O Último dos Homens (Der letzte Mann) é frequente e justamente exaltado pelo facto de, sendo um filme mudo, não se socorrer de qualquer intertítulo que vá auxiliando o espectador a seguir a trama. F. W. Murnau faz juz às características distintivas da sétima arte e da linguagem cinematográfica, contando-nos a sua história somente através de imagens. E fá-lo com toda a inventividade imaginável, sempre no limiar entre a escola expressionista alemã e uma maior aproximação ao realismo. Apesar de alguns traços expressionistas permanecerem (parte do cenário do bairro onde o protagonista habita é desenhado, os momentos de delírio, etc.), o realizador acaba por se demarcar do movimento no qual se inseria totalmente (Nosferatu, 1922), em prenúncio do seu período tardio, já em solo norte-americano.
O ator alemão Emil Jannings interpreta um envelhecido porteiro do Hotel Atlantic, que, como podemos verificar na magistral sequência inicial, começa a sentir dificuldades em desempenhar plenamente a sua função. É indisfarçável o brio e garbo do porteiro com o estatuto que a sua posição lhe confere, e cujo expoente máximo se manifesta na veneração fetichista que nutre pela sua farda. Um capote e barrete repletos de botões, carcelas e cordões dourados (imaginamos), que em nada ficam a dever ao uniforme de um General. Toda esta simbologia militar é reforçada pelas incessantes continências com que cumprimenta desde os hóspedes mais nobres do hotel aos vizinhos que habitam o pacato bairro onde reside. No entanto, este posicionamento em classe social aparentemente superior, não resulta na ostentação de qualquer altivez e prepotência perante o próximo, antes pelo contrário. Considerando a data de produção do filme, é impossível dissociar este culto da farda das circunstâncias sociais e políticas resultantes da derrota na Primeira Guerra Mundial, do Tratado de Versalhes, da Revolução Alemã e da ascensão nazi.
A câmara de Murnau acompanha então a decadência do personagem principal, assim que este se vê confrontado com a despromoção da nobre função de porteiro chefe para a missão de secar as mãos dos hóspedes nos lavabos da cave do Hotel. Até esse momento o protagonista fora filmado de baixo para cima (contra-plongée), sublinhando toda a imponência da sua envergadura, devidamente fardado, ostentando farta barba e frondoso bigode e enquadrado pela simbólica porta giratória da entrada principal do Atlantic. A deterioração é assinalada paulatinamente, as vestes humildes, o corpo cambaleante, a barba e bigode despenteados, a câmara que o filma agora de cima para baixo (plongée). A porta giratória é também ela substituída, pela porta dos fundos que conduz o ex-porteiro ao breu da existência, a imobilidade terminal que sucede ao corrupio.
É a partir do delírio do protagonista que Murnau manifesta toda a sua arte, em composições belíssimas, onde, através da sobreposição de imagens e outras técnicas cinematográficas, procura mimetizar a degradação da alma do porteiro. O realizador dá-nos a conhecer o profundo íntimo do protagonista, um homem em abissal decadência, que tinha na função prestigiosa que exerceu durante a vida, parte preponderante da sua personalidade, que se vê despido da sua própria pele, renegado a secar as mãos aos hóspedes que habitualmente saudava, cuja deferência era recíproca e que agora nem o olhar lhe devolvem.
Após estar derradeiramente moribundo no seu novo posto de trabalho, um letreiro informa o espectador que foi reservado ao protagonista um volte-face inesperado. O ex-porteiro regressa agora ao hotel como abastado hóspede, condição que lhe permite tomar uma refeição de proporções épicas com direito a caviar comido à colherada. Esta resolução final da narrativa tornou-se um dos temas mais controversos de O Último dos Homens, considerando-se em várias esferas que o epílogo trai o espírito e moral do restante filme. Alegadamente, terá sido a UFA (rede de estúdios cinematográficos alemã) que impôs a Murnau o “happy ending”, à revelia da sua vontade. Em resposta à afronta, o cineasta opta por um final cínico, propositadamente desalinhado da, digamos, moral da história.
Naturalmente que o desconhecimento desta circunstância por parte do espetador, poderá gerar frustração. O porteiro não tinha propriamente grandes posses, como ficava latente pelo local onde residia. Era do peso da farda que orgulhosamente envergava e do estatuto e poder que a posição lhe conferia que sentia falta. No entanto, independentemente da lógica e coerência narrativas que o epílogo poderá ou não evidenciar, (iremos abster-nos de discorrer sobre os malefícios destes dois termos no léxico cinematográfico), e do facto de ter eventualmente sido imposto ao realizador, é perfeitamente válido olhar para estes derradeiros minutos como um delirante sonho/pesadelo final do protagonista. E até podemos ir mais longe. Fantasiar com esta resolução do problema, encerra em si uma mágoa e tragédia suplementares, como se a vingança e a oportunidade de voltar a provar um pouco do estatuto que perdeu apenas fosse possível através do enriquecimento assoberbado. E não será essa a derradeira tragédia do último dos homens? Sucumbir ao embuste do capital?
O Último dos Homens (Der letzte Mann) é apresentado esta sexta-feira na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz













