À 23.ª edição, consegue ainda o IndieLisboa surpreender? O principal festival de cinema independente do país, montra de lançamento para inúmeros cineastas nacionais (e não só) no século XXI, é já uma instituição no panorama cinematográfico nacional. E, como todas as instituições, rege-se por códigos, marcas identitárias e uma atitude própria face às propostas que, anualmente, dá a conhecer aos espectadores. O original, a novidade perante as lógicas de produção dos poderes instalados, e a dinâmica de um evento que é também ele um mecenas e um gatekeeper cultural, é evidente na programação de 2026, uma mescla de nomes consagrados, promessas da grande indústria, vanguardas e novas vozes, num mínimo afirmando o Indie como um dos menus mais heterogéneos da cinefilia nacional.
De 30 de abril a 11 de maio, serão mais de 200 filmes, divididos por 13 secções, a passar nas principais salas da capital. De uma Competição Nacional extensa que inclui oito longas-metragens – entre elas os regressos de João Nicolau, João Nuno Pinto, e o primeiro e (trágico) último filme de Patrícia Saramago, montadora maior de filmes de Pedro Costa e Rita Azevedo Gomes, falecida em 2025 – passando pelas várias secções internacionais e não competitivas, onde se inserem os mais recentes trabalhos de nomes como Radu Jude, Cooper Raif, Don Hertzfeldt ou João Botelho, sem esquecer a homenagem ao mockumentary ou as sessões de cinema na piscina; motivos não faltam para os espectadores experimentarem os vários momentos de programação do ‘Indie 23’. Em jeito de antevisão, a Tribuna do Cinema conversou com Susana Santos Rodrigues, co-diretora do festival.

*
Que momentos destacam na programação deste ano do IndieLisboa?
Sendo um festival generalista, que não tem uma temática definida como ponto de partida, o que marca sempre cada edição é a retrospectiva. A deste ano é uma pela qual tenho muito apreço, dedicada ao subgénero do mockumentary. Uma das coisas que nos motivou é que, apesar de se tratar de um género conhecido, é um foco que não aconteceu assim tantas vezes, mesmo a nível internacional. É um género de que gostamos muito, que nos pode ajudar a refletir sobre os tempos contemporâneos em que vivemos, com a desinformação, as fake news, a partir deste registo que é encenado mas totalmente verosímil. O Punishment Park é um filme incontornável e que deve ser visto, pelos ecos que tem com o que vemos hoje em dia, com o papel dos EUA e do ICE.
Na verdade, apesar de haver vários exemplos de produções internacionais, acaba por ser um género muito americano.
É, e seria uma boa reflexão a fazer para perceber porquê. É certo que conseguimos completar com ofertas de outros países, mas a nível das longas-metragens é muito dominado pela língua inglesa. Pergunto-me porque será que são esses os países que mais se debruçam sobre a encenação do documentário… Mas também existem exemplos de outros países. Há a curta-metragem do Jorge Furtado, Ilha das Flores, o filme belga C’est arrivé près de chez vous… enfim, é uma secção que podia ter o triplo do tamanho.

A ideia deste foco no mockumentary surgiu como? Teve a ver com a morte do Rob Reiner, com uma espécie de homenagem ao realizador do This is Spinal Tap?
Não ao início, mas depois percebemos que também fazia sentido. Tanto eu como o Carlos Ramos, da direção do Indie, apreciamos muito este tipo de filmes, e foi sobretudo por querermos fazer uma espécie de cronologia do género, que nos parece que apesar de ser muito conotado aos anos 80 está a ter um ressurgimento e a trazer algo de novo. E também pela sua ligação à comédia, que para mim é a coisa mais difícil de fazer e é sempre desconsiderada como uma arte menor.
Olhando para a Competição Nacional, nota-se à semelhança de outros anos um equilíbrio entre nomes mais firmados no meio português, como o João Nicolau, e novas vozes e cineastas. É importante para vocês garantir esse espaço e esse diálogo entre gerações?
Sim, faz parte do nosso conceito. Outros festivais têm outras dinâmicas, mas nós sentimos de facto a necessidade de dar espaço a essas novas vozes, até porque a produção não é assim tão extensa. É uma mais valia para nós, que esta competição consiga incorporar realizadores em várias etapas de carreira diferentes. Curiosamente, e até pegando no que estávamos a falar há pouco, sinto que este ano há uma tonalidade de comédia mais forte do que em anos anteriores, desde que estou como diretora é a edição mais forte nessa vertente.

