19º MOTELX – A Pianista, de Nuno Bernardo: Entrevista ao Realizador

EquipaSetembro 8, 2025

A 19º Edição do MOTELX — Festival Internacional de Terror em Lisboa, começa já amanhã, dia 9 de Setembro. Enquanto parceiros de comunicação, demo-vos já ler a nossa antevisão geral da programação, no mês passado, e mais recentemente a nossa entrevista aos directores Pedro Souto e João Monteiro. Além das dezenas de curtas-metragens portuguesas e das reposições de filmes portugueses (O Crime da Aldeia Velha, de 1964, por exemplo, imperdível no dia 15 de Setembro), o festival conta também com a presença de três longas-metragens nacionais em competição pelo Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia. Uma delas é A Pianista, de Nuno Bernardo, que será exibida, em estreia mundial, numa sessão especial na noite de 10 de Setembro, na véspera de se estrear nas salas portuguesas. Tivemos oportunidade de conversar com o realizador numa entrevista de antevisão ao filme.

Para os nossos leitores que desconhecem o seu trabalho, como pode apresentar estas últimas décadas? Sei que tem já um longo percurso no audiovisual e na escrita. Foi co-autor dos livros  “O Diário de Sofia” (2003 em diante). Realizou o filme Gabriel (2018), a série Amnésia (2017), na altura o primeiro projecto da RTP Lab, entre outras produções. Partindo deste enquadramento, qual a génese de A Pianista (2025)? 

A minha paixão sempre foi contar histórias e nunca me preocupei muito em ter uma carreira tradicional ou apostar num género ou estilo específico. Aquilo que mais me fascina enquanto realizador é provocar reacções genuínas no espectador — ou no leitor, dependendo do meio em que estou a trabalhar. 

O meu percurso começou de forma muito diferente do que se poderia esperar de um realizador de cinema. Iniciei-me na escrita de livros e na produção de séries direccionadas para adolescentes, sendo “Diário de Sofia” o exemplo mais marcante dessa fase inicial. Foi uma experiência formativa extraordinária, que me ensinou os fundamentos da narrativa e da construção de personagens que conseguissem cativar um público jovem e exigente.

A partir daí, fui gradualmente progredindo e expandindo os meus horizontes criativos, começando a produzir televisão e cinema para jovens adultos — projectos como T2 para 3 (2008), Beat Girl (2013) e Collider (2013) representaram essa transição natural. Eventualmente, aventurei-me em conteúdos mais maduros e complexos, direccionados para um público adulto, como foi o caso do filme Gabriel e agora de A Pianista. Ao longo deste percurso, saltei deliberadamente entre géneros aparentemente díspares — comédia, drama, ficção científica e thriller psicológico — sempre nessa busca incansável por encontrar novas formas de entreter e provocar o espectador.

A Pianista é um filme deliberadamente pequeno em termos de escala orçamental e de produção, mas que carrega a ambição desmedida de contar uma história que verdadeiramente provoque o espectador. Que o faça pensar sobre questões profundas, que o irrite em determinados momentos — porque a irritação também pode ser uma reacção valiosa —, mas que, no final, consiga que ele saia do cinema num ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre temas universais como a vida e a morte, e sobre a forma como nós, enquanto seres humanos imperfeitos e vulneráveis, reagimos e lidamos com a perda irreparável.

Miguel Borges e Teresa Tavares em A Pianista

O filme situa-se num “futuro próximo” — assim nos informa um intertítulo. Ana é uma ex-pianista abalada pela morte súbita do marido: é surpreendida pelo contacto de uma empresa de clonagem que a informa que este havia contratado os seus serviços ainda em vida. Esta localização do filme no futuro era importante  para a sua visão da história? Acha que a trama funcionava sem o elemento do clone? De que forma é que sente que esta ‘clonagem’ está ligada ao percurso dramático das personagens?

Essa questão temporal foi uma das decisões mais ponderadas durante o desenvolvimento do projecto. Não sou verdadeiramente obcecado por “ficção científica” enquanto género puro, mas reconheço o imenso potencial dos elementos sci-fi enquanto metáforas poderosas para explorar a condição humana. Neste caso específico, a ambientação futurística serve apenas — e isto é fundamental — para justificar de forma credível a existência da tecnologia de clonagem, que é verdadeiramente o elemento central e motor de toda a história.

A clonagem, enquanto dispositivo narrativo, permite-me explorar temas profundamente universais: a perda irreparável, o processo complexo e doloroso do luto, a fantasia das segundas oportunidades, e também — e talvez mais importante — a dificuldade intrínseca que todos nós temos em aceitar que as pessoas que amamos mudam constantemente, nos abandonam por vezes, morrem inevitavelmente, e que mesmo quando regressam às nossas vidas (como no caso de uma separação ou reconciliação), acabam invariavelmente por voltar diferentes do que eram antes.

A ideia da clonagem, essa possibilidade quase divina de podermos “ressuscitar” alguém que perdemos, é para mim extremamente interessante tanto do ponto de vista puramente narrativo como filosófico. Levanta questões fundamentais sobre identidade, continuidade da consciência, e sobre aquilo que verdadeiramente constitui uma pessoa.

Estas dimensões filosóficas e emocionais são manifestadas de forma muito concreta através da personagem do Pedro, o filho, que vive numa constante tensão entre o fascínio e a rejeição pela figura paterna ressuscitada. O clone serve para sublinhar e amplificar essa ambivalência natural de um filho que perdeu o pai e agora se vê confrontado com o seu regresso. A cena da dança em família depois do jantar, por exemplo, é precisamente construída em torno desta tensão: representa um momento de felicidade aparentemente genuína que colide violentamente com o desconforto profundo do regresso de alguém que não deveria estar ali. 

