Os Filmes Mais Aguardados de 2026 para a Tribuna do Cinema

EquipaJaneiro 9, 2026

É com uma equipa e energias renovadas que a Tribuna entra em 2026. Depois de um ano de 2025 que a muitos não deixou convencidos, é tempo de olhar para aquilo que mais nos entusiasma no cinema que está para chegar. Com três escolhas individuais, dezasseis membros da Tribuna (oito veteranos e oito novos) elaboraram esta lista ecléctica dos 48 títulos mais aguardados do novo ano cinematográfico.

 

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as escolhas de Gil Gonçalves

Bucking Fastard

American Nails, de Abel Ferrara
Bucking Fastard, de Werner Herzog
All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi

Desgostoso com “os nossos dias”, parto para 2026 à procura de outros tempos. Talvez por isso estejam dois veteranos entre as minhas escolhas: Herzog e Ferrara começaram a construir as suas carreiras ainda bem dentro do século passado, numa época de maior (talvez da maior) margem de risco permitida ao cinema: os anos 70. Mas não é necessariamente um argumento de “geração errada” que quero aqui fazer. Quero antes dizer que procuro fugir a uma certa forma de fazer cinema — a dos cortes em catadupa, do excesso de informação e da literalidade — que, além de hegemónica, decalca com demasiada fidelidade a realidade em que vivemos. A tal que me desgosta.

Falemos, então, de outras dimensões para as quais o cinema de alguns (como é o caso do nosso muito contemporâneo Hamaguchi) ainda permite a fuga. A mais clara será a de Ferrara e do seu American Nails: uma transposição da tragédia de Fedra, de Eurípides, para a Itália contemporânea. Uma história “ambientada no mundo de violência, poder e vingança dos gangsters” (território já bem calcorreado pelo cineasta e onde eu, enquanto espectador, me sinto muito confortável), que volta a juntar Willem Dafoe e Asia Argento, pela primeira vez desde 1998 (ano em que contracenaram em The New Rose Hotel). Para quem, como eu, desespera por ser surpreendido e abalado, a expectativa maior teria de recair num filme de alguém cujo percurso sempre se pautou pela marginalidade e imprevisibilidade, pela capacidade de síntese entre o grotesco e o espiritual. In Ferrara we trust… mas um pouco menos em Herzog. E poderei mesmo dizer que, neste caso, a expectativa se aproxima da fé.

Isto porque as últimas incursões do lendário realizador germânico pela ficção têm sido pouco convincentes. A fé que aqui deposito está na louca premissa inspirada no caso real das gémeas britânicas Freda e Greta Chaplin (único caso registado de irmãs que falavam sempre em uníssono) que, nos anos 80, se apaixonaram pelo mesmo camionista, levando a que este interpusesse uma providência cautelar contra ambas. A “versão” de Herzog junta as também gémeas Rooney e Kate Mara “numa busca por uma terra imaginária onde o verdadeiro amor é possível”, que as leva a “escavar um túnel por uma cordilheira montanhosa inteira”. Pode ser um falhanço estrondoso… mas o embate prometido entre “a contemporaneidade citadina e a natureza indomada” já anuncia mais uma desejada fuga. Além disso, convenhamos: só por esta exposição ao risco, o octogenário cineasta já merece a nossa vénia. Bucking Fastard indeed!

Deixo All of a Sudden para o fim, porque se sabe muito pouco sobre este novo projeto francês de Ryusuke Hamaguchi, exceto que se centra na relação entre duas mulheres – uma diretora de teatro japonesa e uma enfermeira francesa – e que a duração (outros tempos, outras dimensões) será, à semelhança de vários dos seus filmes, bastante longa. No entanto, dos três artistas, este é o que me deixa mais tranquilo. É que, se em todo o seu percurso, dissimuladamente sereno, sempre houve águas profundas que turvam e abalam, o desvio inesperado de Evil Does Not Exist deixa antever, daqui para a frente, uma nova camada de desconcerto. Que assim seja.

