido na tradução de uma obra cinematográfica que desconheço, mea culpa. Nos seus piores períodos, o ano que agora acaba roçou mesmo um esvaziar da alma, da exaltação que sentimos ao ver os grandes filmes e da qual dei por mim a sentir saudades durante demasiado tempo. Até os festivais, geralmente terreno fértil em fazer chegar o cinema que as grandes distribuidoras ora ignoram, ora lançam contrariadas, tarde e a más horas, foram este ano escanzelados de coisas decentes, com uma ou outra exceção. Caso para pensar que o cinema, essa arte do século XX, está mesmo morto e enterrado…
…e, no entanto, os diários cinéfilos deste ano registaram algumas experiências que vale a pena recordar. A absoluta surpresa ao descobrir, logo em janeiro, um dos mais dinâmicos e inventivos filmes do ano num biopic sobre uma estrela pop semi-esquecida de há 20 e tal anos, assinado por um antigo realizador de anúncios a refrigerantes. O momento em que a guitarra de Miles Caton transborda os limites do tempo e da tela em Pecadores. A prova de vitalidade do cinema português que, mesmo que desencontrado do espectador nacional (que também nunca foi o seu) mostrou pujança e diversidade, como aqui demos conta este mês. Pude ver mestres que acompanho há já vários anos em plena forma e pico criativo, e cheguei finalmente a outros, como Hong Sang-soo, que tanto têm para nos ensinar sobre o que o cinema é e o que ainda pode ser.
Acima de tudo, 2025 valeu pelo convite à descoberta, à abertura para se encontrar as pérolas escondidas ou esquecidas nos lugares menos óbvios ou badalados. Nos dias que correm, em que tanto se escreve e se teme pelo futuro do cinema e da experiência em sala, talvez esse convite seja ele mesmo um antídoto para a apatia e para o esquecimento, e mantê-lo presente a melhor forma de as combater. É para isso que serve e é desse convite que é feita qualquer uma destas listas – tenham o tamanho que tiverem.
O critério utilizado inclui títulos inéditos em Portugal, estreados em sala comercialmente, em festivais ou nas várias plataformas digitais.
-
-
- Chime, de Kiyoshi Kurosawa
- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
- Batalha Atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, de Hong Sang-soo
- Percebes, de Laura Gonçalves e Alexandra Ramires
- Foi Só Um Acidente, de Jafar Panahi
- Adeus Philippine, de Jacques Rozier
- Better Man, de Michael Gracey
- A Vida Luminosa, de João Rosas
- Pecadores, de Ryan Coogler
- Cão Preto, de Guan Hu
- Avatar: Fogo e Cinza, de James Cameron
- Flow – À Deriva, de Gints Zilbalodis
- Nickel Boys, de RaMell Ross
- Paraíso, de Daniel Mota
-
Os melhores de Hugo Dinis
De que é que o leitor se vai lembrar a propósito do ano de 2025 daqui por uns anos? Se calhar pouco lhe ficará na memória se não lhe estiver a ocorrer algum tipo de mudança pessoal e familiar. Mas o que de certo sobrará é ter sido mudado por uma obra de arte. Pelas perspectivas diversas que nos mostra, pela história que conta, e pela relação que temos com ela. No caso do cinema, os dias que correm parecem estar sempre mais propícios a (re)descobrir os filmes que ficaram para trás no tempo do que os que agora conhecem a sala de cinema. Ainda que 2025 tenha produzido um punhado de excelentes filmes, todos os anos são bons para descobrir os filmes do passado, mais ou menos distante que seja. A obra de 2025 encontra sempre raízes noutras eras do cinema, com todas as possibilidades e restrições que isso representa. Vemos muito de Running on Empty de Lumet em One Battle After Another, da mesma forma que sentimos a presença de Memories of Murder de Bong em Zodiac Killer Project, ou a força onírica de Trenque Lauquen de Citarella em O Agente Secreto. A nota não se pretende que seja de saudosismo mas de descobrimento infantil dos inúmeros mundos do cinema para além do de hoje, de garrote financeiro ao pescoço. 