Nino, de Pauline Loquès: A Contenção Emocional das Ruas de Paris

Ana MatosAbril 24, 2026

Nino tinha de ser o nome do filme. Nino está sozinho quando é confrontado com o diagnóstico. Nino vagueia sem saber para onde ir. Nino está sem chaves e não pode voltar a casa. Nino procura a mãe, mas não consegue confessar-lhe o que sabe. Nino não tem a certeza se vai ser capaz de se sujeitar a um tratamento. A solidão e o desnorte de Nino tomam conta do ecrã. O filme acompanha este jovem que recebe um diagnóstico inesperado de cancro da laringe e que terá de iniciar um tratamento dali a três dias. Incapaz de partilhar o que acabou de descobrir, passa um fim de semana à deriva, deambulando por Paris entre o choque e o silêncio. Na consulta, pedem-lhe uma amostra de esperma para preservação, e há algo de profundamente estranho na imagem de Nino a sair do hospital com um pequeno frasco na mão, como se carregasse ali, de forma quase absurda, a possibilidade de um futuro. Sem conseguir regressar a casa, por ter perdido as chaves, é forçado a vaguear pela cidade, encontrando pelo caminho a mãe, alguns amigos, uma ex-namorada. Como explica a realizadora Pauline Loquès, interessa-lhe precisamente esse tempo morto, esse intervalo onde a vida continua apesar de tudo ter mudado. Cada encontro funciona como uma tentativa falhada de dizer o indizível, enquanto Nino experimenta uma nova forma de se relacionar com o seu corpo, com a cidade e com os outros.

 

 

Pauline Loquès limita a acção aos dias entre o anúncio da doença e o início do tratamento, fixando-se nesse intervalo suspenso onde interroga como atravessar esse vazio. Mais do que o acontecimento em si, interessa-lhe esse abismo, feito de dias e noites que se sucedem quando já não se sabe como viver o que antes era banal. O filme está impregnado da melancolia do tempo que ficou para trás, um tempo ainda não contaminado pela doença. Mas sentimos também a angústia emocional, vivida em tempo real, de uma personagem profundamente desamparada. Apesar de Nino estar sozinho, todo o filme o coloca em constante relação com os outros: cruzam-se, falam-se, aproximam-se, mas Nino não consegue partilhar o segredo que o aterroriza. Há sempre uma distância, como se algo ficasse por dizer e como se, num canto do ecrã, víssemos a areia de uma ampulheta a escoar, sem clemência.

Théodore Pellerin recebeu o César por esta interpretação contida. O conflito interior passa no tom certo, sem qualquer recurso a dramatismos ou artifícios. Como é característico de certo cinema francês, Nino não desperta uma compaixão imediata. Não sabemos exatamente o que sentir em relação a ele, já que não se entrega a ninguém, nem a nós, espectadores. Paira um olhar assumidamente feminino sobre esta personagem masculina, não só na forma como Nino é filmado, mas também na própria construção da equipa, essencialmente composta por mulheres em funções-chave. Sente-se uma atenção ao detalhe, uma proximidade discreta. O filme nasce ainda de uma experiência pessoal já que é dedicado a um amigo da realizadora, que morreu de cancro. Sentimos uma vontade clara de transformar a perda em algo mais leve, mas sem negar a dor. Mais do que mostrar a doença, interessa aqui explorar o momento anterior.

 

 

Há uma opção clara por uma abordagem crua, quase clínica, tanto na forma como a doença é anunciada, como na própria reação de Nino. Essa contenção emocional atravessa todo o filme, e também Paris reflete esse estado. Longe de qualquer idealização, surge como uma cidade cinzenta, sempre em movimento, alheia ao que se passa com Nino. Uma cidade que o envolve, mas que nunca o acolhe. Apesar de estar rodeado de pessoas, permanece profundamente só. Mais do que um simples cenário, Paris impõe o seu ritmo, obrigando-o a continuar, mesmo quando tudo nele parece ter parado. A distância é, ao mesmo tempo, a maior força e o maior limite do filme. Ao insistir numa abordagem tão contida e distante, Pauline Loquès constrói um retrato honesto, mas emocionalmente inacessível. Percebemos Nino, mas raramente o sentimos.

Ainda assim, é nas relações que o filme encontra o seu ponto mais verdadeiro. Nos encontros que surgem ao longo destes dias, por mais breves ou imperfeitos que sejam, há uma tentativa de reconexão com o outro e consigo próprio. É aí que Nino encontra um ponto de apoio, uma forma de resistir ao vazio e de recuperar, ainda que de forma frágil, a energia para continuar. No fim, são as relações que devolvem Nino à vida.