 

as escolhas de Bruno Victorino

Remain

13 Alfinetes, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata
What Does That Nature Say to You / At the Middle of Life, de Hong Sang-soo
Remain, de M. Night Shyamalan

 

O exercício de nomear os filmes mais aguardados do ano é sempre algo ingrato. Por um lado, se não nos cingirmos ao mais óbvio, corremos o risco de destacar filmes que não chegam a ser lançados, não passam em qualquer festival de cinema nacional ou não estreiam comercialmente em Portugal. Por outro lado, estaremos sempre a beneficiar os autores por quem nutrimos maior afeição, sem saber ao certo se irão estar à altura das expectativas sobre eles criadas. Do mesmo modo, tendencialmente, a opção poderá recair sobre obras mais baladas (Hollywood), sobre as quais existe mais informação, em prejuízo de um outro cinema, menos comercial. Considerando os pressupostos elencados, e o desafio de selecionar apenas três títulos, pareceu-me pertinente garantir alguma diversidade. Um filme português que já teve uma pré-estreia em 2025 na Cinemateca Portuguesa (versão de trabalho). Um filme coreano do mais relevante cineasta contemporâneo que teima em ser assiduamente considerado pelas distribuidoras nacionais, independentemente da sua prolificidade. E um filme de Hollywood, de um dos mais subvalorizados realizadores americanos, dos poucos que ainda persevera no ofício de fazer cinema de género despretensioso. Que 2026 nos traga bons filmes, e que estes possam fazer parte dos nossos favoritos.

 

as escolhas de David Bernardino

Send Help

Send Help, de Sam Raimi
Flowervalle Street, de David Robert Mitchell
Normal, de Ben Wheatley

 

Com cada membro da Tribuna a escolher os seus 3 filmes mais antecipados de 2026, e perante também o aumento significativo de membros na equipa, a consequência natural de ter sido por obra do destino o último a fazer as suas escolhas obrigou-me a ficar, como dizer, com os restos. Deus escreve direito por linhas tortas e, tendo em conta a minha paixão pelo cinema de terror e de género de uma forma geral, escolhi três filmes intrigantes o suficiente para figurarem numa segunda linha de mais aguardados do ano. A primeira escolha é Send Help, o regresso do icónico mestre de terror série B, Sam Raimi (Evil Dead), ao cinema de terror depois de uns anos largos de parvoíces marvelianas e não só. Rachel McAdams, assistente numa empresa, fica presa numa ilha deserta com o seu idiota superior hierárquico (Dylan O’Brien) numa luta pela sobrevivência em que o trabalho de equipa será determinante. Entre a sátira e o horror, Send Help promete ser delirante. A segunda escolha é Flowervalle Street, o regresso de David Robert Mitchell ao cinema de género 12 anos depois de It Follows. Os detalhes são escassos e apenas se sabe que será centrado numa família americana nos anos 80, num bairro onde começam a ocorrer estranhos acontecimentos. Será protagonizado por Ewan McGregor e Anne Hathaway. A escolha final recai sobre o novo filme de Ben Wheatley, um realizador que se tem tornado a pouco e pouco mais querido na Tribuna, e que já demonstrou a sua versatilidade ao saltitar de projectos independentes para as grandes produções com filmes como In The Earth, Meg 2 ou Bulk. O próximo, que se chama Normal, é um filme de acção estilizado com Bob Odenkirk como protagonista e traz como argumentista o criador de John Wick. Lembra Nobody, sim, por isso veremos de que forma é que Ben Wheatley adapta o seu spin de autor à recente fórmula de cinema de acção celebrizada por Keanu Reeves.

 

as escolhas de Ana Matos

Sound of Falling / In die Sonne schauen

Sound of Falling (In die Sonne schauen), de Mascha Schilinski
Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar
Disclosure Day, de Steven Spielberg

 

Em janeiro chega às salas Sound of Falling, vencedor do Prémio do Júri em Cannes e representante da Alemanha na corrida aos Óscares. O filme, que acabou por ceder à pressão comercial ao apresentar-se com um título mais curto do que o original The Doctor Says I’ll Be Alright, But I’m Feelin’ Blue, acompanha quatro gerações de mulheres, num registo experimental e envolto numa atmosfera de terror psicológico. Está também prevista a estreia do novo filme de Pedro Almodóvar, Amarga Navidad, que conta a história de duas amigas que procuram um escape em Lanzarote, numa fase difícil das suas vidas. Apesar do trailer revelar pouco, Almodóvar raramente desilude e esta tragicomédia poderá tornar-se mais uma referência na sua vasta filmografia. Disclosure Day não poderia faltar na lista dos mais aguardados do ano: Steven Spielberg regressa ao género da ficção científica que domina com mestria, num filme que o protagonista Josh O’Connor define como “Spielberg old school”. Uma última menção para Gourou, filme francês ainda sem data de estreia em Portugal, onde Pierre Niney encarna um coach de desenvolvimento pessoal que move multidões, inspirado nas performances de Tom Cruise em Magnolia e de Jake Gyllenhaal em Nightcrawler.

