De 12 a 22 de março, a cidade de Lisboa acolheu a 25ª edição da Monstra – Festival de Animação de Lisboa. Num híbrido entre os históricos e as novas vozes da animação, todos presentes em competições, retrospectivas e oficinas, o festival mostra-se, mais uma vez o coração do cinema de animação em Portugal. O país convidado de 2026 foi a Letónia, “uma das mais distintas e inovadoras da Europa, com destaque para o realista onírico Vladimir Leschiov.
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Marcel et Monsieur Pagnol de Sylvain Chomet
O animador e realizador Sylvain Chomet regressa quase dez anos depois da sua última curta-metragem e vinte anos após a longa Les Triplettes de Belleville, nomeada para o Óscar de Melhor Filme de Animação em 2003. Marcel et Monsieur Pagnol, a biografia animada do cineasta e dramaturgo francês Marcel Pagnol, é atravessada pela magia do cinema na vida de um homem que fora educado para ser um professor clássico, se tornou um dramaturgo popular e acabou por se converter à sétima arte, determinado a dar voz à cultura marselhesa.
A personagem é também assombrada pela sua versão infantil, que se certifica de que o “eu adulto” se torna naquilo que o próprio idealizava, reaproximando amigos e enfrentando inimigos. Acima de tudo, garante que a promessa feita à mãe no leito de morte — a de que haveria de ser rico — seja cumprida. Marcel não parece compreender que ser filho de um professor e ter prosseguido estudos o afasta da realidade de pobreza que afeta a região a que tanto se dedica. A aparição do pequeno Marcel quando o adulto se muda para Paris e enfrenta uma vida tipicamente cosmopolita, com um círculo social cultural, um divórcio e uma vida sexual mais livre, é particularmente cómica pela exigência infantil dessa promessa. O espectro assume uma dimensão moralista, a que se junta o espírito da mãe, sobretudo no momento em que essa liberalização sexual se concretiza, numa perspetiva claramente puritana. Essa lógica mantém-se através da eliminação de três dos filhos do realizador, provavelmente por serem fruto de outras relações.
O filme acompanha o carisma de Marcel Pagnol rodeado de pessoas que acreditam nele; quando não o fazem, são tratadas quase como figuras patéticas. A personagem ganha humanidade sobretudo através dos picos emotivos provocados por mortes que deveriam realmente afetar-nos, ainda que as restantes personagens acabem por se confundir entre si. O ponto alto do filme é, sem dúvida, a animação, sobretudo a paisagem, que nos transporta pelo território francês. Curiosamente, a passagem por Londres é tão breve que acaba por destoar do resto do filme. No entanto, a narrativa afasta-se da vida do realizador para seguir um caminho excessivamente moralista, desperdiçando as possibilidades que o próprio cinema de animação parecia abrir.
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Maria Inês Opinião

Housenka (“The Last Blossom“) de Baku Kinoshita
Numa época do cinema em que todos os filmes têm de ser “importantes”, esteticamente relevantes e cheios de significado, filmes como Housenka/The Last Blossom parecem mais relevantes do que nunca. Vindo do Japão, este é um filme de baixo orçamento, desenho de traço simples e dirige-se directamente a um público mais adulto. Uma espécie de melodrama familiar num Mundo criminal, onde o protagonista, um velho yakuza nos seus últimos suspiros numa pequena cela prisional à espera da morte, percorre a sua vida em diálogo com uma flor cheia de personalidade. Apesar de nunca conseguir atingir integralmente o nível emocional que parece ambicionar, o argumento é hábil na sua linguagem a duas (três) velocidades. Além do presente, na cela, observamos o romance inesperado entre Akutsu e Nana, uma jovem mãe solteira, cujo filho Akutsu acaba por reconhecer como seu. As texturas familiares e sentimentais funcionam com bravura, principalmente quando entrecruzadas com a realidade criminosa do protagonista, protegido de um membro yakuza próximo do topo da hierarquia. A forma como Akutsu coloca em si próprio nó górdio, por causas nobres, ditará o desenrolar do resto da sua vida. Um raro filme “normal”, cumpridor, com uma evidente metáfora da consciência através de uma planta obstinada e tagarela. Dir-se-ia talvez um filme fora do seu tempo, com claras influências e admiração por uma certa Nova Hollywood dos anos 80, e que dificilmente será visto fora dos nichos da animação japonesa.
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David Bernardino

A Story About Fire de Li Wenyu
Da secção Competição Longas da MONSTRA, constou o filme chinês A Story About Fire, ao qual o júri do festival atribuiu uma Menção Especial. Produzido pelo Shanghai Animation Film Studio, o titã do cinema de animação chinesa, a obra foi escrita e realizada por Li Wenyu e teve a sua estreia mundial em 2025, na 75ª edição do Festival de Cinema de Berlim.
A história tem por base uma lenda chinesa sobre um macaco, resgatado e criado por humanos primitivos, que viaja até à Montanha Sagrada para descobrir mais sobre as suas origens. Tendo sido desde o início rejeitado por vários membros da tribo que o acolheu e viu crescer, o macaco embarca numa aventura pelo mundo com o seu melhor amigo, um lobo. O filme explorará a forte amizade entre os dois e mostrar-nos-á a evolução de macaco para homem, tanto figurativa como literal. O óbvio destaque de A Story About Fire vai para a qualidade da animação. Inteiramente desenhado à mão, Li Wenyu emprega tinta da China com uma beleza e versatilidade únicas. Lamentavelmente, o filme é ocupado por uma narração em voz off, muito presente e austera, que não cativa minimamente. Pelo contrário, todas aquelas frases, lidas de forma lenta e monocórdica, apenas salientam que estamos perante uma história simples que o realizador esticou até mais não.
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Pedro Barriga

Decorado de Alberto Vásquez
A co-produção ibérica Decorado, realizada pelo galego Alberto Vásquez, apresenta-nos Arnold: um rato em plena crise existencial. O filme não procura fazer um comentário inovador sobre o capitalismo galopante em que vivemos. Limita-se a acompanhar uma personagem que sente que há algo de errado, mas não consegue perceber exatamente o quê. Não sabe se as tragédias pessoais recentes estão ligadas a essa estranha anormalidade e, tal como os que o rodeiam, procura respostas nos sítios errados.
A animação acompanha bem todas as fases dessa incerteza. A floresta tanto surge como um refúgio desesperadamente concreto para aqueles que foram empurrados para a margem, como também como a casa de criaturas mágicas cuja presença parece nascer do próprio desespero coletivo, mas que acabam por influenciar tudo o que as rodeia. O último ato repete o arco narrativo do final do segundo, quase como se sugerisse que o nosso destino já está traçado dentro deste sistema económico, e que não lhe podemos fugir, por mais que tentemos. Ainda assim, o primeiro ato não é suficientemente desenvolvido para que o espectador se envolva verdadeiramente com a personagem. Por outro lado, o vilão parece hesitante perante a situação, como se o próprio capitalismo não precisasse de alguém que realmente acredite nele.
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Maria Inês Opinião



