Memórias do Teatro da Cornucópia, de Solveig Nordlund: Viva a Cornucópia!

Rafael FonsecaMarço 27, 2026

Há um segmento neste documentário da Solveig Nordlund — antes do capítulo dedicado à arrumação dos cenários e do guarda-roupa e à desocupação do espaço que é hoje o TBA – Teatro do Bairro Alto — segmento pertencente aos últimos quinze dos quarenta e três anos de actividade do Teatro da Cornucópia, aqueles com produções e co-produções de maior escala, com maior autorização no panorama nacional, em que as imagens que estamos a ver a passar velozmente por nós, de espectáculos de anos que só podemos visitar através de excertos, são tão grandiosas, tão formidáveis, apontam para espectáculos tão artisticamente perfeitos, megalómanos sem mácula, que acredito com toda a facilidade e simplicidade que o Teatro da Cornucópia foi a mais incrível companhia de teatro do mundo, de sempre, do país e da História. Estou a falar das imagens das encenações de “O Colar” de Sophia de Mello Breyner, do “A Vida é Sonho” do Calderón de la Barca, do “Jeanne d’Arc au bûcher” de Arthur Honegger e Paul Claudel, com a Isabelle Huppert amarrada ao mastro e o Luís Miguel Cintra a olhar para ela, o gigantesco coro de negro e os populares de branco à sua volta, “Pílades” do Pasolini, “A Tragédia de Júlio César” do Shakespeare, “Miserere”, de Gil Vicente.

Luís Miguel Cintra diz, em voz-off: “Um reportório que parecia de um grande teatro institucional — gostámos muito de fazer espectáculos ambiciosos, com muitas pessoas e assim. Uma fase muito boa e fatal ao mesmo tempo. (…) No fundo, nós éramos a cara da actividade teatral. Mas chegámos a um ponto em que já não podíamos mais.”

 

Luís Miguel Cintra e Cristina Reis

 

Falar destas últimas produções em maior escala da Cornucópia, reparem, em nada tem de diferente do falar das restantes, em máteria de perfeição. Aliás, se este documentário de Nordlund, Memórias do Teatro da Cornucópia, nos mostra alguma coisa, é que a Cornucópia sempre foi perfeita, artisticamente perfeita, digo, no que toca à sua produção e do que dela fica registado, uma espécie de Camelot, verdadeiramente. Ora diz-nos o actor Augusto Figueiredo, por volta de 1976, ia a Cornucópia na sua infância(!): “Depois de uma longa caminhada de teatro, eu posso dizer francamente que foi o grande prémio da minha vida estar presentemente na Cornucópia. E neste momento particularmente, eu sinto-me absolutamente feliz. Primeiro porque estou a fazer Brecht, uma peça maravilhosa, num espectáculo com categoria em qualquer parte do mundo. E depois por me ver rodeado da coisa mais bela deste mundo, que é os jovens.”

 

da encenação de “O CASAMENTO DE FÍGARO ou A Louca Jornada” de Pierre Caron de Beaumarchais

 

Nordlund — ela própria presente nos inícios da Cornucópia, amiga dos dois fundadores — realiza então um filme, este, ao lado do montador Paulo Mil Homens, que é um folhear pela perfeição, a partir do arquivo extenso (uma série de armários de material transposto para DVD, diz-nos a realizadora, que passou algum tempo a visionar), ao mesmo tempo inerentemente incompleto (foram 127 criações ao longo da existência da companhia) filmado por Luís Santos, Luís Miguel Cintra, e pela cenógrafa e figurinista Cristina Reis, entre outros (filmagens de José Álvaro Morais estão presentes), juntamente com material já existente de entrevistas a Jorge Silva Melo ou a Luís Miguel Cintra que, recorda Nordlund, foi entrevistado constantemente ao longo da sua carreira (e foram obtidas as suas opiniões sobre tudo). Cristina Reis explica, na sessão especial de ontem no Cinema Ideal: era complicado um registo, por exemplo, integral dos espectáculos. Era preciso dias sem haver público, era preciso ter tempo, chamar pessoas que o soubessem fazer, muitas vezes já se estava a avançar para a próxima coisa — era como Luís Miguel Cintra gostava também de sentir o trabalho: “(…) era para mim uma alegria desmanchar o cenário, acabar com o que já estava feito porque se ia abrir um espaço novo para coisas diferentes, para um novo espetáculo.”

 

da encenação de “O Labirinto de Creta” de António José da Silva

 

O que há — incríveis fotografias de cena, handycams de bastidores, adaptações à televisão como E não se Pode Exterminá-lo? (1979), realizado pela própria Nordlund e por Jorge Silva Melo — é o possível, e já uma sorte extraordinária de material. Um filme com base em arquivo tão fabuloso, com o cuidado tido por quem ama esse arquivo, fabuloso não pode deixar de ser.

