MONSTRA 2026 – 25º Festival de Animação de Lisboa: Olhares sobre 4 Filmes

EquipaMarço 25, 2026

De 12 a 22 de março, a cidade de Lisboa acolheu a 25ª edição da Monstra – Festival de Animação de Lisboa. Num híbrido entre os históricos e as novas vozes da animação, todos presentes em competições, retrospectivas e oficinas, o festival mostra-se, mais uma vez o coração do cinema de animação em Portugal. O país convidado de 2026 foi a Letónia, “uma das mais distintas e inovadoras da Europa, com destaque para o realista onírico Vladimir Leschiov.

 

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Marcel et Monsieur Pagnol de Sylvain Chomet

O animador e realizador Sylvain Chomet regressa quase dez anos depois da sua última curta-metragem e vinte anos após a longa Les Triplettes de Belleville, nomeada para o Óscar de Melhor Filme de Animação em 2003. Marcel et Monsieur Pagnol, a biografia animada do cineasta e dramaturgo francês Marcel Pagnol, é atravessada pela magia do cinema na vida de um homem que fora educado para ser um professor clássico, se tornou um dramaturgo popular e acabou por se converter à sétima arte, determinado a dar voz à cultura marselhesa.

A personagem é também assombrada pela sua versão infantil, que se certifica de que o “eu adulto” se torna naquilo que o próprio idealizava, reaproximando amigos e enfrentando inimigos. Acima de tudo, garante que a promessa feita à mãe no leito de morte — a de que haveria de ser rico — seja cumprida. Marcel não parece compreender que ser filho de um professor e ter prosseguido estudos o afasta da realidade de pobreza que afeta a região a que tanto se dedica. A aparição do pequeno Marcel quando o adulto se muda para Paris e enfrenta uma vida tipicamente cosmopolita, com um círculo social cultural, um divórcio e uma vida sexual mais livre, é particularmente cómica pela exigência infantil dessa promessa. O espectro assume uma dimensão moralista, a que se junta o espírito da mãe, sobretudo no momento em que essa liberalização sexual se concretiza, numa perspetiva claramente puritana. Essa lógica mantém-se através da eliminação de três dos filhos do realizador, provavelmente por serem fruto de outras relações.

O filme acompanha o carisma de Marcel Pagnol rodeado de pessoas que acreditam nele; quando não o fazem, são tratadas quase como figuras patéticas. A personagem ganha humanidade sobretudo através dos picos emotivos provocados por mortes que deveriam realmente afetar-nos, ainda que as restantes personagens acabem por se confundir entre si. O ponto alto do filme é, sem dúvida, a animação, sobretudo a paisagem, que nos transporta pelo território francês. Curiosamente, a passagem por Londres é tão breve que acaba por destoar do resto do filme. No entanto, a narrativa afasta-se da vida do realizador para seguir um caminho excessivamente moralista, desperdiçando as possibilidades que o próprio cinema de animação parecia abrir.

Maria Inês Opinião

 

Housenka (“The Last Blossom“) de Baku Kinoshita

Numa época do cinema em que todos os filmes têm de ser “importantes”, esteticamente relevantes e cheios de significado, filmes como Housenka/The Last Blossom parecem mais relevantes do que nunca. Vindo do Japão, este é um filme de baixo orçamento, desenho de traço simples e dirige-se directamente a um público mais adulto. Uma espécie de melodrama familiar num Mundo criminal, onde o protagonista, um velho yakuza nos seus últimos suspiros numa pequena cela prisional à espera da morte, percorre a sua vida em diálogo com uma flor cheia de personalidade. Apesar de nunca conseguir atingir integralmente o nível emocional que parece ambicionar, o argumento é hábil na sua linguagem a duas (três) velocidades. Além do presente, na cela, observamos o romance inesperado entre Akutsu e Nana, uma jovem mãe solteira, cujo filho Akutsu acaba por reconhecer como seu. As texturas familiares e sentimentais funcionam com bravura, principalmente quando entrecruzadas com a realidade criminosa do protagonista, protegido de um membro yakuza próximo do topo da hierarquia. A forma como Akutsu coloca em si próprio nó górdio, por causas nobres, ditará o desenrolar do resto da sua vida. Um raro filme “normal”, cumpridor, com uma evidente metáfora da consciência através de uma planta obstinada e tagarela. Dir-se-ia talvez um filme fora do seu tempo, com claras influências e admiração por uma certa Nova Hollywood dos anos 80, e que dificilmente será visto fora dos nichos da animação japonesa.

David Bernardino

 

A Story About Fire de Li Wenyu

Da secção Competição Longas da MONSTRA, constou o filme chinês A Story About Fire, ao qual o júri do festival atribuiu uma Menção Especial. Produzido pelo Shanghai Animation Film Studio, o titã do cinema de animação chinesa, a obra foi escrita e realizada por Li Wenyu e teve a sua estreia mundial em 2025, na 75ª edição do Festival de Cinema de Berlim.

A história tem por base uma lenda chinesa sobre um macaco, resgatado e criado por humanos primitivos, que viaja até à Montanha Sagrada para descobrir mais sobre as suas origens. Tendo sido desde o início rejeitado por vários membros da tribo que o acolheu e viu crescer, o macaco embarca numa aventura pelo mundo com o seu melhor amigo, um lobo. O filme explorará a forte amizade entre os dois e mostrar-nos-á a evolução de macaco para homem, tanto figurativa como literal. O óbvio destaque de A Story About Fire vai para a qualidade da animação. Inteiramente desenhado à mão, Li Wenyu emprega tinta da China com uma beleza e versatilidade únicas. Lamentavelmente, o filme é ocupado por uma narração em voz off, muito presente e austera, que não cativa minimamente. Pelo contrário, todas aquelas frases, lidas de forma lenta e monocórdica, apenas salientam que estamos perante uma história simples que o realizador esticou até mais não.

Pedro Barriga

 

Decorado de Alberto Vásquez

A co-produção ibérica Decorado, realizada pelo galego Alberto Vásquez, apresenta-nos Arnold: um rato em plena crise existencial. O filme não procura fazer um comentário inovador sobre o capitalismo galopante em que vivemos. Limita-se a acompanhar uma personagem que sente que há algo de errado, mas não consegue perceber exatamente o quê. Não sabe se as tragédias pessoais recentes estão ligadas a essa estranha anormalidade e, tal como os que o rodeiam, procura respostas nos sítios errados.

A animação acompanha bem todas as fases dessa incerteza. A floresta tanto surge como um refúgio desesperadamente concreto para aqueles que foram empurrados para a margem, como também como a casa de criaturas mágicas cuja presença parece nascer do próprio desespero coletivo, mas que acabam por influenciar tudo o que as rodeia. O último ato repete o arco narrativo do final do segundo, quase como se sugerisse que o nosso destino já está traçado dentro deste sistema económico, e que não lhe podemos fugir, por mais que tentemos. Ainda assim, o primeiro ato não é suficientemente desenvolvido para que o espectador se envolva verdadeiramente com a personagem. Por outro lado, o vilão parece hesitante perante a situação, como se o próprio capitalismo não precisasse de alguém que realmente acredite nele.

Maria Inês Opinião