 

as escolhas de Clara Mendes Pereira

Wuthering Heights

Dhurandhar 2, de Aditya Dhar
The Odissey, de Christopher Nolan
Wuthering Heights, de Emerald Fennell

 

2026: Odisseia no Monte do Lyari

2025 foi um ano de filmes doces, silenciosos e comedidos. Talvez haja algo na água ou nas notícias que nos faça precisar sentir à beira de uma grande história, de uma grande mudança, força, ou euforia, ou apenas de um embalo do passado — 2026 dá-nos isso; um tom marcadamente épico, e narrativas maiores do que nós. Logo dia 11 de fevereiro chega-nos uma adaptação de Wuthering Heights, um clássico da literatura que vive do mesmo turbilhão de trauma, sexo, e morte a que Emerald Fennel (Saltburn), já mostrou que nos sabe colar. Margot Robbie e Jacob Elrodi lideram o filme e, apesar do casting do ator para o anti-herói de “pele escura” para o gótico de Brontë ser um erro quase imperdoável (apenas se por perder assim o temor da sua aparência à sensibilidade vitoriana que tanto faz mover a obra), tanto os atores como a realizadora já provaram saber orquestrar com mestria o perigo e sensualidade necessária para uma trama como esta. Meros quatro meses depois da estreia do primeiro volume, será estreado em março Dhurandhar 2, o blockbuster de Aditya Dhar que rapidamente se tornou um dos filmes indianos mais bem-sucedidos na bilheteira de sempre. Esta história de espionagem indiana contra gangues paquistaneses, se à superfície parece ser excessivamente propagandística como obra de cinema, destacou-se no primeiro episódio por personagens centrais complexas, humanas não obstante o lado da trincheira, especialmente nas prestações inestimáveis de Ranveer Singh e Akshaye Khanna, e por uma banda sonora que impele o corpo o ritmo das suas cenas de ação e ao seu gore vaidoso. Resta saber se o divertimento e qualidade que nos distrai dos elementos mais problemáticos sobreviverá a uma segunda iteração onde o herói promete vingança. Mais para o final do ano esperamos uma das primeiras grandes histórias; A Odisseia, de Homero, desta vez adaptada ao grande ecrã por Christopher Nolan. O estilo não linear e a ambição visual deste icónico realizador já é por si suficiente para nos fazer correr para as salas no calor do verão (a estreia está prevista para 16 de julho), mas o filme faz muito mais para subir as expectativas: nova tecnologia IMAX, o orçamento mais elevado da carreira do cineasta, o elenco das estrelas mais queridas de Hollywood, passado e presente (Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, Robert Pattinson, Charlize Theron, para nomear alguns),  e a banda sonora Ludwig Göransson (Sinners, Tenet, Oppenheimer, Black Panther) cujo estilo culturalmente sensível que funde grandeza orquestral e texturas eletrónicas promete cair que nem uma luva para este que será indubitavelmente o épico moderno, e quiçá o filme, mais aguardado do ano.

 

as escolhas de Raquel Sampaio

James Gray

Paper Tiger, de James Gray
Here Comes the Flood, de Fernando Meirelles
A Long Winter, de Andrew Haigh

 

Paper Tiger marca o regresso de James Gray a Nova Iorque, num drama criminal centrado em dois irmãos cuja ambição os leva a cruzar-se com a máfia russa. Com Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o filme retoma temas centrais da filmografia do realizador (família, lealdade e fracasso moral) e chega envolto em forte expectativa, incluindo uma possível estreia em Cannes. Here Comes the Flood é um heist movie realizado por Fernando Meirelles que reúne Denzel Washington, Robert Pattinson e Daisy Edgar-Jones numa história centrada num segurança de um banco, uma funcionária e um ladrão profissional presos num jogo de enganos e duplas traições, com argumento de Simon Kinberg. A Long Winter de Andrew Haigh adapta uma novela de Colm Tóibín e reúne um elenco sólido (Ebon Moss-Bachrach, Caitriona Balfe, Kit Connor) para contar a história de uma família isolada num cenário montanhoso à beira de um inverno prolongado, num filme que parece prolongar o interesse do realizador por temas como ausência, memória e relações não resolvidas.

