O Barqueiro, de Simão Cayate – Entrevista a Romeu Runa, descobrir um bailarino convertido em ator

Lara Marques PereiraAbril 21, 2026

A segunda longa-metragem de Simão Cayate é uma história sobre o reencontro de um pai e de uma filha, mas também de um homem a quem é dada a oportunidade de começar de novo. O ator Romeu Runa é um bailarino que chega ao cinema depois de várias experiências de palco, entre a dança e o teatro. E é um grande trunfo no cinema! No filme, ele é O Barqueiro: um homem que sai da prisão antes de terminar a pena a que estava condenado, mas decide não contar à mulher e à filha que já está em liberdade. Em vez disso, aceita trabalhar a transportar imigrantes ilegais da pesca da amêijoa no Tejo. Incapaz de enfrentar a vida que lhe dá uma segunda oportunidade, Joaquim mantém-se afastado dos seus e arrisca numa atividade ilegal enquanto ao mesmo tempo descobre que à sua volta há vidas que nunca saem do limbo e que não têm grande perspectiva de futuro. “O Barqueiro” é um bom momento do cinema português que permite descobrir o talento de Romeu Runa, pela primeira vez como protagonista. Numa conversa no cinema Nimas com Lara Marques Pereira da Tribuna do Cinema, o ator/bailarino falou do desejo de fazer cinema e desta história de um homem que está preso, mesmo quando sai da cadeia.

 

*

 

Lara Marques Pereira – Depois da experiência de palco, na dança e teatro, o cinema foi entrando na tua vida e este é o teu primeiro papel como protagonista, como se costuma dizer, em que tens o filme aos ombros. Que tal é a sensação, como é que lidaste com isto?
Romeu Runa – Bom, lida-se sempre bem quando se tem uma proposta para ser um protagonista de um filme, mas, de facto, é uma viagem totalmente diferente de quando se faz um papel mais secundário. Isto exige outro tipo de trabalho, aprofundar ainda mais o conhecimento do guião. É preciso ter uma memória bastante viva do guião, saber onde se está, como se está, onde chegaste, de onde vieste, e isso, de facto, foi um trabalho muito diferente em relação a ter um papel secundário. Foi mais exigente encontrar esta personagem do Joaquim, esta culpa com que ele vive dentro, que, às vezes, é quase angustiante. Também é uma personagem que não tem muitas palavras, que se define muito pela forma como o corpo está no espaço, nos ambientes que o rodeiam, e que acerta muito o seu discurso com as suas ações. Isso exigiu-me um trabalho mais profundo de aglomerar todas as emoções que implodem dentro dele e contê-las ao máximo para poder solidificar a personagem a esse ponto de transportar um filme inteiro, mas sem ser muito monocórdico. Mas sentimos que estas impulsões estão representadas na sua fisicalidade e na sua expressão ao longo do filme.

Essa ideia de fisicalidade também me ocorreu ao preparar a nossa conversa. Esta personagem tem muita coisa que não nos é propriamente dita e que passa pelo silêncio. O Joaquim é muito misterioso, sabemos só uma parte sobre ele e, se calhar, pouco importa saber mais. Para ti, foi uma evidência a necessidade de gerir o silêncio que esta personagem pede e que, em última análise, é o silêncio que vai dialogar connosco, muitas vezes, através da fisicalidade dele no espaço. Isto é algo muito evidente em ti: a tua fisicalidade no cinema é algo que vem da dança.
Sim, claro, é um músculo trabalhado durante muitos anos, para chegar a um espaço e orientar o meu corpo no espaço, a forma como vou olhar, como me vou movimentar e isso é algo de que não posso fugir. Portanto, acho que tinha de trazer esse lado para o filme, porque eu não tenho experiência de ser ator, não estudei para ser ator. Também não acho que seja uma necessidade crucial. Porque ser ator é ser um veículo de emoções que se transmitem sob o olhar de um realizador.

