MDOC – Cineférias no Festival Internacional de Documentário de Melgaço

Rafael FonsecaAgosto 14, 2025

“Preferes férias na praia ou na montanha”? Lembram-se desta pergunta de personalidade, restritiva sem explicação? Desconhecendo a origem da mesma, sempre optei pela segunda opção, que talvez se tenha revelado profética, dada a quantidade de vezes que o cinema já me levou a montanhas, face às poucas vezes que me levou à praia. Para as férias deste Verão, o plano era o de alguns dias passados naquele que é o concelho mais a Norte de Portugal, Melgaço, para o MDOC – Festival Internacional de Documentário, que teve este ano a sua 11º Edição. Passámos uma véspera no Porto entre tribunos, onde vimos O Sul (1983) de Victor Erice, no Cinema Trindade, e segui depois para Nine, Valença e Melgaço finalmente, agradecendo à organização do festival o transporte neste último troço.

Porquê o concelho de Melgaço? Para quem não conhece o sítio nem o festival — incluía-me nesse grupo — o local pode parecer arbitrário. Há, pelo contrário, uma ligação fundamental. Melgaço é uma das três localidades de Portugal com um Museu do Cinema (as outras duas são Lisboa e Leiria), e este, o Museu de Cinema Jean-Loup Passek, é talvez o mais especial. Jean-Loup Passek, que fundou e dirigiu o Festival de Cinema de La Rochelle, desempenhou também cargos fundamentais no Festival de Cannes e no Centre Georges Pompidou. Formou, nos anos 70, uma profunda amizade com operários portugueses que estavam emigrados nos arredores de Paris, naturais do Concelho de Melgaço, e desenvolveu-se uma relação duradoura, tanto com os amigos como com Portugal e com esse concelho, relações practicamente indissociáveis da sua pessoa a partir daí. Foi Passek que organizou em França as primeiras homenagens a vários cineastas portugueses. Foi em Melgaço, onde teve casa e passou muito tempo da sua vida, que deixou a sua colecção de posters, de objectos históricos, memorabílias tanto pessoais como pertencentes a uma história colectiva.

Populares de Melgaço no Museu Jean-Loup Passek em O Homem do Cinema (2025) de José Vieira

O Homem do Cinema (2025), longa-metragem documental de José Vieira, sobre a vida e legado de Passek, é precisamente a sessão que encerra o festival, no passado Domingo dia 3 de Agosto. Filme recentíssimo (teve a sua estreia mundial, e com grande carga simbólica, o mês passado em La Rochelle), é um testemunho belo dos périplos de Passek, de Melgaço passado e presente, e do Museu. Vimo-lo ao ar livre, junto à Torre de Menagem. Quando o mesmo local onde estamos sentados aparece no filme, tomei particular nota humorística de esta ser das raras sessões na vida onde é possível um mise en abyme orgânico. Houve fogos de artifício no final — julgo que não foi uma coincidência, mas o ambiente estava sempre tão bom por Melgaço, com constantes convívios, que podia perfeitamente tratar-se de uma outra festa algures.

Sessão de Encerramento do festival, ao ar livre. Créditos: MDOC

Importa explicar a forma do festival: o centro nevrálgico localiza-se na Casa da Cultura, a poucos passos do Intermarché (detalhe importante para quem cá passou uns dias). Aqui está o auditório, onde a maioria dos filmes são exibidos, a biblioteca, usada pela equipa e por visitantes de igual forma, o bar, onde se pode pedir tanto vinho Alvarinho como Água de Melgaço, ambas bebidas endémicas à região; e a welcome desk. Não há practicamente superfície intocada pelo festival, no bom sentido. A parede junto ao bar é coberta gradualmente ao longo da semana com polaroids dos visitantes, à medida que a fotógrafa os apanha entre sessões ou em momentos de lazer. Um dos corredores principais é ocupado pelos resultados das Residências Fotográficas da edição anterior, ocasião que se repetiu, em conjunto com as Residências Cinematográficas, notáveis iniciativas dirigidas a recém-formados em Fotografia ou Cinema, com a atribuição de bolsas para permanências numa temporada de criação durante o festival. Até a Livraria Linha de Sombra, que estamos habituados a encontrar na Cinemateca, se desloca para Melgaço durante a semana do festival, duplicando-se da sede em formato pop-up e “montando a tenda” em frente ao auditório.

Entrada da Casa da Cultura de Melgaço. Créditos: MDOC

É na sala do auditório que decorre o maior volume de actividade do festival. Para além das suas portas, cerca de trinta filmes, longas e curtas-metragens, compuseram o programa competitivo. Existiram três prémios, todos com uma história de associativismo e de cinefilia por detrás, atribuições muito honrosas e com jurados de grande qualidade. Houve o prémio D. Quixote, pertencente à Federação Internacional de Cineclubes, que contou com o português Manuel Mozos no painel; o prémio FIPRESCI, da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica; finalmente, o monetário e mais reputado Prémio Jean-Loup Passek, com mais um júri de luxo, que incluiu os portugueses Renata Ferraz e Paulo Portugal.