 

as escolhas de Pedro Bastos Oliveira

Magalhães

Magalhães, de Lav Diaz
Resurrection, de Bi Gan
Marty Supreme, de Josh Safdie

 

No panorama nacional, Magalhães, nova coprodução da Rosa Filmes, é um filme a não perder. Aborda a histórica viagem do navegador português Fernão Magalhães, protagonizada por Gael Garcia Bernal e rodeado por um elenco português, realizada pelo autor filipino de slow cinema, Lav Díaz, que promete mostrar o ponto de vista das populações indígenas “descobertas”. Ressurreição, a nova longa-metragem de Bi Gan, apenas a terceira em dez anos, vencedora do prémio Prix Spécial de Cannes, um filme de ficção científica sobre uma China distópica onde os humanos perderam a capacidade de sonhar, refletirá sobre o passado chinês e as suas implicações na memória do seu povo. Será distribuído pela Leopardo Filmes, sendo por isso esperada várias sessões no Cinema Nimas em Lisboa –  uma oportunidade para ver em sala um cineasta que tem marcado festivais de cinema no mundo inteiro. Por fim, já em janeiro, estreia Marty Supreme. Embora seja triste dizer adeus à dupla mais entusiasmante de cineastas contemporâneos que Nova-Iorque nos proporcionou, a vantagem da separação dos irmãos Josh e Benny são estreias a dobrar com o apelido Safdie. Deverá manter o seu estilo documentarista, cru e frenético, acompanhando um jovem e ambicioso jogador de ping-pong (Timothée Chalamet) nas movimentadas ruas de Nova-York dos anos cinquenta. Chalamet marcará a próxima época de prémios, sendo o provável vencedor do Óscar de Melhor Ator Principal.

 

as escolhas de Rita Costa

A Providência e a Guitarra

La Bola Negra, de Javi Ambrossi e Javi Calvo
A Providência e a Guitarra, de João Nicolau
The Entertainment System is Down, de Ruben Östlund

 

La bola negra, A Providência e a Guitarra e The Entertainment System Is Down afirmam-se entre os filmes mais aguardados de 2026 ao centrarem o interesse em zonas de tensão que o cinema dominante tende a evitar, trabalhando a partir da falta, do atraso e do vazio como matérias centrais e assumindo o desconforto como método. No projeto dos Javis, o filme nasce da reativação de uma obra inacabada de Federico García Lorca, fazendo da incompletude um princípio formal e ético: a sexualidade é tratada como memória interrompida, inscrita num regime de apagamento histórico que recusa tanto o biopic como o memorialismo reconfortante, expondo o atraso estrutural com que o cinema chega a certas histórias. Em João Nicolau, a expectativa concentra-se num filme que retoma uma fábula literária para acompanhar artistas itinerantes confrontados com a dificuldade material de sustentar a sua prática, marcando também a estreia de Salvador Sobral no cinema, num universo onde música, errância e integridade criativa se cruzam sem promessa de redenção ou sucesso. Já em Ruben Östlund, uma viagem aérea de longa duração sem entretenimento transforma-se num dispositivo de observação social rigoroso, onde o tédio e a convivência imposta expõem uma civilidade circunstancial, dependente da distração e do estímulo permanente, revelando a fragilidade de uma sociabilidade incapaz de se sustentar no silêncio.

