Nas suas aulas, Beethoven tolerava que os alunos falhassem uma ou outra nota, até permitia alguns erros técnicos, o que não suportava era que não entendessem a frase, a dinâmica exigida pela peça. Por outra palavras, um bom intérprete tem de perceber a expressão requerida a cada momento e com isso a estrutura da obra. O cinema de Syberberg está repleto de crescendos. A articulação do cenário, dos atores e da música numa conjugação de ideias feita constelação ou galáxia que trespassa o plano geral na origem da cena. Trata-se de uma montagem de referências, de decalques e de visões a estabelecer uma série de ideias que nos convidam a rever a cena. O clímax narrativo (se assim o podemos chamar) vis-à-vis o poético e, no final, o segundo foi sempre o primeiro tema.

No final da primeira parte do filme, assim que percebe o fim iminente da monarquia bávara, Ludwig acerca-se de Otto, seu irmão e sucessor declarado mentalmente incapaz, afasta os serviçais e de braço dado para uma última saída vem na direção da câmara. Mais que o crepúsculo, a música da Descida a Nibelheim que se ouve atesta a consciência dos perigos do porvir. Se Wagner propunha a descida dos deuses ao horror com o gradual desvanecer da melodia para a sobreposição da ordem de uma só nota – o metal a bater dos anões escravizados. Que fomos nós criar? Syberberg catapulta a troca de papéis debaixo de uma árvore, o rei passará a louco, o louco tornar-se-á rei. Vivo em vão enquanto Otto chupa morangos.
Os três, Wagner, Syberberg e Ludwig em torno da simultânea insignificância da consciência perante o poder e do choque com a realidade que o poder libertou. Os deuses de Wagner reagiam com troça e desdém pela fábrica e pela escravatura, alicerces do poder de Alberich, um anão frustrado. Não há pelo deus-pai Wotan qualquer comoção ou sentimento de angústia face ao espetáculo triste e anões acorrentados, antes um profundo nojo por toda a paisagem. Do outro lado do espelho, o Ludwig de Syberberg. Ciente do seu plano etéreo e acarinhado pelos plebeus, numa recriação sonhadora, num plano maravilhoso onde se justapõe a canção popular à volta da fogueira com a iluminação artificial cerceando a sua figura, Ludwig reconhece a impossibilidade da elevação divina. É um deus pronto para a sua imolação. É o anti-Wotan, em vez de grão-manipulador é alvo de todas as conspirações.
Syberberg não se limita a aproximar a alegria popular pelo seu rei de contos de fadas com a manifestação do génio wagneriano (passagens de Lohengrin e Tristão e Isolda). Obcecado pela arte como reduto final da existência numa terra sem deuses (Nietzsche a pairar), Ludwig é tantas vezes enquadrado a abraçar o inalcançável ao som de Wagner por boa razão. Como a tartaruga que bate Aquiles, a Verdade chegará sempre antes da Arte. Logo, na segunda parte do filme os planos tornam-se cada vez mais alucinatórios. Tendo a Arte a batalha perdida – o enredo dos conspiradores pelo trono é supérfluo – resta a resistência ainda que comatosa. Mulheres nuas a segurar tochas, a guilhotina que confirma a derrota, e, como coup de grâce, as projeções no fundo do cenário que antes exibiam florestas, castelos, montanhas e salas românticas têm agora imagens dos futuros turistas a visitar os últimos aposentos de Ludwig e Otto ao som de guias inócuos.
É recorrente este jogo acumulativo a funcionar como crescendo. Naturalmente, Syberberg ao prescindir da gramática cinematográfica norte-americana e apresentando-nos os seus longos planos gerais como construção estética deliberada força-nos a olhar, a olhar e olhar como outrora os grandes pintores. Wagner é o elevador cénico harmónico. Música das esferas? Diálogo que não exige responso.
A viagem de Ludwig II da Baviera que Syberberg apresenta assenta em testemunhos (fictícios e reais), recordações, confissões, declamações, canções e reflexões. Cada categoria dispõe de um espaço próprio. “O sink’ hernieder, Nacht der Liebe” de Tristão e Isolda é um travelling infinito pelas florestas alemãs. A memória de uma visita inesperada do rei a uma aldeia por um copo de água, primeiro num muito grande plano de quem era muito jovem na altura, depois a imagem do rei no trenó sempre constante como a neve na projeção de fundo. As frustrações de Ludwig prostrado no altar – Não consigo deixar de acompanhar a minha solidão – à medida que a abertura de Lohengrin acompanha os esforços por manter a lucidez dos comuns, loucura dos poetas.

