Depois de dois documentários que captam realidades fora de Portugal (“Complexo – Universo Paralelo”, em 2010; “I Love Kuduro”, em 2013), o realizador Mário Patrocínio sentiu necessidade de filmar e falar do seu país. O resultado é a ficção Maria Vitória.
A vontade de escrever uma história começou a ganhar expressão quando, em 2018, perdeu a mãe. Esse momento na vida pessoal de Mário Patrocínio desencadeou a vontade de abordar o luto de uma forma mais profunda e refletir sobre o luto coletivo, que parece pairar em algumas regiões de Portugal. Foi assim que chegou à história de Maria Vitória, a primeira ficção do realizador, passada numa aldeia na paisagem de montanha da serra da Estrela – “achava que era importante para mim, enquanto autor, ir à dor mais profunda, que é falarmos sobre o nosso próprio país e sobre nós próprios (…) havia essa região, essa vontade, havia o tema da família, mas não havia profundidade”. Escrever o argumento de Maria Vitória foi o exercício decisivo para aprofundar e maturar ideias que o realizador já alimentava há algum tempo. O momento pessoal da morte da mãe deu-lhe as ferramentas emocionais que faltavam para explorar mais profundamente a questão do luto, da família, mas também da resistência das regiões do interior, do crescimento, do abandono ou dos sonhos da juventude fora de um centro urbano.

Maria Vitória, interpretada pela atriz Mariana Cardoso, é uma jovem que treina afincadamente para ser guarda-redes profissional de futebol. Todos os minutos disponíveis para além da escola são dedicados ao treino, supervisionado pelo pai (Miguel Borges), que parece não ter conseguido ultrapassar a morte da mulher e mãe de Maria Vitória. A personagem que dá nome ao filme é uma jovem focada num objetivo, mas é também alguém que parece viver em modo automático, que “está a ser governada por outros”, diz Mariana Cardoso, que trabalhou o papel com menos informação do que imaginava mas, olhando para trás, admite que o processo fez todo o sentido, “porque esta era uma pessoa que realmente não sabia quem era”. Maria Vitória está a tentar perceber qual o seu caminho, e se o sonho de ser guarda-redes profissional de futebol é seu, ou se é apenas para contentamento do pai. O dilema interior da jovem assume contornos mais evidentes com a chegada do irmão mais velho, que há vários anos deixou a família. O filme irá desvendar porquê.
Mariana Cardoso – uma atriz que sabe trabalhar no duro
Foi atleta de competição no trampolim e, por isso, sabe o que significa o foco de um desportista e a disciplina de treino necessária para a competição. Mariana é também filha de um treinador de futebol e está familiarizada com o universo do desporto. A jovem atriz, agora com 23 anos, é a protagonista do filme, com uma personagem que tenta vingar num contexto masculino, como é o caso do futebol. O processo para descobrir Maria Vitória foi um desafio diferente — “menos psicológico”. Mariana admite ter o hábito de “tentar descobrir as respostas de forma racional”, mas no caso de Maria Vitória, o processo passou pelo campo de futebol, para “descobrir a fisicalidade da personagem”. Encontrar as respostas no relvado foi o ponto de partida para construir a personagem, num processo em que contou com a orientação de Sara, treinadora de sub-17 e sub-19 do Estoril Praia. E que tal o treino? Mariana desabafa que é muito, muito, muito duro!

A dor coletiva
A história da jovem guarda-redes desenvolve-se num meio rural numa paisagem de montanha com um acontecimento trágico em pano de fundo, que resultou na morte da mãe. A família em luto e os sonhos da rapariga são alguns dos temas trabalhados no argumento. Mas Mário Patrocínio quis também falar das frustrações da juventude, de lugares que parecem parados no tempo, de pequenas comunidades que vão resistindo às grandes tragédias. “Gosto de navegar em águas profundas, acho que todos os temas que decidi agarrar, de alguma forma tive de os tentar compreender e para isso fui escutar o mundo à minha volta”. Depois há a dor coletiva, que o realizador diz ter sentido naquela região – “parece-me claro que Portugal tem muito isso, parece que há sempre alguma dor coletiva, sobre a qual é difícil falar, muitas vezes é difícil ultrapassar na solidão e é algo que temos que fazer em conjunto”.
Crítica ao filme
Maria Vitória é a primeira longa-metragem de ficção do realizador Mário Patrocínio e a primeira aventura de Mariana Cardoso como protagonista de um filme. Os dois, passam o teste com uma história que revela as dores e os sonhos de um país pouco visto no cinema.
A jovem Maria Vitória dedica-se por inteiro ao treino para ser guarda-redes profissional de futebol, numa altura em que, devido à idade, vai deixar de poder jogar na equipa dos rapazes e terá de rumar à cidade. Maria Vitória é treinada pelo pai (Miguel Borges), e os dois alimentam o sonho de que ela possa sair da aldeia para se tornar jogadora num clube grande. O filme de Mário Patrocínio retrata esta jovem nesse momento de viragem, que desencadeia um dilema interior. Será que o sonho é dela ou será que a rapariga está apenas a cumprir os desejos do pai, um viúvo que desistiu de ter vida própria?
Mário Patrocínio constrói um drama familiar que se alarga ao contexto em que a história se desenrola, a pequena aldeia na serra, que vive o luto coletivo das tragédias dos incêndios, que vitimaram a mãe de Maria Vitória. Há uma única cena inicial que nos remete para essa tragédia que, afinal de contas, atravessa toda a história e as personagens que não se libertam desse passado.
O filme capta a dureza do treino da jovem e revela-nos uma atriz de corpo inteiro. Mariana Cardoso aguenta bem a fisicalidade da personagem, mas também a introspeção que exige nesta história em que os jovens parecem muitas vezes alienados do lugar onde estão e entorpecidos até conseguirem sair dali. Quanto aos adultos, parecem viver como podem as frustrações de sonhos que ficaram por cumprir.
Para lá da história de uma jovem que está à procura do seu caminho, Maria Vitória é um filme que retrata um país que existe entre a ruralidade e a modernidade. O realizador Mário Patrocínio consegue abordar o dilema interior, mas também o drama coletivo, mas nem sempre consegue dar-lhes profundidade. Maria Vitória tem ambição em ser mais do que a história de uma rapariga que queria ser guarda-redes, mas nem sempre consegue ser bem-sucedido. No entanto, Mário Patrocínio traz para o panorama do cinema português uma nova possibilidade, com um olhar sobre o país que está na sombra do postal turístico, num drama com alguma complexidade, porém acessível e capaz de interessar um público mais alargado.
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