 

as escolhas de Paulo Ventura

Digger

Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques
Digger, de Alejandro González Iñárritu
Werwulf, Robert Eggers

 

Após colecionar prémios e nomeações com as suas curtas-metragens, Paula Tomás Marques estreia-se no formato de longa-metragem com Duas Vezes João Liberada: uma experiência labiríntica de reflexão meta-cinematográfica que acompanha a difícil produção de um filme histórico e biográfico, protagonizado por João (June João), sobre Liberada (também June João, obviamente), uma personagem misteriosa não conformada com as normas de género da época e perseguida pela Inquisição. Numa busca pela representação e representatividade daqueles que durante toda a história tão pouco ou nada foram representados, a obra de Paula Tomás Marques marcou já passagem pelos festivais internacionais de Berlim e San Sebastian, assim como pela Mostra de Cinema de São Paulo, no Brasil, e pelo Festival du Nouveau Cinéma, no Canadá. Em Portugal, foi já galardoada com o prémio de melhor realização no IndieLisboa, mas a sua estreia em salas de cinema está prevista apenas para junho de 2026. Mais perto do final do ano, Alejandro González Iñárritu retorna com Digger, “uma comédia de proporções catastróficas” (segundo o próprio cartaz do filme) protagonizada pelo ícone do cinema americano, Tom Cruise, no papel de Digger Rockwell. Quase nada se sabe ainda sobre o enredo, mas a expectativa mantém-se elevada não só pelo elenco – Riz Ahmed (Sound of Metal), John Goodman (O Grande Lebowski) e Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda) – como também pelo regresso da colaboração do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, responsável por algumas das principais obras de Iñárritu, como Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) e O Regresso (2015), vencedor do Óscar de melhor fotografia. A dupla mexicana não apresenta trabalhos conjuntos desde a curta-metragem Carne y Arena (2017), o que inflama a ânsia pelo novo filme do realizador, previsto para estrear em outubro. Para terminar o ano em grande, em dezembro, Robert Eggers mergulha-nos mais uma vez no seu universo particular de folclore com Werwulf. Após explorar o misticismo gótico do lendário vampiro na mais recente versão de Nosferatu (2024), Eggers dá agora destaque ao seu rival histórico, o lobisomem, num filme de terror (como já era de esperar do cineasta americano) situado na Inglaterra medieval do século XIII. Sendo o argumento uma coautoria entre Eggers e o escritor islandês Sjón, podemos talvez antecipar algumas semelhanças ao estilo narrativo de O Homem do Norte (2022), a última parceria entre os dois autores, o que aponta para uma abordagem mais abertamente fantasiosa e mitológica à personagem, onde o imaginário do folclore poderá coexistir, ou contrastar, com a estética mais realista e cética que tem marcado o cinema de terror de Eggers.

 

as escolhas de Carla Rodrigues

Teenage Sex and Death at Camp Miasma

The Moment, de Aidan Zamiri
Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun
Mother Mary, de David Lowery

 

2026 está longe de ser pobre em cinema para antecipar, com muitos filmes de grande escala a prometer pipoquice ao longo de todo o ano. Precisamente por isso, é importante redirecionar a atenção para lançamentos mais pequenos, onde geralmente encontramos o sumo como deve ser. Foi assim que escolhi The Moment, Teenage Sex and Death at Camp Miasma e Mother Mary para manter debaixo de olho este ano.

Em The Moment, Aidan Zamiri muda-se da fotografia para a longa-metragem com um projeto que nasce de uma ideia da minha adorada pirralha Charli XCX. O Brat Summer pode ter terminado nos palcos em 2025, mas, enquanto estado de espírito, está (e ainda bem) longe de desaparecer. Pelo olhar de Zamiri e conhecendo a inclinação assumidamente over the top da artista, este mockumentary promete uma viagem muito meta à icónica tour de uma eterna Brat (ficcionalizada, claro), a oscilar entre performances, crises de bastidores, autoencenação e excessos. Não espero menos que uma injecção de pura energia directamente nos olhos.

Jane Schoenbrun continua a aprofundar o território que tem vindo a tornar singular no cinema recente, usando o imaginário do terror e da adolescência como espelhos de identidades em mutação permanente. O título Teenage Sex and Death at Camp Miasma aponta para a revisitação do slasher juvenil, o que, tendo em conta a abordagem e a mensagem usuais de Schoenbrun, seria suficiente para me espicaçar a curiosidade. Mas não é só isso: a reforçar esta entrada inspirada pela época de ouro dos slashers e dos midnight movies, as protagonistas são Hannah Einbinder (com todo o lanço que Hacks lhe tem trazido) e Gillian Anderson. Interesse automático.

