Missão: Impossível – Ranking Definitivo

Francisco SousaMaio 23, 2025

Desde 1996, a saga Missão: Impossível tem sido uma peça central na carreira de Tom Cruise e uma constante no cinema de ação moderno. Adaptado da série de televisão homónima dos anos 60, o primeiro filme trouxe para o grande ecrã uma versão mais sombria e cinemática do universo original, e lançou as bases para um franchise duradouro. Até à chegada de Christopher McQuarrie, cada capítulo teve um realizador diferente — Brian De Palma, John Woo, J.J. Abrams e Brad Bird — o que deu à série um tom camaleónico, com estilos visuais e narrativos distintos. Apesar das diferenças entre os vários filmes, há elementos constantes, que já se tornaram icónicos na saga: as máscaras, a gravação com a frase “Your mission, should you accept it” e a auto-destruição que se segue, e, sobretudo, as set pieces cada vez mais ousadas, onde Tom Cruise insiste em dispensar duplos, arriscando a vida em nome do espetáculo. A saga evoluiu de um thriller de espionagem para um franchise de ação à escala global, mas manteve sempre Ethan Hunt como eixo emocional — um agente do IMF (Impossible Mission Force) que corre contra o tempo, contra o sistema e, muitas vezes, contra ele próprio. Este é o ranking dos oito filmes Missão: Impossível, do pior para o melhor.

 

Mission: Impossible 2 de John Woo (2000)

Missão: Impossível 2 é, em retrospetiva, o elo mais fraco da saga. A escolha de John Woo como realizador parecia ousada no papel, mas o seu estilo hipercoreografado e visualmente exagerado nunca encaixou bem no ADN do franchise. Woo está mais interessado em sequências de câmara lenta, Limp Bizkit, voos dramáticos de pombas e duelos estilizados, do que em tensão narrativa ou espionagem propriamente dita. O vilão, interpretado por Dougray Scott, é um dos menos memoráveis da saga — um estereótipo, com uma motivação genérica e que nunca parece representar uma ameaça real.

 

Mission: Impossible 3 de J.J. Abrams (2006)

Se o segundo filme da saga foi uma missão falhada, Missão: Impossível III marcou uma correção de rota. A estreia de J.J. Abrams como realizador de cinema trouxe um tom mais sombrio e emocional, com um Ethan Hunt mais humano, mais vulnerável, e a tentar equilibrar a sua vida pessoal com a profissão. A estética marcada por lens flares e shaky cams, muito comum nos filmes de J.J, é usada ad nauseam e o filme por vezes parece gravado para televisão, com cenas de ação a carecerem de clareza visual e impacto (Abrams vinha diretamente do sucesso de Alias e Lost).  Onde o filme realmente se destaca é no antagonista. Philip Seymour Hoffman eleva o material com uma performance contida e ameaçadora, criando um dos vilões mais memoráveis da saga e salvando o terceiro filme do último lugar do ranking.

 

Mission: Impossible – Final Reckoning de Christopher McQuarrie (2025)

Final Reckoning é o último episódio da saga Missão Impossível, a despedida de Tom Cruise como Ethan Hunt, pelo menos para já. O filme, sequela directa de Dead Reckoning, descarta algumas das narrativas que tinha iniciado na entrada anterior, nomeadamente a de Gabriel, e foca-se no vilão Entity, um chatGPT ultra agressivo, cujo único objetivo é destruir o mundo ao começar uma terceira guerra mundial. Final Reckoning é longo, saturado de exposição e com uma narrativa ainda mais absurda que as anteriores. McQuarrie e Cruise não confiam que os espectadores se lembrem dos eventos que aconteceram ao longo da saga e, por isso, o filme está carregado de flashbacks e cenas de episódios anteriores. Por outro lado, e ao contrário dos outros filmes, Final Reckoning é totalmente desprovido de tensão entre Ethan e Grace, deixando saudades de Ilsa, a personagem interpretada por Rebecca Ferguson. A decisão de dividir o último final em dois (Dead Reckoning e Final Reckoning) não parece ter sido acertada e acabou por prejudicar ambos. No entanto, fica difícil sair do cinema desiludido quando o clímax do filme é uma das cenas de ação mais memoráveis e impressionantes dos últimos anos, com acrobacias por parte de Cruise que desafiam a lógica e fazem questionar a sanidade deste homem. É um final agridoce para uma saga que definiu o cinema de ação nas últimas três décadas, e que merecia uma despedida mais coesa e memorável.