Falando da questão da produção – não é extensa, mas tem aumentado. Em particular, nota-se um aumento nas longas-metragens portuguesas a concurso (este ano são 8). Vocês pensam a certa altura separar as secções de longa e curta, ou querem manter os dois formatos juntos?
Na Competição Nacional não se pensa em separar, faz parte das tais linhas estruturais da secção. Tudo são filmes, independentemente da duração, e a vontade é dar a mesma posição de destaque e de mérito aos dois formatos. Em relação à Competição Internacional até poderia acontecer, porque há muita coisa para ser vista, há mais oferta em relação à produção nacional, e para a orientação do espectador talvez fosse ardiloso pensar numa dinâmica diferente.
Além dos filmes propriamente ditos, o IndieLisboa tem também vários momentos de programação paralelos na periferia do festival. Uma estreia este ano é a Festa da Mensagem, que é uma ideia com imensa e que gostava de saber como surgiu.
Tenho que dar crédito ao Manel Moreira, que foi quem criou estas festas no Purex, elas já existiam antes de serem incluídas no festival. Sinto que estamos demasiado digitais hoje em dia, é tudo online, e a incorporação da Festa da Mensagem no Indie é uma resposta a isso. Outro exemplo é o painel interativo que vamos instalar no lobby da Culturgest, chamado IndieMundo, em que as pessoas vão poder deixar mensagens num placard, a dizer se gostaram do filme que acabaram de ver, se odiaram… isto surgiu porque no primeiro ano na direção, em 2023, houve mensagens que as pessoas escreveram no boletim de voto dos filmes que eu achei deliciosas. E pensei no quão bom seria poder publica-las, convidar as pessoas a fazer algo artesanal, com as mãos, deixar um recado ao realizador, que até pode não estar cá, e nós podermos partilhá-la – no fundo tentar que haja uma dinâmica mais social, para lá do mero ato de ver os filmes.
Todas estas ideias, como o IndieDate, as iniciativas com escolas, o próprio Cinema na Piscina, ajudam a captar novos públicos para o Indie?
É um pouco de várias coisas. Primeiro é para nos divertirmos, passamos um ano a pensar nestas ideias e a tentar concretizá-las dentro das nossas possibilidades. Hoje em dia também há uma reflexão mais geral a fazer sobre a exibição e a distribuição de filmes, e a forma como os festivais são um evento, tornam-se uma coisa mais atraente para o público, e isso também tem a ver com as características de um evento que acontece num determinado espaço e tempo, ao contrário de algo que está sempre disponível. E sim, é um pouco também para tentar captar diferentes públicos com eventos mais inusitados e que a nós também nos dá gozo programar.
Como tem sido a trajetória recente do Indie? Quantos espectadores teve o festival na edição de 2025?
Houve um momento de pico, ali por volta de 2012 salvo erro, onde chegámos a ultrapassar os 40 mil espectadores. Depois baixou, e nos últimos anos tem voltado a crescer – no ano passado foram 33 mil, no ano anterior um pouco menos, etc. A pandemia também teve algum impacto, mas agora aos poucos temos vindo a recuperar público.
A verdade é que o Indie é já é um marco no calendário do cinema português, com uma imagem bastante cultivada, e como todos os festivais, tem uma determinada identidade no que diz respeito à sua programação. Por outro lado, isso acarreta um certo risco, de uma “política de gosto” que pode condicionar os filmes e propostas que chegam aos espectadores. É algo do qual estão conscientes, enquanto diretores e programadores, e tentam contrariá-lo na hora de definir o programa?
Sim, de algum modo. Por um lado temos várias secções que se complementam e que de algum modo até se contrariam entre si. Por exemplo, a Rizoma pretende comunicar com o grande público, algo que não é a principal preocupação na Competição Internacional, onde é mais uma questão de divulgar as principais vanguardas do que se está a fazer lá fora. E mesmo aí, o filme vencedor do ano passado foi uma produção da A24, o On Becoming a Guinea Fowl. Podemos ter alguma rejeição com a pirotecnia visual pura, mas também não excluímos nada que nos acrescente e que faça sentido. Não sentimos que tenha de haver uma mesma lógica entre todos os filmes. Lembro-me de falar com um realizador estrangeiro que estava a ter a sua estreia mundial aqui, de lhe perguntar se sentia que havia esse viés, e ele disse-me que não, que achava estimulante estar lado a lado com filmes diferentes. Gosto quando há essa dissonância, mesmo a título pessoal, acho que quando oferecemos sempre a mesma coisa torna-se aborrecido. Depende sempre do que conseguirmos, há vários fatores.

Recordo-me por exemplo do Kinds of Kindness, do Yorgos Lanthimos, que foi o filme-surpresa que fechou a edição de 2024.
Sim, foi o nosso maior sucesso de sempre, esgotou em poucas horas. Nesse ano aconteceu por uma condicionante de calendário que atrasou o festival, penso que uma das salas não estava disponível na nossa altura habitual por causa dos 50 anos dos 25 de Abril. Acabámos por ir para finais de maio, e isso permitiu-nos estrear o filme logo a seguir a Cannes, que foi um grande logro. Mas lá está, são filmes com distribuidores internacionais de grande porte, ou nacionais que os querem estrear muito mais tarde, por isso é difícil convencê-los.
Que lugar é que veem o IndieLisboa a ocupar no panorama nacional, por comparação com outros grandes festivais, como o Leffest ou o MotelX?
Acho que há espaço para todos. Queremos ser uma proposta um pouco mais irreverente e que dá lugar a novas vozes, isto enquanto festival generalista que não é focado numa só área. Queremos dar um leque amplo de cinema às pessoas, privilegiando sempre a arte, sem fazer concessões e apresentando filmes que têm um pensamento por trás. No fundo queremos estimular a curiosidade com propostas inusitadas, que possam estar um pouco mais fora da fórmula.