Por fim, Mother Mary será mais uma marca no cinto da filmografia diversa de David Lowery, colocando Anne Hathaway e Michaela Coel à frente de um thriller psicológico musical, três palavras que não costumam aparecer juntas e que fazem adivinhar um cocktail disruptivo. Para fechar o círculo, vale a pena dizer que a parte musical de Mother Mary será composta por música original de Charli XCX. Três filmes que se revelarão, de certeza, muito diferentes entre si, mas unidos por uma experimentação com o registo, longe do cinema de conforto e mais perto de zonas onde ainda valerá a pena perder o chão. Ou, pelo menos, perdermo-nos.

 

as escolhas de Maria Inês Opinião

The Testament of Ann Lee

If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstein
The Drama, de Kristoffer Borgli
The Testament of Ann Lee, de Mona Fastvold

 

If I Had Legs I’d Kick You tem a sua estreia comercial em Portugal passado mais de um ano da estreia em Sundance, com uma breve passagem pelo Tribeca, onde Linda (Rose Byrne) enfrenta sentimentos contraditórios enquanto mãe, um parceiro ausente, um psicólogo displicente e um desastre que implica a sua mudança para um motel. Mary Bronstein, 17 anos depois de Yeast, junta Christian Slater, ASAP Rocky, Danielle Macdonald e Conan O’Brien entre uma aflição crónica e um humor macabro.

O norueguês Kristoffer Borgli, um nome que se tem vindo a afirmar na década de 2020 com Sick of Myself (2022) e Dream Scenario (2023), apresenta o novo filme The Drama, estrelado por Robert Pattinson e Zendaya, um casal perturbado em vésperas do casamento. O argumento é ainda mantido em segredo, apesar de se poder esperar uma comédia subversiva com personagens que desafiam os limites do bom-senso.

O drama musical e histórico The Testament of Ann Lee, realizado por Mona Fastvold /The Sleepwalker) e escrito em parceria com Brady Cobert (O Brutalista), acompanha a líder fundadora dos Shakers, uma divisão de nicho cristã surgida em Inglaterra no séc. XVIII, também por eles considerada a segunda aparição de Cristo, Ann Lee. A guia luta para proteger os seus seguidores e a sua fé da inquisição que os persegue num filme nomeado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, ao BFI e muitos outros. Marca o regresso de Amanda Seyfried aos musicais, que conta já com uma nomeação aos Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musical ou Comédia. Juntam-se-lhe Christopher Abbot (Poor Things, Girls), Thomasin Mckenzie (Jojo Rabbit, Last Night in Soho) e Lewis Pullman (Thunderbolts*, Lessons in Chemistry).

 

as escolhas de Lara Marques Pereira

18 Buracos para o Paraíso

Projeto Global, de Ivo Ferreira
18 Buracos para o Paraíso, de João Nuno Pinto
The Dog Stars, de Ridley Scott

 

Um filme político e outro que reflete sobre a eco ansiedade, resultante dos fogos que assolam o nosso país, e que afinal de contas pode ser também muito político. São apenas dois entre os dez filmes nacionais previstos para estrear em 2026. Um deles, Projecto Global, deverá chegar às salas em abril, depois da passagem pela competição do Festival de Roterdão, trazendo de volta aos festivais o realizador Ivo Ferreira, que em 2016 esteve no Festival de Berlim, com Cartas da Guerra. É sempre um motivo de curiosidade, saber qual a direção que segue Ivo Ferreira, e no caso de Projeto Global a curiosidade fica ainda mais aguçada, para perceber de que forma o realizador irá abordar a atividade do grupo armado de extrema-esquerda FP-25. Jani Zhao, Gonçalo Waddington, Isac Graça, João Catarré, Ivo Canelas e Adriano Luz são alguns dos nomes que compõem o elenco. O filme será acompanhado de uma série de 6 episódios. Em 18 Buracos para o Paraíso, a curiosidade assenta sobretudo na presença de 3 grandes atrizes, a comandar a história. Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço estão às voltas com a herança de terras no sul de Portugal e um passado de poder patriarcal, quando a região é fustigada por um incêndio que as impede de abandonar o lugar. João Nuno Pinto, realizador que já provou muito do talento que tem em Mosquito (2020) e América (2010) quis apontar o olhar para uma reflexão sobre o território desertificado e a consciência ambiental. Será interessante como resulta o primeiro filme português a receber a certificação internacional Green Film, por práticas ambientalmente responsáveis na área audiovisual. Finalmente The Dog Stars com a assinatura de Ridley Scott, realizador que chega completa 89 anos em novembro e continua a ter vontade e capacidade para filmar. The Dog Stars é uma história num cenário pós apocalíptico, e isso só por si é motivo para nos mantermos atentos, ou não fosse este o cineasta que criou para a história do cinema Blade Runner – Perigo Iminente.  Josh Brolin, Jacob Elordi e Margaret Qualley protagonizam a história que decorre no Colorado depois da população mundial ter sido devastada por uma pandemia.