 

Mission: Impossible – Dead Reckoning Part One de Christopher McQuarrie (2023)

Dead Reckoning – Parte Um marca o terceiro filme consecutivo de Christopher McQuarrie ao leme da saga, consolidando a sua visão mais polida, auto-consciente e narrativa da série. Este capítulo introduz novas personagens que acrescentam dinamismo ao grupo — em particular Grace (Hayley Atwell), que funciona como um contraponto interessante a Ethan Hunt, e adiciona uma nova camada de tensão e imprevisibilidade. No entanto, o maior problema do filme é estrutural: é claramente metade de uma história. Sendo a primeira parte de dois filmes, Dead Reckoning não tem o mesmo impacto, nem a mesma urgência que os restantes. A ameaça, representada por uma inteligência artificial chamada The Entity, é mais abstrata e menos tangível que os vilões anteriores, o que a torna conceptualmente interessante, mas emocionalmente distante. Ainda assim, há momentos de ação de elevado nível e de execução exemplar que ficam na memória — a perseguição pelas ruas de Roma é das mais bem coreografadas da saga, equilibrando caos e precisão com a dose certa de humor. Um filme competente e visualmente sólido, mas que fica aquém do potencial.

 

Mission: Impossible – Ghost Protocol de Brad Bird (2011)

Depois do sucesso moderado de Mission: Impossible 2 e 3, Ghost Protocol foi o filme que redefiniu o rumo da saga e lhe deu o fôlego que precisava para se tornar num fenómeno moderno de ação. A escolha de Brad Bird como realizador revelou-se uma escolha inspirada: habituado a filmes de animação (Ratatouille e Incredibles), Bird trouxe uma clareza visual rara e um sentido de espetáculo preciso, que encaixou na perfeição no ADN da série. O filme é intenso, elegante e cheio de set pieces memoráveis — nenhum mais icónico do que a sequência no Burj Khalifa, que se tornou imediatamente um marco do cinema de ação. Adicionalmente, cimentou a equipa central do IMF para os filmes seguintes (Ving Rhames, Simon Pegg) e não só recuperou o entusiasmo pelo franchise, como estabeleceu o tom e o estilo que os capítulos seguintes seguiriam com sucesso.

 

Mission: Impossible – Rogue Nation de Christopher McQuarrie (2015)

Rogue Nation é o primeiro filme realizado por Christopher McQuarrie, e representa um ponto de viragem na saga que até então tinha sido sempre realizada por realizadores diferentes. A narrativa é mais coesa, o tom mais sofisticado, e o equilíbrio entre espionagem clássica e ação explosiva atinge um novo nível. McQuarrie e Cruise apostam cada vez mais na autenticidade, representada pela cena inicial na qual Ethan Hunt está pendurado num avião, sem recurso a duplos, durante a descolagem. A introdução de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson, é outro dos grande trunfos de Rogue Nation: a personagem é complexa, carismática e nunca é reduzida a um mero interesse romântico de Ethan. A dinâmica entre Fergunson e Cruise acrescenta tensão emocional e ambiguidade moral à história. A sequência da ópera de Viena, um dos pontos altos do filme, é exemplar na forma como combina mise-en-scène, suspense e ação silenciosa. Rogue Nation cimenta a transição da saga para um universo mais controlado, elegante e focado — um dos filmes mais completos da série.

 

Mission: Impossible de Brian de Palma (1996)

O primeiro Missão: Impossível continua a ser um dos filmes mais distintos da saga e para muitos o melhor. Realizado por Brian De Palma, o filme tem uma estética como nenhum outro e um ritmo que privilegia o suspense e a manipulação mais do que a ação pura. A desintegração da equipa logo nos primeiros minutos subverte expectativas e estabelece a imprevisibilidade que ainda hoje caracteriza a saga. O filme é mais contido do que os seus sucessores, mas esse é um dos seus pontos fortes: há uma elegância formal e uma atenção ao detalhe que muitas vezes se perde nos capítulos mais recentes. A icónica cena em que Hunt desce do teto, evitando sensores de pressão e som, tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis do cinema de ação. O clímax no comboio de alta velocidade, com um helicóptero em perseguição dentro de um túnel, é um exemplo da ambição técnica do filme. Este capítulo inicial não só lançou uma das franquias mais duradouras de Hollywood, como também demonstrou que filmes de ação podem ser inteligentes e estilizados. Este é o filme que estabelece o molde — e fê-lo com estilo.

 

Mission: Impossible – Fallout de Christopher McQuarrie (2018)

Fallout não é apenas o ponto alto da saga Missão: Impossível — é um dos melhores filmes de ação do século XXI. McQuarrie atinge aqui o auge do controlo narrativo e visual, orquestrando sequências que são tecnicamente impressionantes, mas também carregadas de emoção. O salto de paraquedas em alta altitude, filmado em plano contínuo, e a luta brutal entre helicópteros nas montanhas de Caxemira são momentos que redefinem o limite de set piece no cinema de ação moderno. Henry Cavill, com uma presença física avassaladora (e um bigode para os livros de história), interpreta um antagonista frio e ameaçador, e a dinâmica entre ele e Tom Cruise é a mais interessante da saga. Fallout surpreende também pelo peso emocional: o reencontro entre Ethan e a ex-mulher, nos momentos finais, dá profundidade e vulnerabilidade a uma personagem que, até então, era quase indestrutível. É um filme que equilibra espetáculo, tensão e emoção como poucos, e que eleva o standard de toda a saga.

 

Francisco Sousa