À sétima história de Basil da Cunha sobre a Reboleira, sabemos ao que vamos. Pequeno delito, droga escondida, gangs rivais, rusgas policiais, vida à margem – filme de ação, portanto. Porém, se saltarmos a ombreira da janela, pisamos um mundo novo, repleto de sorrisos, dança, música, bares e churrascos, que, embora não seja tátil para o espectador comum, torna-se (um pouco) familiar, devido à realização humanizante de Basil.
Vamos, primeiro, à trama. 180 mil euros são roubados, pairando no bairro da Reboleira. Os habitantes – o vasto elenco-personagens deste bairro-filme – são confrontados com a polícia, gerando desconfiança entre vizinhos: quem é que terá o dinheiro? Entretanto, um jacaré (sim, um crocodilo), vagueia pela Reboleira, na sombra de dramas quotidianos.
Basil mostra uma afinidade ao “bairrismo cinematográfico”, mais próxima de alguns cineastas mainstream (a Brooklyn de Spike Lee, por exemplo), do que as Fontainhas de Pedro Costa, por exemplo – apesar de ambos filmarem não-atores, pobreza, marginalidade social e imigrantes. Aqui, o cinema é não-contemplativo, e superficialmente “pouco estético” – próximo, filma corpos e rostos com gentileza. Enquanto outros focar-se-iam no “espetáculo da violência”, esta câmara realça espaços fechados, contidos, casas pequenas ou ruas estreitas, que capta, necessariamente, acima do tronco das personagens, com pouquíssima profundidade de campo. Os planos não são curtos, permanecem o tempo certo, acompanhando as pessoas-atores, até acedermos aos conflitos interiores das personagens. Lembro-me da mulher que se envolve com outro homem, traindo um namorado atrás de grades, e o medo em não conseguir dinheiro do chefe do parceiro (o custo que uma irmandade masculina tem sobre uma mulher solitária e indefesa). É difícil acreditar que o creolo não sai da boca de atores profissionais, mas de habitantes do próprio bairro, pela espontaneidade e naturalidade absolutas à frente da câmara.
Tendo integrado a competição internacional do Festival de Locarno deste ano, O Jacaré revela uma montagem exímia: a capacidade de associar imagens (aqueles jovens preso e agredidos pela polícia que corta para um porco no espeto), ou incorporar música, dialógica e não-diegética, de raízes cabos-verdianas, neste universo, sem nunca distrair o espectador. Pelo contrário, incorpora-o numa atmosfera que, não sendo sua, é bela. A utilização de drone também é certeira, sem show-off performativos, inserida na narrativa, e permite uma visibilidade falcão que desenvolve o bairro enquanto identidade cinematográfica (semelhante aos filmes de Ladj Ly, sobre bairros suburbanos parisienses).
O único senão será a forma como a trama é demasiado apresentada, para uma desenlace que pouco desata. Se calhar, o mood proposto é ele próprio história, narrativa, mas havia demasiadas “armas de Tchekhov” para não acreditar que consequência continua – fica a sensação que não disparam. Vimos demasiados filmes de ação, e essa subversão da espectativas é simultaneamente a força e a fraqueza do filme. Contudo, salienta-se o final (feminista) satisfatório. Relembra outro sucesso português deste ano, “Entroncamento” de Pedro Cabeleira.
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