NAZA, de Yuval Abraham & Rachel Szor – O Vigilante

Hugo DinisOutubro 2, 2026

 

He’d kill US if he had the chance.

 

Os mecanismos internos que nos levam a acreditar em alguma coisa são sempre susceptíveis a escrutínio. Na maior parte das vezes, esse escrutínio vem de nós próprios. Até que ponto faz sentido manter os valores que temos? Até onde vamos para os defender? O que queremos fazer com aquilo que serve de base para a forma como vivemos as nossas vidas? A partir do momento em que nos deixamos de nos questionar, em que é que nos tornamos? Por certo, passamos a ser pessoas dispostas a abdicar de algo fundamental. Algo que, de certa forma, fará de nós seres humanos. Se esse conceito é liberdade, individualidade ou simplesmente moralidade, cabe a cada um definir.

Não é difícil, a esta altura do campeonato, definir Gaza como a grande questão dos nossos tempos. Se deverá ser abordada do ponto de vista de moralidade, pelo prisma do legalismo internacional, ou simplesmente pela forma como estamos abertos a ser interpelados no nosso quotidiano por aquilo que nos rodeia, também isso caberá a cada um definir. A certo ponto, no mais recente documentário de Rachel Szor e Yuval Abraham, NAZA, um dos soldados das Forças de Defesa Israelita (FDI) que integra a operação de “comunicações” do exército afirma que ele e os seus colegas se sentem como “deuses” a ouvir as conversas dos outros. Os outros vivem, ou viviam, claro, em Gaza. Para ele, e tantos outros como ele, o habitante de Gaza não é tanto um Outro, um verme, ou alguém desprovido da sua humanidade. É simplesmente um espaço em branco. Alguém sobre o qual qualquer tipo de pensamento, consideração ou reconhecimento se tornou desnecessário ou inválido.

A conhecida deixa de Frederic Forrest em The Conversation (1974, Francis Ford Coppola) é hoje um mantra universalizado em Israel. Uma sociedade consumida por uma relação de ausência sobre quem a rodeia, certa de um pensamento totalizante de que esse ser ausente, de facto, “[would] kill US if he had the chance”. As entrevistas compiladas por Szor e Abraham em NAZA são contundentes nesse aspecto. O que salta do ecrã não é necessariamente a banalidade com que estes mecanismos internos de auto-justificação da mortandade se sobrepõe a qualquer tipo de pensamento crítico, mas sobretudo o facto de constituírem condição sine qua non para coabitar em sociedade. Conforme aponta outro oficial entrevistado, “se não confiarmos no sistema, ele vai ruir”.

A alternativa a considerar na ausência de qualquer tipo de questionamento interno é a quebra de todo e qualquer compromisso societal, e isso, claro, simplesmente não é aceitável. O resultado é um conjunto de pessoas fechado sobre si próprio, determinado a olhar em frente e nunca para o lado. O mesmo oficial que afirma ser imprescindível a fé quase espiritual nesse sistema de crenças também nos diz que, à medida que ajuda a coordenar centenas de ataques que vitimam milhares de civis, o sentido de futuro é sempre mediado pelo pensamento no próximo ataque. Como aqueles atletas movidos a um pensamento único sobre o próximo jogo.

A importância de abdicar da crítica, de não pensar, é força de qualquer totalitarismo, é certo, mas é também a forma como cada qual internaliza a sua capacidade para lidar com a enormidade daquilo que o rodeia. Estes entrevistados não produzem um único pensamento político em NAZA. Não ouvimos uma frase sobre lideranças, ideias, dinâmicas de poder ou projectos de sociedade. Apenas trabalho. Um dos oficiais detalha a forma como os franco-atiradores israelitas são treinados para abater a população civil que acorre aos pontos de entrega de comida em Gaza. Aqueles que o fazem através de uma ponte estão dentro dos limites do aceitável. Aqueles que o fazem atalhando caminho por um pequeno vale são abatidos. Não é permitido, diz simplesmente.

Em vários momentos de NAZA, é possível sentir o entrevistador, sempre Abraham, ficar sem palavras nem questões a colocar. Na verdade, essa é uma das muitas virtudes deste documentário, paradoxal que isso seja. Em NAZA, estas pessoas falam de viva voz, são convidados a desenhar esquemas para ilustrar aquilo que dizem, e raramente são submetidos a processos de fé. Para a maioria dos espectadores, isso será desnecessário. A este ponto, o conhecimento sobre o que se passa em Gaza é total e ubíquo, e apenas ilude aqueles que dele se querem alhear.

 

 

Quando escrevo estas linhas, dou por mim a pensar no cartaz de promoção de NAZA. Carregado por um fundo preto está um desenho rudimentar de figuras de pessoas, algumas juntas, outras nem por isso. Em torno de um conjunto delas, uma família, presumimos, está uma caixa, igualmente primitiva. Esta força primária daquilo que somos forçados a encarar em NAZA, e que representa os tais esquemas desenhados pelos entrevistados no filme, é a solenidade dos costumes que levam um povo a seguir a sua vida paredes-meias com a enormidade das consequências dos seus actos.

Essa relação entre dissonância e vivência é, de resto, oxigénio para a criação de verdadeiro cinema por parte de Szor e Abraham. Encerrado pelo betão da cidade, NAZA não é um filme de Gaza mas de Telavive. As entrevistas e os entrevistados habitam um mundo divorciado da vida quotidiana dos habitantes da metrópole. A pontuar as suas frases vemos uma selva urbana imensa, perdida em vasos comunicantes, banhada pelas pequenas vidas de cada um. Tal como o Harry Caul (Gene Hackman) de The Conversation, somos elementos terceiros às suas actividades. À janela vemos uma mulher que amassa o pão do dia seguinte, um par de ténis a fazer jogging numa passadeira de ginásio, mãos que se entrelaçam à noite a ver televisão em conjunto. O que não vemos é mais relevante, contudo. Não vemos olhares, não vemos pessoas, apenas espectros.

Em boa verdade, o que NAZA evita, pelo menos até ao momento do seu derradeiro plano, é o céu. Gradualmente, percebemos que estivemos quase hora e meia a ser envolvidos pela constrição de uma jibóia urbana que tudo engalfinhou em sua volta, incluindo o seu próprio passado. O termo NAZA refere-se àquele tão vil eufemismo de “danos colaterais” – civis tolhidos pela máquina de guerra em torno de si, incapazes e incapacitados de a ela fugir. Eles matar-nos-iam se tivessem a hipótese.

 

Hugo Dinis