E quão maravilhosas as coisas que vemos ou recordamos aqui. O trabalho de cenografia da Cristina Reis é uma coisa como nunca vi. E desses cenários habitados por estas encenações e por estes actores incríveis, vive naturalmente algo ímpar. Dos visionamentos deste filme guardarei, por exemplo “A Missão”, de Heiner Müller, as duas encenações diferentes da Cornucópia, uma em 1983 e outra em 1992, e cujas semelhanças e diferenças são tão cativantes de compreender. A encenação de outro Müller no Liceu Camões em 1999, em sessões que “não deixavam os professores assistir”. Aquelas belas sequências de “O Casamento de Fígaro” de Beaumarchais em que a Cristina mostra o biombo em miniatura e o vemos depois gigante no teatro, a cena entre os dois noivos, ele a medir o tamanho da sala; os cenários nos Gil Vicentes e o Luís Miguel Cintra a falar sobre as peças de Gil Vicente, “no fundo, festas de corte”; e aqueles primeiros cenários, da tragédia chinesa “Ah Kiu” ou de “Casimiro e Carolina”. Trata-se de um “trabalho do espaço”. A sala do Teatro da Cornucópia era “cada vez mais um atelier” de Cristina Reis. No primeiro trecho do filme, com a Cornucópia a todo o vapor, ela explica-nos: 

“O conceito foi sempre: a sala é um buraco preto, é um espaço, um vazio. E esse vazio é preenchido a cada vez”. Esta atitude absolutamente moderna estava, evidentemente, presente nos três criadores responsáveis pelo Teatro. Numa entrevista da época, Jorge Silva Melo posiciona o grupo como “fartos de teatro. Fartos de coisas fingidas, fartos de cenários pintados, actores a fingir, e mesmo fartos de projectores a incidir sobre a cena criando luzes. (…) Vamos levar a peça à cena não fazendo teatro, fazendo o menos teatro que pudermos fazer.”

 

 

O que acontece a este “buraco preto” depois do fim? Ou o que fazemos em Portugal depois do fim da Cornucópia? Sofia Marques tem trabalhado o tema no cinema, no seu filme Ilusão (2014), recentemente disponibilizado na RTP Palco, como no superlativo Verdade ou Consequência? (2023). Creio que tem sido uma questão pertinente durante os últimos dez anos, e continuará a ser. Não escondo a minha pena pessoal por ter chegado a Lisboa aos dezassete para estudar mas sem consciência de que decorriam as últimas encenações da companhia, sem saber que encerrava no dia 17 de Dezembro de 2016 com leituras de Apollinaire e que em Novembro de 2017 o espaço era entregue ao Ministério da Cultura já sem nada lá dentro.

Tenho feito o meu melhor com o tempo que partilhamos — por volta dessa altura vi em cinema as sete horas de O Sapato de Cetim (1985) de Manoel de Oliveira, protagonizadas por Cintra, filme que tanta influência teria em mim. De resto, consegui ver a última encenação de Jorge Silva Melo com os Artistas Unidos, e já gritei aos ouvidos de pessoas em discotecas (por causa do barulho) a falar sobre Ninguém Duas Vezes (1984), talvez o melhor filme português, ou Coitado do Jorge (1993), talvez o mais lúcido. E ainda assim, como é que fazemos em relação à falta que nos deixa a Cornucópia? Recordando esta altura há dez anos, Luís Miguel Cintra diz-nos no filme que, para a Cristina, o fecho significava “matar a vida dela toda”. Eram mais de quarenta anos de actividade no mesmo sítio. Para ele, claro, não seria diferente: “A Cornucópia começou de uma forma privada, quase, como uma festa de amigos. E acabou não foi com uma festa, foi com um funeral. Uma coisa que nos custou muito a fazer, que foi enterrar aquilo que estava naquela sala. (…) E eu tive a noção de que tinha perdido a minha vida toda naquele sítio.”

 

da encenação de Hamlet, de William Shakespeare;

 

As razões deste fim eram as da saúde mas também as das condições dadas pelas entidades. É importante ler as comunicações da altura, ou a entrevista ao Observador no final de 2016, onde Cintra diz: “A Cornucópia vai fechar porque não há dinheiro para sermos a Cornucópia.” “(…) como a maioria da classe deixou de acreditar na capacidade de lutar contra qualquer coisa, não se sente um movimento de estrangulamento na maior parte das pessoas. Ou pelo menos não é expresso. Parece que estaríamos sozinhos a lutar contra uma coisa que os outros aceitaram como possível, e que é possível. Já ninguém se importa de fazer um espetáculo que depois é representado três dias. Eu ficaria moribundo. Depois dizem que as casas estão cheias, pois estão, são três dias de espetáculo.” — esta situação, sabemos, é o que vemos hoje no teatro em Portugal, como tem sido nos últimos anos. Recordemos que “Casimiro e Carolina” esteve sete meses em cena — isto diz-nos Solveig Nordlund, na nossa conversa sobre o filme: “Não se Paga! Não se Paga!” esteve dez meses em cena.

 

Jorge Silva Melo, Cristina Reis, Luís Miguel Cintra;

 

E dez anos depois do fim da Cornucópia, no palco do Cinema Ideal ontem à noite, Cristina Reis fala do quanto tudo o que vimos recordado se esboroa com o tempo, mas da alegria que a reconforta ao ver o filme, algo que lhe diz que sim, que foi bem o que fizeram. Sobre o mesmo Tempo, Cintra diz: “Agora sei que as minhas memórias são como a das galinhas, avulsas, sobrepostas, fragmentadas. Lembro-me quase só do que não fica numa lista de dados e de datas. Lembro-me do que vivi, não me lembro do que fiz. Ficou a fazer parte da minha pessoa, e só eu, se conseguisse, saberia dar forma a esses farrapos da consciência.”

O Teatro da Cornucópia, diz-nos Nordlund, é uma coisa que já não volta. São coisas que hoje em dia não acontecem. Assim é. Hoje, no Dia Mundial do Teatro, só temos de lhe agradecer por nos ter mostrado estas Memórias. E viva Luís Miguel Cintra, viva Cristina Reis, viva Jorge Silva Melo e viva o Teatro da Cornucópia.

 

Rafael Fonseca