“Em velha lá tem futuro”. Tereza (Denise Weinberg), 77 anos, sente a frustração de sonhos incompletos numa sociedade onde já não tem lugar. Ou que não tem lugar para ela, melhor dizendo. Uma dinâmica tornada literal em O Último Azul – um Brasil vagamente distópico, num futuro próximo onde os idosos são compulsoriamente mandados para “a colónia”, uma “recompensa” em forma de descanso forçado, fim-de-linha funesto de onde não mais voltam. Tereza não está preparada, tem vida para viver e objetivos por cumprir. Voar num avião (será esse o último azul?), derrotar a solidão. Uma triste realidade comum a muitos membros da “melhor idade”, sem distopia necessária.
Qualquer força que o filme de Gabriel Mascaro tenha reside na subtileza da atuação de Denise Weinberg, veterana do ecrã brasileiro, ao longo da longa luta pela sua emancipação. É inusitado o registo, um quase coming-of-age centrado numa protagonista idosa, concretizado entre as águas do “filme-mensagem”, realismo social da moda que colhe aplausos nos festivais europeus (foi Urso de Prata este ano em Berlim), mas aqui filtrado por uma costela de realismo poético rara no mainstream de hoje.

O impacto acaba, contudo, por ser limitado. Algo que se deve sobretudo ao didatismo da mensagem, eficazmente declarada nos minutos iniciais de um argumento que se limita a partir daí a reiterar o óbvio, raramente encontrando dinâmicas adicionais, rugas ou complexidades que se lhe possam acrescentar. Tem, com efeito, o dom de tornar um filme de apenas 80 minutos em algo maçudo, laborioso, longe de empolgar.
A duração escorreita também joga contra o filme na medida em que a estrutura narrativa, composta por uma série de episódios mais ou menos interligados, mini-filmes cada qual com o seu núcleo dramático, raramente tem tempo suficiente para deixar grande impressão. A sequência com Rodrigo Santoro rio acima pela Amazónia desperta interesse, não fosse o ator uma presença sempre carismática, mas acaba por saber a pouco, e décores genuinamente interessantes são desaproveitados – já se falou do rio, pense-se ainda no parque de diversões com o qual Tereza se depara a certa altura, um cenário de interessantes apontamentos expressionistas que tem menos de dois minutos de tempo de ecrã. Porque não deixar o filme respirar, deixar que a paisagem trabalhe sobre o espectador?

É também uma pena que O Último Azul não resista à tendência contemporânea da fotografia em cinema, uma espécie de “apelo do belo” que se traduz em composições bonitas e vistosas, sem dúvida, mas homogéneas: tons quentes, cores saturadas e um trabalho de fotografia que no seu pior quase resvala para o filme turístico. Querer-se que quem veja reflita sobre a condição da velhice e a marginalização da idade, ao mesmo tempo que o sentido da imagem parece voltado para nos convencer a visitar a Amazónia nas próximas férias, é desajustado.
No meio disto, um elemento salva O Último Azul do desinteresse total: a última vinheta, na qual Tereza entra na órbita de Roberta (Miriam Socarras), também na casa dos setenta, uma mulher emancipada que segue pelo rio vendendo Bíblias aos fiéis apesar de não ser crente. A relação que desponta entre as duas, pela genuína raridade que é assistirmos a qualquer tipo de romantismo entre pessoas idosas no cinema (quanto mais do mesmo género) é a face mais subversiva do filme de Mascaro, o momento em que o seu apelo a que todos, todos, todos merecem ter um futuro mais assume uma forma concreta para lá do mero conto moral. Quase queremos ver um filme inteiro centrado nestas duas. Talvez fosse melhor que este.
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