Morte ao Árbitro, de Jean-Pierre Mocky – O Futebol é um Machado

Hugo DinisJunho 11, 2026

En estado de epilepsia mira el partido, pero no lo ve. Lo suyo es la tribuna. Ahí está su campo de batalla.

É provável que, ao observar a bancada de hoje, Eduardo Galeano tivesse dificuldades em reconhecer o seu amado futebol. Não que o adepto tenha deixado de ser adepto, que a claque tenha deixado de ser fanática ou sequer que a bola role de forma diferente. O futebol de hoje é um bicho esquisito. Construído para alienar adeptos, com preços de bilhetes caríssimos para a realidade da classe trabalhadora e estádios que mais se assemelham a centros comerciais, o desporto rei não deixa de trazer as pessoas aos recintos que Galeano apelidava de “templos”. Talvez haja poucos exemplos melhores para o ilustrar do que este mundial de futebol que aí se avizinha. Sediado em três países, um dos quais envolvido em convulsões políticas e sociais que parecem destinadas a afastar adeptos de boa parte do mundo, o mundial de 2026 será apenas a sublimação do criptofutebol corporativo que explora os seus próprios consumidores porque sabe que estes não conseguem evitar celebrá-lo.

 

 

A explicação de Jean-Pierre Mocky, provocateur francês e realizador de À mort l’arbitre! de 1984, é relativamente mais directa. “Le hooliganisme, je l’appelle l’éjaculation des employés: après s’être fait engueuler toute la semaine par son patron, le type, tout à coup, explose le soir du match”, diz. O fanático simplesmente não se interessa de verdade pelo futebol. É tudo apenas um instrumento de escapismo da sua vida miserável, do patrão e da mulher, uma ejaculação catártica e desprezível. Em À mort l’arbitre! acompanhamos um grupo de adeptos de uma equipa que veste de amarelo e preto na sua ida ao estádio para um jogo decisivo: disputa-se o acesso à Taça Europeia contra um conjunto de vermelho e branco. O jogo é aqui o que menos interessa, mas a derrota da equipa da casa, os tais de amarelo e preto, de forma polémica, com um penalty assinalado contra si, motiva uma reacção de um filme terror survivalista.

Os revoltosos, liderados por Michel Serrault, empunhando um apito e um machado, aterrorizam a cidade e perseguem o árbitro da partida (Eddy Mitchell). Não para pedir explicações ou sequer para o agredir, mas para o assassinar. É o próprio Mocky, que interpreta o polícia responsável pela segurança do árbitro, a sintetizar a mentalidade terraplanista dos adeptos. Afinal, estes seguem o mais louco, e há sempre um louco. Mas se a loucura não é futebol e o futebol é apenas um pretexto, será que esta turba não estaria, noutro contexto, noutro século, noutra vida, a queimar pretensas bruxas na fogueira e a perseguir inocentes pelo crime de venerar o deus errado? Afinal, o futebol é simplesmente o machado na mão de um homem irracional, a droga de escolha de um povo imenso aproveitado e explorado até ao tutano, à espera daquele domingo em que entra no templo de Galeano para a missa semanal.

 

What Do We See When We Look At The Sky?: um povo que pára e se escuta a si próprio por intermédio do futebol

 

Não estou aqui para fazer esse nem o argumento contrário. O que Mocky nos apresenta é um exploitation film de futebol. Irado pela eliminação, que atribui por inteiro ao árbitro do encontro, Serrault assassina um colega de bancada por pensar tratar-se do inimigo. Mas o que podia ser um momento de catarse, cedo se substitui pelo desenfreado negócio da visceralidade. Serrault aproveita a morte do amigo para atiçar os restantes ao cerne da maldade: o árbitro. Mitchell percorre a cidade, primeiro no desconhecimento daquela multidão sanguinária no seu encalce, em busca de lugares românticos para levar a namorada jornalista de profissão (Carole Laure), e depois a apelar à réstia de sanidade dos revoltosos.

Em “Cerrado por Fútbol”, Ezequiel Fernández Moores, amigo de Galeano, contava a história de um dos grandes cronistas do desporto. No mundial de 1970, Nélson Rodrigues via-se a braços com uma perda de visão debilitante. Mas isso não o impedia de descrever as jogadas da mítica selecção do Brasil de Pelé, Jairzinho e Tostão como se de um bosque se tratasse. As árvores que se deslocavam ao som do vento e os colibris que saltavam de planta em planta até ao toque final para as redes da equipa adversária. “O pior cego é aquele que só vê a bola”, dizia.

O futebol que descreve Mocky não é o da fabulosa jogada colectiva que culminou com o pontapé imparável de Carlos Alberto Torres para o 4-1 no estádio Azteca contra a Itália. O futebol de Mocky é apenas um espectro. Uma ilusão de imagens e sombras, que serve de machado nas mãos de gente como Serrault e tantos outros membros de claques por esse mundo fora. Mas se o futebol é apenas pretexto, também as suas referências o são. O jogo popular, do povo, jogado em ruas e descampados, com sapatos a servir de postes de baliza. O toque bonito, a finta e a jogada de conjunto. Não será por acaso que Alexandre Koberidze viu num mundial de futebol a ideia de um país e de um povo em comunhão de espírito no seu filme “What Do We See When We Look At The Sky?”. O verão de mundial é um marco temporal que entra pela vida dos amantes do futebol adentro. Algo que usamos para demarcar onde estávamos e o que fazíamos quando Tardelli rematou cruzado para o fundo da baliza de Schumacher em 82 e celebrou como um louco, quando Baggio atirou por cima no penalty decisivo contra o Brasil em 94, ou quando Óscar fez um golo de consolação perante uma nação brasileira estupefacta para fechar a goleada sofrida às mãos da Alemanha em 2014.

 

 

A provocação de Mocky poderá perder força social, em particular pela força do tempo, mas não deixa de ser acertada. O adepto do futebol é o seu intratável Serrault tanto quanto será tantos outros Nelson Rodrigues que o vêem pela poesia do seu movimento. Mas, em particular em tempo de mundial de futebol, se não o podemos celebrar em toda a sua idiossincrasia, estamos reféns de uma visão que evita celebrar o próprio ser humano na face de todas as suas contradições. Posto isto, que role a bola e que possamos todos encontrar comunhão com o reconhecimento do maior vilão do futebol: o árbitro.

Texto escrito a propósito do dia de abertura do Mundial de Futebol de 2026.

 

Hugo Dinis