Mother Mary, de David Lowery – Autotune Cinematográfico

Carla RodriguesMaio 26, 2026

Há uma certa tendência no cinema de terror moderno (ou pelo menos no chamado elevated horror, um termo que deixa muitos cinéfilos mais arrepiados do que os próprios filmes) em pender para a abstração e para o simbolismo excessivo, muitas vezes sem qualquer resolução satisfatória. Claro que há exceções e, confesso, sendo fã da vaga A24 e afins, a minha predisposição para estes filmes é quase sempre positiva. Já entro na sala a querer gostar.

Foi esse mesmo o caso com este Mother Mary, de David Lowery. Tão convencida estava de que vinha dali algo especial que até o coloquei como um dos meus três filmes mais aguardados de 2026. Lembram-se? Pois bem. Merece lá o lugar? Se eu pudesse viajar no tempo, confesso que o cortava.

Não sendo bem um filme de terror, mas roubando uma ou outra ferramenta ao género, Mother Mary deixa-se cair numa abstração bacoca que quer vender complexidade mas entrega tédio.

 

 

A premissa é contida. Acompanhamos uma superestrela pop (a titular Mother Mary, interpretada por Anne Hathaway) num momento de grande fragilidade na carreira, por razões que o argumento decide ir revelando a conta-gotas (ou não). Nesse abismo, Mary recorre à sua antiga designer de moda — e provável ex-amante — Sam Anselm (Michaela Coel), com quem não fala há uma década, para que lhe desenhe o vestido do seu próximo grande concerto. Parece simples. O problema é que a relação entre as duas coalhou numa amargura imensa por parte de Sam. Ainda assim, ela aceita o desafio de criar o próximo figurino icónico de Mother Mary, dando o tiro de partida para quase duas horas de ressentimento, histórias mal resolvidas, obsessão, mágoa, idolatria, ego, conexões, dependência emocional, projeção e coisas que tais. Com todo este potencial, é com tristeza que tenho de dizer que o que se segue é um exercício pretensioso e enfadonho, embora estiloso quanto baste. Lowery sabe construir momentos visuais marcantes, e aqui, ajudado por toques de surrealismo e pelo potencial de encenar sequências de concertos de estádio, aproveita essa qualidade. A chatice é que esses visuais ameaçam que o filme se pode tornar interessante a qualquer momento, e isso não acontece.

Mesmo antes das coisas assumirem contornos sobrenaturais, o diálogo é tão forçado que quase que roça a paródia, e o ritmo arrasta-se. Não há sequer uma ideia clara do que o filme quer ser. Nunca decide se quer ser melodrama tóxico,fixe, obrigada conto de horror psicológico, drama psicosexual, sátira à cultura pop ou fantasia arthouse. Resultado: fica preso num limbo muito bonito e muito monótono. Pedia-se mais coragem; as bases estavam lá, bastava pegar nelas e correr.

 

 

Mother Mary é um ensaio de estilo frequentemente incompreensível, que, para além dos esparsos flashes visuais, só não descamba no aborrecimento completo graças ao trabalho sólido de Hathaway e Coel. Apesar do chorrilho de clichés pseudo-filosóficos que o guião as obriga a debitar e das direções bizarras que a narrativa toma, ambas seguram as pontas. Hathaway é convincente como uma diva global e Coel tem uma frieza mais cortante que as suas tesouras. A química entre elas é palpável, o que acaba por ser a salvação da pátria, já que o filme é 80% diálogo entre as duas.

 

 

Quero acreditar que o grande objetivo de Lowery era examinar como décadas de estrelato podem destroçar a psique de um artista e analisar a linha ténue entre o fanatismo e a idolatria. Um filme com melhor escrita e uma direção mais focada tê-lo-ia conseguido. Infelizmente, Mother Mary está demasiado deslumbrado com as suas próprias metáforas para desenvolver qualquer dessas ideias de forma substancial.

Safam-se as interpretações, a banda sonora e os rasgos ocasionais de beleza estética. Contudo, como um todo, Mother Mary é um filme desesperado para ser visto como complexo, quando o melhor teria sido construir uma narrativa em vez de um moodboard muito caro. Desilusão.

 

Carla Rodrigues