 

 

Quando o Simão Cayate te entrega este papel, não tenta que tu rejeites esse lado em ti, que vem da dança; pelo contrário, esperava que o aproveitasses?
Ele reforçou ainda mais, alimentou ainda mais isso. Depois, aquele décor, nas margens do rio, naqueles armazéns pré-fabricados, meio dantescos em ruína, o corpo entra ainda mais em perspetiva com aquilo que esta personagem exige em cada take.

O cenário é, de facto, muito impactante. Isso leva-me ao outro lado do filme, que, em muitas circunstâncias, deixa de ser simplesmente uma ficção para contar a história deste homem, o Joaquim, que está a descobrir um mundo que nós também não conhecemos, que é esta realidade da apanha da amêijoa por imigrantes em situação ilegal. As personagens desta história parecem estar todas num grande impasse: o Joaquim, que não consegue enfrentar a sua vida depois de sair da prisão, e estes trabalhadores ilegais, que estão presos neste esquema e neste submundo. Tiveste algum contacto com este universo que está na sombra?
Há já muitos anos que o Simão começou a sentir curiosidade por estes imigrantes no rio, que ele via quando passava na Ponte Vasco da Gama. Esta realidade que se passa nas margens do rio, mas também à margem da lei. Não é apenas beleza ou apartamentos a serem construídos com vista para o rio, mas é também exploração humana daquelas pessoas. Não tive uma experiência direta com os trabalhadores da apanha da amêijoa, mas falei muito sobre isso com o Simão. Quando começamos a filmar, o rio e aquelas pessoas transportam-nos para aquela realidade que existe para lá da ficção que estamos a fazer. O Joaquim, que tem um objetivo quase ingénuo de ganhar dinheiro para comprar um piano para a filha, leva estes trabalhadores para o rio numa imagem quase mitológica do Caronte, que os leva às portas da morte. O filme questiona-nos moralmente: até onde é que vamos com esta inércia? Deixamos andar, o que é muito característico do português.

A determinada altura, uma das personagens diz: “eu faço isto, porque se eu não fizer, outro vai fazer”. Como uma espécie de conformismo, que também me parece muito português.
Sim, mas eu acho que o filme questiona essa portugalidade, essa identidade. Acho que uma das coisas fortes que o filme tem é não ser um dramalhão e explorar ao máximo o sofrimento dos que estão obrigados, quase escravos, a trabalhar, mas acho que o filme questiona a nossa posição. Seja através de um filme de ficção, seja a olhar para a realidade, para este mundo que está muito próximo de nós, e como é tão fácil termos noção da dor dos outros mas mantermos sempre uma distância. Agora é uma distância mais tecnológica, mas há uma desumanização muito grande sobre a maldade, sobre o mal. O facto de ter feito este filme e trabalhado com os apanhadores da amêijoa deixa-me mais próximo do drama deles mas, depois, a vida continua.

 

 

Antes de O Barqueiro tiveste uma participação no filme de Marco Martins “Great Yarmouth”, são dois filmes que exprimem um certo realismo, que tentam abrir-nos um pouco os olhos para determinadas realidades. É este o lugar que pretendes ter no cinema, manter um pé na realidade?
Não sei, acho que vou atrás dos convites. Eu tinha o desejo do cinema dentro de mim, nunca pensei que houvesse interesse por parte de realizadores em quererem que eu trabalhasse esse desejo. Agora, vejo-me neste mundo e gosto muito de filmar, tanto quanto gosto de estar em palco. Não sei se o cinema gosta de mim, mas eu gosto muito do cinema.

O cinema veio para ficar na tua vida?
Espero que sim, acho que ainda tenho um caminho a fazer, espero que seja longo, para poder evoluir como ator. O trabalho de palco é onde eu tenho maior experiência, é praticamente a casa das minhas emoções. Espero que o cinema também possa vir a ser outra casa de emoções, onde me possa transformar, entrar em metamorfoses.