O sotaque pernambucano de Marcelo é pouco católico. Quem o diz é o seu patrão. A sua fuga remete para a estafada noção regional brasileira: no norte quem preguiça, no sul quem trabalha. Marcelo foge de tudo menos de noções, contudo. A sua vida foi virada ao contrário pela força do poder. Conhecemo-lo na estrada, no imenso technicolor de Kleber Mendonça Filho. Pela voz de Wagner Moura, é alguém à procura de respirar no sufoco da repressão do dia-a-dia. A sua fuga corresponde à busca de outros. Não apenas de outros homens, mas de tudo e todos. É, por isso, particularmente feliz que a primeira imagem que Kleber convoque seja a de um cadáver à beira da estrada de campo, na terra batida da bomba de gasolina semi-abandonada, depois de um assalto. O gasolineiro desvaloriza o morto. Está ali porque tentou assaltar o sítio. Mas está sobretudo à espera que o venham buscar.
A espera do morto é a mesma de Marcelo. Refugiado num prédio no Recife com outros fugitivos deste e de outros regimes, espera pela salvação que poderá vir para si e para o filho. Um passaporte, um futuro longe daqui. Na verdade, a câmara de Kleber idealiza um Recife da sua própria memória. O Agente Secreto tem lugar temporal metamórfico, mas a fuga de Marcelo começa em 1977. Nesse ano, Kleber seria um jovem de 9 anos de idade, não muito longe da do filho de Marcelo. O mundo de Marcelo é perfeitamente dissonante assim: retirado da memória rosada de uma criança a descobrir o mundo, o amor pelos filmes (e por Jaws, de Spielberg) e o fascínio pelas personagens da sua cidade natal, mas habitado por figuras sinistras, cadáveres e inocentes em fuga.
Não será até bastante mais tarde que saberemos por que foge Marcelo, mas é certo que o faz rumo ao filho, a cargo dos pais da sua falecida mulher. O Agente Secreto de que nos fala Kleber é, contudo, Jean-Paul Belmondo. “O Magnífico” (Le Magnifique, Philippe de Broca) está exibição no cinema da sua cidade no qual o sogro de Marcelo é projecionista. Em Retratos Fantasmas, o anterior documentário sobre as salas de cinema históricas da cidade do Recife, o São Luiz é um edifício deixado ao abandono, deixado aos fantasmas dos filmes que em tempos lá habitaram. Aqui, respira a vida de um passado áureo. Não é difícil acusar Kleber Mendonça Filho de anacronismo neste O Agente Secreto. Os olhos que lança ao Recife são os seus e não os de Marcelo. Mas é também aqui que o filme encontra a sua alma. Nesta anacronia vive a ilusão do passado aos olhos do presente. O Agente Secreto é o desejo de ter a memória de algo que não lembramos, mesmo que seja o nosso próprio pai. Em Le Magnifique, Belmondo representava um escritor que projecta a sua própria realidade na obra. Ironicamente também com a imagem de um tubarão assassino, o Jaws, aqui omnipresente. Também aí a idealização da obra do artista é rosada – uma criação cor-de-rosa para combater uma realidade cinzenta.
A figura do perseguido é, por estes dias, uma imagem recorrente. Em One Battle After Another, vemos DiCaprio em fuga de um homem numa cruzada pessoal, mas também numa busca pelo significado familiar. Aqui, Kleber coloca Wagner Moura na mira de um homem similarmente sinistro e de uma salvação igualmente parental, mas com uma importante distinção: Ghirotti, o perseguidor de Marcelo, representa a verdadeira face da ditadura, uma ditadura brutalmente presente em todos os momentos. Ghirotti é um homem de negócios, um homem do bem, acompanhado pelo filho, como tantos outros homens de bem em O Agente Secreto (também o ex-tenente do exército que o persegue se faz acompanhar do filho adoptivo), mas é sobretudo representativo de um regime em que toda a brutalidade da violência que exerce é feita em serviço dos mais fortes.
À excepção da sua sequência em que Marcelo enfrenta finalmente os seus assassinos, contudo, O Agente Secreto é um filme desprovido de violência. Muito é sugerido, pouco é publicitado, à imagem do próprio regime. É na ameaça que reside a força do seu poder. A certa altura, Euclides, o polícia militar chefe da delegacia local, folheia o jornal para, segundo ele, conferir se os comunistas estão à espreita. Pelo caminho, lê duas notícias: uma que relata o desaparecimento de um estudante, outra que ilustra a descoberta de uma perna humana no estômago de um tubarão local.
O amor pelo barroco e pelo realismo mágico sempre me pareceu aproximar Kleber mais do imaginário cultural argentino e chileno do que necessariamente do brasileiro. O episódio do folhetim policial da crónica da perna peluda, à solta pela cidade em situações cada vez mais fantásticas, junta algo muito real (a força bruta do regime) ao imaginário popular. O Recife de Kleber evoca a cuidadosa reconstrução memorial do cinema El Pampero (Trenque Lauquen, de Citarella, ou Historias Extraordinarias, de Llinás), marcado pelo fascínio pelo bucólico e o amor pelo cooperativo (aqui representado pela colónia de entreajuda de “refugiados”), e o realismo mágico de Borges ou Bolaño.
Ainda assim, O Agente Secreto está sempre fundado em algo muito mais imediato do que o passado: a memória ou a falta dela. Quando a sua narrativa comunga com o presente, somos forçados a contactar com duas noções da interpretação do passado: o seu aturado registo, representado pela mão da estudante Flávia (Laura Lufési) que procura recordar a voz de Marcelo e da sua fuga; e as marcas que deixou naqueles que Marcelo deixou para trás, o seu filho, e a memória que o regime lhe roubou. Todos os fios vão dar a uma realidade alternativa, que se perdeu. A perna perdida itinerante, o cinema à pinha para ver The Shining pela primeira vez, o homem estendido na gasolineira que atormenta os sonhos de Marcelo, “If You Leave Me Now” dos Chicago a passar na rádio na estrada a caminho do Recife. Anacronias que forçam a sua presença nas pessoas que habitam o mundo de Kleber. Um mundo que, de O Som ao Redor a Aquarius e Bacurau, sempre foi tão inquietante quanto mágico.
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