 

as escolhas de Hugo Dinis

Cristian Mungiu

Fjord, de Cristian Mungiu
L’Inconnue, de Arthur Harari
Out Of This World, de Albert Serra

 

O ano de 2026 volta a trazer consigo mais esperança no circuito independente e no cinema alternativo do que nas grandes salas. Essa tendência não é, de resto, novidade, mas reforça a responsabilidade do cinema independente e das salas de especialidade. Fjord, o novo trabalho de Cristian Mungiu, carrega o fardo de seguir o notável R.M.N., que lidou com a questão da identidade europeia de forma sublime. Contando com Sebastian Stan enquanto imigrante romeno na Noruega depois de felizes interpretações em A Different Man e The Apprentice, Fjord lança de novo Mungiu na busca da condição do outro na sociedade europeia. A questão da identidade é, de resto, também o foco de L’Inconnue, de Arthur Harari. Após a delicada meditação sobre a obstinação negacionista de um soldado japonês que se recusa a render após a segunda guerra mundial de Onoda, Harari juntou-se a Justine Triet para criar Anatomie d’une Chute, palma de ouro em Cannes há dois anos. L’Inconnue coloca Léa Seydoux no papel principal de um trabalho no qual alguém é sujeito a ocupar o corpo de um desconhecido. A derradeira proposta que trago é a perspectiva do primeiro filme de Albert Serra em língua inglesa. O realizador de Tardes de Soledad, um dos filmes do ano transacto, traz um retrato dos esforços de uma comitiva americana que se desloca à Rússia para resolver um conflito económico em plena guerra ucraniana. Out Of This World parece querer regressar aos bastidores do poder político e económico por trás da geopolítica mundial à imagem de Pacifiction. Serra tem mostrado ser um realizador profundamente investido na criação de mundos próprios dentro de ligações específicas à realidade em que se movimenta. Será interessante vê-lo a manobrar o contexto russo dentro da sua matriz característica. Out Of This World contará com Riley Keough e F. Murray Abraham em papéis de destaque.

 

as escolhas de Francisco Sousa

Project Hail Mary

Project Hail Mary, de Phil Lord e Chris Miller
The Social Reckoning, de Aaron Sorkin
Behemoth!, de Tony Gilroy

 

Os meus três filmes mais aguardados de 2026 partem todos de regressos, de universos, autores ou ambições, e é talvez aí que reside tanto o entusiasmo como a desconfiança. Project Hail Mary é a adaptação do novo livro de Andy Weir, o autor de The Martian, e volta à ficção científica ancorada na lógica, na engenharia e na solidão do protagonista, Ryan Gosling, apostando mais uma vez na tensão entre conhecimento científico e sobrevivência. Já The Social Reckoning surge como sequela direta de The Social Network, um dos filmes norte americanos mais incisivos do século XXI, agora sem David Fincher e com Aaron Sorkin a acumular as funções de argumentista e realizador, uma decisão que me deixa apreensivo, sobretudo pela ausência da frieza formal que Fincher impunha ao excesso retórico de Sorkin. Por fim, Behemoth! marca o regresso de Tony Gilroy ao grande ecrã, treze anos depois de O Legado de Bourne. O filme, que reúne um elenco de peso liderado por Pedro Pascal e Olivia Wilde, é uma história original sobre a qual ainda não existe muita informação mas que carrega a expectativa de grande escala que transporte para o cinema a mesma lucidez política, desencanto moral e densidade dramática que fizeram de Andor uma exceção no entretenimento contemporâneo e uma das melhores séries dos últimos anos.