Teresa Tavares em A Pianista

Várias ambiguidades estão presentes no filme, em termos narrativos. Quem fez o quê, de quem é a responsabilidade dos eventos, qual é afinal o teor moral destas personagens, etc. Há perguntas que ficam a pairar. Pode falar um pouco sobre elas?

Tenho uma paixão particular pelo cinema que deliberadamente não oferece todas as respostas de forma mastigada ao espectador. Como espectador, eu próprio adoro sair da sala de cinema envolvido numa discussão acesa com quem me acompanha sobre “quem fez exactamente o quê” e “o que é que realmente aconteceu”. Por essa razão, a história de A Pianista — tal como já tinha acontecido anteriormente com Gabriel — foi meticulosamente construída para que, em determinados momentos, o espectador se possa sentir genuinamente perdido, para que certas situações possam não fazer sentido imediato, para que existam lacunas propositais na narrativa que cada pessoa preenche à sua própria maneira.

Esta abordagem resulta da minha convicção de que existem múltiplos “finais” possíveis em A Pianista, e que diferentes espectadores vão inevitavelmente interpretar as pistas deixadas ao longo do filme de formas diferentes.  Desejo que o final possa ser entendido dessas formas distintas por cada pessoa que assista ao filme. Enquanto realizador, recuso-me deliberadamente a fornecer uma resposta única e definitiva, porque, para mim, o cinema é também — e talvez principalmente — isso mesmo: um espaço sagrado para a interpretação pessoal, para a construção individual de significado.

Já tinha trabalhado com a Teresa Tavares antes. Pensou logo nela para a protagonista?

Já tinha tido o privilégio de trabalhar com ela em Collider (2013), e foi uma experiência muito enriquecedora. Apesar de raramente escrever um guião a pensar especificamente neste ou naquele actor, a Teresa foi, desde muito cedo no processo de desenvolvimento do projecto, uma das actrizes que senti que encaixava na perfeição no papel da Ana, a protagonista. A sua capacidade de transmitir vulnerabilidade e força em simultâneo, de navegar entre registos emocionais complexos, era exactamente aquilo que a personagem exigia. Felizmente, aceitou o desafio com entusiasmo, e hoje posso dizer que não poderia estar mais satisfeito com esta escolha.

A rodagem parece ter sido divertida, no Alentejo, fora da cidade. Que desafios sente que teve neste filme em comparação a outros seus ou que aspectos gostou mais de trabalhar em específico nesta obra?

A experiência de filmar fora da cidade foi absolutamente transformadora para todo o projecto. Estar afastados da rotina quotidiana, das distrações habituais, ajudou-nos a criar uma espécie de microcosmos criativo muito especial — uma bolha artística onde apenas existíamos nós, a história que queríamos contar, e a paisagem que nos rodeava. 

Quanto aos desafios, alguns são eternos no cinema português: o orçamento perpetuamente insuficiente — como acontece, infelizmente, em quase tudo o que se produz em Portugal — e o tempo de rodagem sempre demasiado limitado para as ambições do projecto. Mas essa limitação orçamental obriga-nos a ser inventivos, a encontrar soluções visuais e narrativas alternativas que, muitas vezes, acabam por ser significativamente mais interessantes, mais originais e mais marcantes do que aquilo que teríamos feito se tivéssemos tido recursos ilimitados à nossa disposição. 

Há também desafios específicos deste projecto que vale a pena mencionar: trabalhar com elementos de ficção científica num orçamento restrito, criar a atmosfera psicológica adequada para um thriller, e principalmente conseguir equilibrar os diferentes registos emocionais que a história exige — desde os momentos de ternura familiar até aos momentos de tensão quase insuportável.

O MOTELX é um sítio também muito divertido para se ter um filme, com os seus zombies à porta, os seus bolos em forma de dedos… Qual é a sua relação com o festival, costuma passar por lá ou trata-se de uma primeira experiência? Entusiasmado para Quarta-Feira?

O MOTELX é verdadeiramente um festival único no panorama cinematográfico português, e diria mesmo europeu. Tem essa energia muito particular misturada de forma muito inteligente com a seriedade e o rigor de um festival internacional de cinema de primeira linha.  Por isso, considero ser o lugar perfeito para A Pianista fazer a sua estreia mundial. Embora não seja um filme de terror no sentido mais tradicional do género, acredito firmemente que a vertente de thriller psicológico da história vai ao encontro das expectativas e do gosto refinado do público do festival. 

A minha relação com o festival é, até agora, essencialmente a de um espectador apaixonado. Já fui várias vezes ao MOTELX ao longo dos anos, sempre fascinado pela qualidade da curadoria, mas esta é efectivamente a primeira vez que tenho um filme integrado na programação oficial, o que torna a experiência duplamente emocionante.

Por isso, sim, estou entusiasmado para a sessão de Quarta-feira. Há qualquer coisa de mágico em estrear um filme num festival. É o momento em que o filme deixa de nos pertencer exclusivamente e passa a pertencer ao público, em que descobrimos se as nossas intenções criativas conseguiram efectivamente materializar-se no ecrã, em que percebemos se a história que quisemos contar chega realmente aos espectadores. Tenho a certeza de que vai ser uma noite especial, não apenas para mim enquanto realizador, mas para todos os que estiveram envolvidos na criação de A Pianista. É o culminar de meses de trabalho intenso, de dúvidas criativas, de pequenas vitórias quotidianas. 

A Pianista é exibida em sessão especial no MOTELX Quarta-feira, dia 10 de Setembro, às 22h30 no Cinema São Jorge.