No auditório da Casa da Cultura. Créditos: MDOC

O Mundo em Melgaço era o slogan do festival, e a programação fez jus à premissa: não faltou canto do mundo por representar. Não se podia deixar de notar a quantidade de ‘filmes de guerra’ no conjunto. Infelizmente, é natural que assim seja num festival de documentário, este ano mais ainda do que noutros. Neste âmbito, destaco em particular Mr. Nobody Against Putin (2025).

O filme, co-realizado por Pavel Talankin, acompanha o próprio, que foi até há pouco tempo professor numa escola na cidade russa de Karabash, “a cidade mais poluída do mundo”. Ocupava também a função de videógrafo dos eventos da escola. Depois de Vladimir Putin invadir a Ucrânia, Talankin compreendeu a posição única, hiper-privilegiada em que se encontrava. Num país onde não existe jornalismo independente, explica ao The Observer, outro indivíduo que estivesse a filmar assim o dia-a-dia na escola seria imediatamente detido. Enquanto conseguisse ser suficientemente discreto, mantinha-se sob a alçada da sua profissão. Somos então testemunhas da máquina de propaganda maciça que entra quase instantaneamente em efeito: a atenção aos conteúdos programáticos normais é deixada de lado — os alunos começam a ter sessões diárias de marcha, de canto do hino, perguntas e respostas sobre a guerra (onde tanto alunos como professores partem de um guião, para entregarem às autoridades provas exemplares de cumprimento das tarefas).

Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein & Pavel Talankin

Numa das cenas mais chocantes do filme, membros do Grupo Wagner apresentam-se na escola, simpáticos e casuais, para ensinar às crianças procedimentos de segurança com capacetes e minas, organizando também uma competição de lançamento de granadas — desactivadas, claro. O efeito brutal da propaganda dá para o riso em alguns momentos (o filme, notavelmente, consegue localizar boa-disposição); a certa altura, assistimos a um concurso municipal para o “professor mais apreciado”, cujo prémio é um apartamento de luxo. É galardoado, evidentemente, o maior true believer do corpo docente. Noutros momentos, o efeito é devastador: várias vezes assistimos a ‘festas de despedida’ para jovens adultos que vão para a linha da frente, e só no curto tempo do documentário vemos já campas cobertas de flores. Um comandante exclama: “Nenhum de vocês voltará vivo. Mas deixarão flores nas vossas campas para toda a eternidade.” Putin afirma, num discurso televisionado, que são os professores que ganham guerras, não os comandantes.

Mr. Nobody Against Putin (2025) de David Borenstein & Pavel Talankin

Talankin consegue sair da Rússia, com a ajuda de pessoas que contactou em relação ao filme que estava a fazer. Vendo o resultado, ficamos a pensar também na segurança da família e amigos que lá deixou. Na mesma entrevista ao The Observer conta que tem recebido bastantes ameaças, voicemails. Mas uma mensagem de apoio, também. Considera importante que mais pessoas na Rússia vejam o filme.

Orlando Pantera (2025), de Catarina Alves Costa, longa-metragem que também esteve presente no IndieLisboa este ano, foi outro favorito nosso, documentário tocante sobre a figura epónima, leve e cheio de apreço por ela. Importante músico cabo-verdiano, Orlando Pantera faleceu na véspera de iniciar a gravação do seu primeiro álbum, aos trinta e três anos. É uma tragédia pungente — além das razões óbvias, também porque mesmo sem qualquer material gravado Pantera era já um artista absolutamente ímpar na música cabo-verdiana. A sua música continua hoje viva no trabalho de múltiplos artistas, como é o caso de Mayra Andrade ou de Lura (foi Orlando Pantera quem escreveu a música Na Ri Na, que é das que hoje em dia mais conhecemos do país).

Orlando Pantera (2025) de Catarina Alves Costa

Um terceiro destaque para Hacking Hate (2024) de Simon Klose, filme que acompanha a jornalista sueca My Vingren, conhecida pelas suas investigações minuciosas das actividades da extrema-direita, num processo longo de integração na esfera criptofascista sueca. Desemboca inevitavelmente numa clareira internacional com as ligações russas e americanas que conhecemos, e com as ligações sistémicas, basilares que conhecemos. Como aponta no filme: “existe a ideia de que a extrema-direita tem jeito para as redes sociais, mas talvez sejam as redes sociais que têm jeito para a extrema-direita”.

