Night Always Comes, de Benjamin Caron: Um “Good Time” Versão Dieta

Carla RodriguesSetembro 22, 2025

Muito já se disse sobre o papel da Netflix no cinema contemporâneo, quase sempre em tom acusatório. Há quem lhe aponte a culpa de afastar público das salas, de inundar o mercado com conteúdo de micro-ondas, feito para encher catálogo e nunca para ficar na memória. Volta e meia, lá aparece um filme jeitoso. Mas a verdade é que, para cada Marriage Story ou His Three Daughters, há pelo menos mais meia dúzia de filmes do Adam Sandler em modo “balde de DVDs a 1 euro do Auchan”, e uma saca cheia de outros estouros de orçamento, como Rebel Moon ou The Electric State, que parecem feitos mais para lavagem de dinheiro do que para cinema. No meio desses todos, acabam por sair mais duas dúzias de filmes que não são bons, nem maus, mas são o pior dos pecados: aborrecidos e esquecíveis.

Infelizmente, Night Always Comes cai nesse limbo.

Vanessa Kirby já tinha mostrado fôlego num original Netflix (Pieces of a Woman, que calhou de ser um dos bons) e aqui entrega uma performance esforçada, de nervos à flor da pele, mas que não chega para suster o filme sozinha. A sua Lynette é uma mulher exausta, presa à precariedade, obrigada a medidas extremas para não perder a casa da família.

O cenário é atual: preços de habitação absurdos, trabalho precário e mal pago, inflação sufocante. Um retrato reconhecível do que é viver no fio da navalha, sem se saber como esticar um parco orçamento até ao fim de cada mês. No papel, o drama social encontra terreno fértil para se tornar também num thriller intenso, desenrolado ao longo de uma só noite. Mas a execução não está à altura.

O filme arranca com uma montagem de notícias, uma espécie de mural sonoro sobre a crise económica que asfixia a classe trabalhadora. Prepara-se, assim, o terreno para justificar o desespero da protagonista. Só que logo a seguir entram em cena elementos que turvam as águas. Uma mãe egoísta, escrita com pouca subtileza e ainda menos tridimensionalidade; flashbacks de uma adolescência marcada por traumas, atirados aleatoriamente num despejar de notas de rodapé. O drama que deveria assentar no quotidiano cruel e sistémico passa a ser um festival de chavões narrativos, tratados com mão pesada.

Lynette precisa de $25.000 para manter a casa em que ela, a mãe e o irmão vivem. No princípio do filme, esse dinheiro existe e tudo parece estar mais ou menos controlado. Mas, claro, precisamos de um catalisador para o descalabro. E esse acaba por ser uma decisão estapafúrdia da mãe de Lynette. Decide estourar o dinheiro num carro novo, sem que o argumento se preocupe em justificar de uma forma minimamente credível tamanha estupidez. Esse detalhe, mal-amanhado, faz com que tudo que pareça menos um golpe cruel do destino e mais uma forma preguiçosa de forçar a tragédia a acontecer. Suponho que se possa culpar o livro em que o filme se baseia (confesso que não li; quem sabe no livro resulte melhor).

Kirby faz o que pode com a matéria-prima. Lynette é raivosa, impulsiva. Mas sempre que o filme parece querer abrandar para lhe dar mais dimensão, a única solução encontrada pelo realizador é abrir mais uma janelinha no calendário do advento do trauma. Isto não enriquece a personagem, só a prende num ciclo de sofrimento que começa a soar a uma espécie de “pornografia da pobreza”. Quando a narrativa insiste apenas em empilhar desgraça sobre desgraça, o impacto emocional esgota-se. Em vez de empatia, instala-se o torpor.

Night Always Comes oscila entre querer ser um thriller tenso e ao mesmo tempo um drama social contundente. Mas nunca encontra o equilíbrio. Há momentos iniciais em que até nos é prometida intensidade, só que a partir da metade o filme tropeça em si próprio. Faz lembrar um Good Time versão dieta: a mesma corrida contra o tempo, a mesma noite de más decisões, mas sem a energia febril que os Safdie são exímios em injetar. O clímax não tem catarse, só um baque seco. Fica a sensação de viagem interrompida, de algo que poderia ter sido pulsante, mas se resigna a parecer um disco riscado.

Não é mau que gigantes como a Netflix apostem em histórias sobre quem vive esmagado por um sistema impossível. O momento histórico é propício, e a premissa poderia, em mãos mais firmes, gerar um filme eficaz e inesquecível. Mas aqui, a boa vontade não chega. A mise-en-scène é redutora, o guião não confia o suficiente na força dos factos e, em vez de nos mostrar um sistema cruel, opta por dramatizar a vida de Lynette até ao ponto de saturação.

No fim, fica-se com a sensação de oportunidade perdida. Night Always Comes não é, de longe, um dos piores originais da Netflix, mas é talvez um dos mais decepcionantes. Porque partia de uma premissa atual e urgente, com um bom elenco, e o que entrega é um “mais ou menos” polido, que se vê sem raiva, mas também sem memória. O género de título que daqui a seis meses volta a aparecer no catálogo e já não temos a certeza se o vimos ou não.

Carla Rodrigues