2025 voltou a evidenciar a tendência do cinema popular para se adensar em influências do capital de risco, em particular americano, e criar obras cada vez mais derivativas e, essas sim, saudosistas, em virtude desse impacto. Em era de fusões e aquisições, o propósito artístico está perante o garrote mais invisível pelo menos da história do cinema. A individualidade e a originalidade são preciosas para garantir que todos os anos cheguem às salas filmes que possam representar algo que nunca vimos antes, seja isso uma nova perspectiva sobre um tema ou um retrato de pessoas que não conhecemos. Não é de espantar que os lançamentos dos grandes estúdios se diluam entre si. Desde o “aspecto Netflix” aos franchises e biopics de Gente Conhecida™, este fechamento da indústria de cinema popular garante cada vez mais uniformidade e sensação de ausência de novidade. O artista poderá sempre contornar algumas das suas limitações, mas estamos definitivamente na era do cinema de estúdio, agora com estúdios controlados por Wall Street e Silicon Valley ao invés de Louis B. Mayer ou David O. Selznick. A minha lista procura sempre resistir a essa pressão uniformizadora, com a esperança de vir a redescobrir novas perspectivas de 2025, mesmo que apenas mais tarde.
-
-
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Tardes de Soledad, Albert Serra
- One Battle After Another, Paul Thomas Anderson
- It Was Just An Accident, Jafar Panahi
- Oeste Outra Vez, Erico Rassi
- Zodiac Killer Project, Charlie Shackleton
- Le Rendez-vous de L’été, Valentine Cadic
- Sirāt, Oliver Laxe
- The Mastermind, Kelly Reichardt
- Entroncamento, Pedro Cabeleira
- Anything That Moves, Alex Phillips
- Hard Truths, Mike Leigh
- What Does That Nature Say To You?, Hong Sang-soo
- Bajo Las Banderas, El Sol, Juanjo Pereira
- Mektoub My Love: Canto Due, Abdellatif Kechiche
- All The Empty Rooms, Joshua Seftel
- Escape, Masao Adachi
- The Phoenician Scheme, Wes Anderson
- Little Boy, James Benning
- Beatles ’64, David Tedeschi
-

Os melhores de Laura Mendes
2025 foi um ano de sala de cinema. A maioria dos filmes seus representantes, presentes nesta lista, foram vistos no grande ecrã o que, favorecendo-os, mostra também a crescente tendência ou, no mínimo, vontade, de (re)ocupar as salas, reencontrando velhos amigos ou decifrado autorias emergentes. Ainda que nenhum deles constitua uma obra-prima da contemporaneidade, afirmam-se como disruptores de normas – permitindo-me contrariar a tentação própria de descartar as estreias nem sempre tão apelativas. O destaque vai para The Shrouds, filme que nos reconectou com tempos áureos do cinema de Cronenberg – tendo porém consciência de que deles se vai afastando. Algumas vozes contemporâneas já conhecidas continuam a fazer-se ouvir: Albert Serra e Radu Jude mantêm o seu caráter crítico, espezinhando situações-limite com audácia, a par de uma bela surpresa – Magic Farm, uma comédia que vive tanto da jovialidade como da dureza da sátira. Não são de desconsiderar grandes títulos e produções como Bugonia ou Sirāt que, apesar de cederem ao enlevo comercial, perpassam e desconstroem temáticas muito presentes. É importante a menção ao Beast International Film Festival, por proporcionar a visualização de Endless, prova viva de que o experimentalismo tem ainda muitos frutos a dar. A Traveler´s Needs e Miroirs No. 3 abrem espaço para a contemplação, para as incongruências da vida e a profundidade dos seus des(encontros), na forma de experiências íntimas e humanas. No plano nacional, Paraíso dá a ver a marginalidade por muitos desconhecida – retratos que urge conhecer.