Hacking Hate (2024) de Simon Klose

Existiram belos programas fora de competição: a rubrica X-Ray Doc, de uma grande qualidade programática, faz “a análise de filmes cuja importância seja indiscutível para uma História do Documentário na qual se releva, como elemento estruturante, a relação com o outro, em contexto”. O casal escolhido para este ano foi o de Lettre de Sibérie (1957), de Chris Marker, com …A Valparaíso (1963) de Joris Ivens; com apresentação do doutorado em Ciências da Comunicação, especialista em Cinema Documental e professor Jorge Campos, que considera os dois filmes fundamentais na obra de cada um dos cineastas. As imagens da Sibéria no filme de Marker são estonteantes. O urso agrilhoado, o expresso transiberiano, a tundra e os povos iacutos. Não fazia ideia que existia um filme maravilhoso assim. Como alguém diz no Letterboxd, dá para sentir o mundo abrir-se na frente dos olhos e para lá do ecrã. Tive a felicidade de adormecer nesta sessão: sou obrigado a concordar cada vez mais com Apichatpong Weerasethakul neste assunto: é mágico dormir num filme. De …A Valparaíso só me lembro de escadas exteriores, água algures, papagaios de papel a voar por cima da cidade chilena.

Lettre de Sibérie (1957) de Chris Marker

Noutros dias, o festival integrou na programação visitas, mini-excursões e exibições de filmes em diferentes freguesias do Município. Foi o caso da viagem de grupo a Castro Laboreiro, à sua cascata e ao seu núcleo museológico, onde aprendemos sobre a tradição nómada local, em extinção, da mudança sazonal das gentes da terra entre as brandas (pequenas povoações elevadas e soalheiras) e as inverneiras (povoações abrigadas nos vales) por parte de famílias inteiras, para se protegerem das intempéries e de acordo com o calendário religioso. Foi também o caso da exibição de Melgaço – Biodiversidade e Valores Naturais (2022) de Miguel Arieira, fabuloso documentário de vida selvagem que, pelo que percebi, consegue o feito de filmar todas as espécies principais de fauna e flora do Concelho, e a que assistimos numa sessão ao ar livre na freguesia de Paderne.

Passeio em Castro Laboreiro
Exibição de Melgaço – Biodiversidade e Valores Naturais (2022) em Paderne. Créditos: MDOC

Ao lado da Casa da Cultura fica a Escola Secundária. Além de ser o local de refeições, deu também espaço a várias iniciativas. Percebi quando cheguei a Melgaço que decorria uma Oficina de Cinema de quatro dias com Margarida Cardoso. Perguntei-lhe no último dia se podia assistir, e houve ainda a oportunidade de a ouvir falar em detalhe sobre Banzo (2024) e de assistir a algumas apresentações prácticas dos alunos, que deveriam reunir uma gravação sonora, uma filmagem e uma sinopse, com vista a constituir a premissa de um documentário hipotético.

A realizadora Margarida Cardoso e os alunos da sua oficina de cinema “Perdidos e Achados”. Créditos: MDOC

Na elaboração de ‘reportagens de procedimentos’ como é o caso deste texto, quando começo ainda no local a indagar-me sobre a escrita, dou por mim à espera, por vezes vários dias, por um episódio que desencadeie um possível início, um vértice que ‘ilumine’ o resto do texto e que evidencie um itinerário de sentido. É curioso então que esta parte tenha afinal ficado só para o final da página. Foi o meu trabalho favorito: o projecto antropológico Quem somos os que aqui estamos? de Álvaro Domingues e Daniel Maciel, com orientação e acompanhamento científico de Albertino Gonçalves, que incidiu na freguesia de Alvaredo e que se pôde ver numa exposição de fotografias de álbuns familiares e arquivo doméstico.

A exposição foi inaugurada nessa mesma tarde que nos levaram lá: deu para estar presente a ver as fotografias juntamente com algumas das pessoas que estavam nelas. Sem qualquer outra nota na folha de sala sem ser a identificação das pessoas, locais e possíveis datas das fotografias, é permitido ao arquivo que fale por si mesmo, que sobressaia. A curadoria da exposição é muito potente: não há entropia ou distração, como haveria se a informação dada fosse em demasia. É o poder da fotografia familiar em monólito. No ano em que vivemos, já se perdeu “a capacidade de fazer coincidir sociedade e território. Faz sentido, por isso, questionar quem somos os que aqui estamos”, como elucida a descrição do projecto. Existiram duas edições anteriores, que resultaram em livros sobre o trabalho realizado, disponíveis em PDF aqui nas Edições da Associação Ao Norte — o livro deste ano, sobre Alvaredo, deverá ser adicionado em breve.

Inauguração da Exposição “Quem somos os que aqui estamos?” Créditos: MDOC

Aqui, na Tribuna, terminamos sempre os textos a dizer que voltamos para o ano — não se pode dizê-lo sempre sem constatar a repetição. Em todos os casos, porém, e aqui mais uma vez, é sincero. É evidente a qualidade da programação e da produção do festival MDOC, que este texto testemunha. Serão datas para fechar no calendário do nosso próximo ano. Escapando-nos dos festivais de música na praia, escolhemos sempre os de cinema na montanha.

Rafael Fonseca