 

as escolhas de André Filipe Antunes

No Other Choice

No Other Choice, de Park Chan-wook
The Adventures of Cliff Booth, de David Fincher
Look Back, de Hirokazu Kore-eda

 

Um exercício sempre ingrato, este. Por um lado pelo facto de ser sempre difícil prever que filmes só estrearão cá depois do ano presente; depois, porque também não é fácil distinguir propostas que nos entusiasmam verdadeiramente daquelas que, em janeiro, são simplesmente as mais destacadas (geralmente norte-americanas) pelas distribuidoras. Faça-se o esforço, ainda assim. Fevereiro trará às salas portuguesas No Other Choice, do mestre coreano Park Chan-wook, num regresso pouco mais de três anos volvidos após o seu magnífico Decisão de Partir. Pelo verão – e teremos que nos acostumar a esta realidade, se de facto se concretizar a compra da Warner Bros. pela Netflix – o cinema será em sala, mas também em casa, com The Adventures of Cliff Booth: argumento de Quentin Tarantino, uma semi-continuação do seu melhor filme (sim, melhor do que esse também), seguindo as peripécias do duplo/fixer de Brad Pitt, e desta vez pela batuta de David Fincher que, diga-se o que se disser dos seus últimos projetos, continua a ser talvez o mais bem sucedido herdeiro do molde autor-contratado do velho sistema de estúdios (todo o sentido por isso que seja uma produção da gigante tecnológica). Por fim, outro regresso, que admitidamente poderá estrear-se apenas em 2027: Hirokazu Kore-eda tem dois filmes prontos a sair. Podia facilmente optar pela sua ruminação sobre a inteligência artificial e o que significa ser-se humano, Sheep in the Box, mas escolho destacar Look Back, remake com atores reais de uma das mais aclamadas animações japonesas dos últimos anos. Segue mais uma vez o universo da descoberta infantil, centrando-se num par de raparigas com queda para a arte e talento para desenhar manga. Esperemos que não tenha de ficar para o ano que vem.

 

as escolhas de Pedro Barriga

Dune: Part Three, de Denis Villeneuve
The Man I Love, de Ira Sachs
Butterfly Jam, de Kantemir Balagov

 

Em 2026, Denis Villeneuve despedir-se-á de Arrakis com Dune: Part Three. Este terceiro (e último) capítulo da sua adaptação ao cinema da saga de Frank Herbert contará com os suspeitos do costume – Timothée Chalamet, Zendaya, Florence Pugh, Josh Brolin – e com as adições ao elenco de Anya Taylor-Joy e Robert Pattinson. Também a equipa por detrás da câmara terá novidades, com Linus Sandgren (La La Land, First Man) a substituir Greig Fraser, o diretor de fotografia dos dois filmes anteriores. Será por certo o blockbuster do ano, a par d’A Odisseia de Christopher Nolan. Reduzindo dramaticamente a escala, falemos agora de Ira Sachs. No ano passado, Sachs estreou no Festival de Berlim Peter Hujar’s Day, um filme passado num só apartamento e com apenas dois atores: Ben Whishaw e Rebecca Hall. Hall estará de volta para a nova obra de Sachs, The Man I Love. Pouco se sabe para já sobre esta “fantasia musical dos anos 80”, mas, tendo Rami Malek como protagonista, podemos apostar que se tratará de um salto em orçamento e, talvez, dimensão. Por último, tudo indica que 2026 verá o regresso do russo Kantemir Balagov, o realizador do auspicioso Beanpole. O filme estreou em Cannes em 2019, sendo muitíssimo bem recebido, mas desde então que Balagov não assinou mais nenhum filme. Neste período de ausência de sete anos, exilou-se na Califórnia no seguimento da invasão da Ucrânia e esteve envolvido na realização da série The Last of Us, tendo se afastado do projeto por causa de divergências criativas. Butterfly Jam será a sua estreia na língua inglesa e contará com Riley Keough, Barry Keoghan, Harry Melling e Monica Bellucci.