-
-
- The Shrouds, David Cronenberg
- Tardes de Soledad, Albert Serra
- A Traveler´s Needs, Hong Sang-soo
- Endless, Wojciech Puś
- Kontinental ´25, Radu Jude
- Paraíso, Daniel Mota
- Magic Farm, Amalia Ulman
- Bugonia, Yorgos Lanthimos
- Miroirs No. 3, Christian Petzold
- Sirāt, Oliver Laxe
-

Os melhores de Miguel Allen
Quando, em fins de Novembro, os Cahiers du Cinéma se apressaram a publicar a sua lista de melhores do ano (encabeçada pelo Tardes de Soledad), lancei-me, como sempre, nesse inglório mas inevitável exercício de comparar os melhores deste paupérrimo 2025 com os de outros anos. É certo que já vai para pelo menos quinze anos (ou muito mais?) que não conhecemos um bom ano de cinema. Habituámo-nos, pouco a pouco, a ver nestas listas não exactamente os filmes que gostamos de ver, mas sobretudo aqueles que pudemos ver. Mas, ainda assim, é com um certo desconsolo que – e esqueçamos por um momento o título que ficou em primeiro lugar – pensamos em como algo como L’Aventura, de Sophie Letourneur (nada contra, tem muita graça, mas enfim…), ocupa hoje o sexto lugar de uma lista que, em 1965, tinha Il Vangelo secondo Matteo em nono, que em 1985 tinha Love Streams em sexto, ou que, em 1995, tinha Sonatine em sétimo. É certo que, em 2005, por lá figura o Sin City. Em 2015 (numa lista que nem é muito má) tropeçamos no The Smell of Us. Mas por muitos que sejam os pecados de outros anos, difícil será nos recordarmos de um registo tão pobre quanto o deste nosso 2025.
Ardesse este ano dos nossos livros, e perderíamos uma parca mancheia de filmes. Não sejamos ingénuos ao falar de um realizador como Paul Thomas Anderson e nele ver a salvação do cinema – esse “movies are back“ que tanto se gosta de lançar pelo Twitter – mas foi, ainda assim, dele, uma das poucas obras que nos entusiasmaram de facto (enfim!) em 2025. One Battle After Another, com todos os seus pontos menores, é inevitavelmente o filme do ano. Um filme que podemos ver como aqueles de outros tempos. De resto, nem tudo foi mau, e as listas podem ainda preencher-se de filmes que sabemos apreciar, é claro. Mas, com algo como Miroirs n.º 3 nos lugares cimeiros – Petzold é um dos grandes cineastas de hoje, e este é um dos seus filmes menos fortes – percebemos que este foi um ano que ainda esperamos que comece. E no entanto, já acabou.
Vivemos como crianças na noite, com medo desse papão que é a inteligência artificial, um monstro que possa surgir e roubar-nos o “nosso” cinema. Mas que cinema é esse que as máquinas virão cobrir, quando tudo o que vemos é tão formulaico, tão genérico e desinspirado, tão repetitivo? Sigamos para 2026, que deste ano já nem se respira.
-
-
-
- One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson
- “Caught by the Tides” (风流一代), de Jia Zhangke
- Sept promenades avec Mark Brown, de Pierre Creton &Vincent Barré
- “Cloud” (クラウド ), de Kiyoshi Kurosawa
- Miroirs No. 3, de Christian Petzold
- “What Does That Nature Say to You” (그 자연이 네게 뭐라고 하니), de Hong Sang-soo
- “Foi Só Um Acidente” (یک تصادف ساده), de Jafar Panahi
- 28 Years Later, de Danny Boyle
- “Sentimental Value” (Affeksjonsverdi), de Joachim Trier
- Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche
- The Shrouds, de David Cronenberg
- Ce n’est qu’un au revoir, de Guillaume Brac
- Arco, de Ugo Bienvenu
- Avatar: Fire and Ash, de James Cameron
- Oh Canada, de Paul Schrader
- O Riso e a Faca, de Pedro Pinho
- The Woman in the Yard, de Jaume Collet-Serra
- The Phoenician Scheme, de Wes Anderson
- Partir un Jour, de Amélie Bonnin
- (um filme a menos num ano onde tanto faltou)
-
-










