O universo desportivo no cinema parece nunca ter caído em desuso e continua a ser fonte de inspiração ao longo dos tempos. Os filmes que resultam deste interesse, sempre renovado, são afinal de contas uma forma de abordar as complexidades humanas.
O caso mais recente é Marty Supreme de Josh Safdie, uma ficção inspirada numa figura real, que viveu em Nova Iorque e que nos anos 50, tinha como único objetivo de vida ser campeão mundial de ténis de mesa, uma modalidade pouco relevante à época. Marty Supreme é um filme frenético, contaminado pelo ritmo de uma partida de pingue-pongue e que não se esgota numa visão mais refinada sobre a modalidade. No centro da história está a vontade indómita de um jovem judeu (Timothée Chalamet), que não se conforma em ser apenas um sobrevivente do holocausto e está determinado a vencer e a ter sucesso na vida, custe o que custar. O realizador Josh Safdie tem trabalhado em conjunto com o irmão Benny, em filmes como Good Time de 2017 e Diamante Bruto de 2019. Nos dois casos, os irmãos filmam histórias de Nova Iorque mergulhadas no submundo do crime. Mas os dois, fizeram uma pausa na criação artística em conjunto e cada um deles, lançou um projeto a solo, que tem o universo desportivo em pano de fundo. Josh escolheu o mundo do ténis de mesa. Benny interessou-se pelas artes marciais mistas, no filme The Smashing Machine — Coração de Lutador, pelo qual venceu o prémio de melhor realizador no Festival de Veneza 2025. O filme acompanha a história de Mark Kerr, um lutador interpretado por Dwayne Johnson, que terá de aprender a lidar com a frustração das derrotas dentro e fora do ringue. Apesar de filmarem em separado, os Safdie parecem continuar unidos na forma como aproveitam o universo do desporto para contarem histórias de resistência ou inconformidade, juntando-se a uma imensa galeria de autores muito diversos.
As batalhas de Rocky Balboa e outras lutas
A saga Rocky criada por Sylvester Stallone começa em 1976 e atravessa os tempos, com as conquistas e etapas de superação do pugilista Rocky, e depois com o legado de Creed, que acompanha o filho de Apollo Creed, o primeiro adversário de Rocky, que se tornou também o seu grande amigo. A saga Creed leva três filmes, o último é de 2023, Sylvester Stallone já não aparece no elenco, mas continua creditado como argumentista, criador das personagens e é também produtor do filme. No total, o universo Rocky/Creed resulta em nove filmes que extravasam sempre os duelos no ringue e abordam a resiliência, a superação e a luta interior dos seus protagonistas.


Ainda durante a década de 80, Martin Scorsese também se interessou pelo boxe, no filme O Touro Enraivecido protagonizado por Robert De Niro que deu vida a Jake Lamotta, um pugilista de Nova Iorque, incapaz de conter os impulsos violentos que parecem moldar-lhe o carácter até mesmo fora dos ringues.
Em 2008, outra luta é contada no filme The Wrestler de Darren Aronofsky, com o ator Mickey Rourke a ter direito a um regresso ao cinema de primeira linha. O ator que caiu em desgraça após ter conquistado alguma atenção na viragem das décadas de 80 para 90, reencontra o cinema com uma personagem que tenta refazer a sua vida familiar, financeira e emocional, quando, por questões de saúde, é forçado a deixar de lutar. A personagem de Rourke é em simultâneo, uma alusão ao percurso de vida do ator e um olhar sobre uma camada social sem qualquer proteção no envelhecimento ou na doença.

O desporto olímpico também serviu de pano de fundo para a evocação de outras lutas. É o que acontece no filme Momentos de Glória, realizado por Hugh Hudson em 1981, que seria consagrado com quatro óscares, incluindo melhor filme e melhor banda sonora, com a assinatura de Vangelis. O filme conta o percurso de dois atletas da equipa britânica de atletismo, quando se preparam para participarem nas olimpíadas de 1924 em Paris. Um deles, escocês católico será confrontado com a escolha entre a entrega ao desporto ou a fé. O outro, vê no atletismo uma forma de integração social e de combate ao preconceito pelo facto de ser judeu.
A busca por glória e fama, como única solução para escapar a um contexto familiar de violência e degradação, é o que move a patinadora interpretada por Margot Robbie no filme Eu, Tonya, estreado em 2017. O filme de Craig Gillespie, revisita o incidente real que abalou o mundo da patinagem artística nos anos 90, quando Tonya Harding se tornou suspeita de estar envolvida com o ex-marido, numa agressão brutal, a outra patinadora. Eu, Tonya explora o filão da comédia negra, mas é acima de tudo o retrato de uma franja da sociedade, condenada a nunca alcançar o sonho americano.
De volta ao desporto de raquetes, em concreto o ténis, serviu para o realizador italiano Luca Guadagnino encenar um dos triângulos amorosos mais excitantes dos últimos anos. No filme Challengers de 2024, Zendaya, Mike Faist e Josh O’Connor são jovens talentos dos courts, mas não conseguem separar por completo as suas relações pessoais das jogadas e partidas de ténis. Guadagnino conseguiu filmar a modalidade como poucos, mas quase sempre ao longo do filme, nunca esteve apenas a falar do jogo. Há muita sensualidade à solta, há exercícios de poder em paralelo e há desejo entre as três personagens que alastra muito para além do ténis.

É mais um exemplo, numa lista que podia ser ainda mais alargada, de como os cineastas encontram no universo do desporto as ferramentas para retratos mais ou menos complexos da natureza humana.