A intensidade da imagem sem implicar saturação. O cinema de Syberberg não é literatura embora o resultado parta de uma intenção semelhante. Tomemos o episódio de Ludwig no trenó enquanto a velha em off fala do tal copo de água para sua majestade na sua visita à aldeia. Dois eixos que se cruzam na promessa da Noite. O relato da velha repleto de recursos estilísticos na descrição dos cavalos, do jovem rei e não só, balizando o tempo numa nuvem efémera, numa quimera tornada real pelo entusiasmo e amplificada pelo ensejo de se encontrar ali novamente através da recordação – para mim era um arcanjo. Já a imagem mostra simplesmente Ludwig lentamente a adormecer no trenó. Por modos diferentes, as duas partes encaminham-nos para a Noite, o habitat por excelência do Romântico. Sem música, a cena não perde o pendor wagneriano. Aliás, o desvanecer do mito do rei na imagem na neve e nas tão bem articuladas incansáveis palavras da velha pertence ao pensamento wagneriano, a desilusão do compositor com “o terrível erro da existência” apenas passível de rebate no plano da pureza, no plano do Ideal.

Mais arrebatador (novamente o crescendo) é o virar de página. Para fazer a transição entre cenas e longos planos gerais, Syberberg aposta numa espécie de recitativos curtos, pequenas cenas sem o protagonista em jeito de comentário humorístico. Como prova, logo após a transição por dissolve do Ludwig adormecido e antes do Ludwig atormentado ao som de Lohengrin, surge uma mulher a cantar uma canção em toada de cabaret. Mudança de cena, mudança de andamento também. Canta ela: Que os homens temam os deuses! Que aqueles por eles elevados temam duas vezes! A seguir à contemplação a descida, de resto o binómio que rege o filme.

Na impossibilidade de entender a razão de tal sina, a dúvida, que é mais que as brumas artificiais colocadas em cena, que se afirma monumentalmente. A dúvida é o furo na base da clepsidra que Syberberg pensou para montar o filme, para saltar entre mito e desejo. Noutra cena, uma atriz, porventura aquela a quem delegaram a tarefa de tirar a virgindade ao rei, acaba o seu monólogo a duvidar da existência de tal personagem, de tal Ludwig. Aqui, como noutras cenas, é evidente a influência de Kleist no realizador. Sobretudo se pensarmos na máxima com que culmina a peça “O Príncipe de Homburg” e que deu nome a outro filme de Syberberg. Ao abrir a sua venda de condenado, baralhado sobre como foi possível o salto entre a Morte e a Glória num instante, o príncipe de Homburg questiona-se e uma voz responde: “Ein Traum, was sonst” (Um sonho, o que podia ser?).
Outro rasgo no frágil equilíbrio entre cenas é o corte temporal assumido. Pense-se na reflexão do avô de Ludwig: Terá sido Goethe ou Brecht que comentou que a arte é a forma mais serena da existência. A necessidade de Syberberg em gerar um diálogo entre épocas está presente logo na abertura com o Vorspiel wagneriano cruzado, não interrompido, pelo inevitável “Ich bin die Fesche Lola” de Sternberg/Dietrich. O Ludwig do filme é Ludwig II de 1872 e de 1972.
Depois, as invetivas da Modernidade. O gabinete de Ludwig conspira pela deposição do monarca e surgem na montagem de som reticentes excertos de programas de rádio norte-americanos dos anos 30, uns de super-heróis, outros de vilões – “Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows!” “The Loner Ranger rides again!” “Up, up and away!” Syberberg não podia ser uma mera boa consciência, como poeta mira o alvo e faz pontaria ao caldeirão de referências. Estes bordões que jorram num ímpeto malandro, apontando para o kitsch, acentuam a violência da segunda parte do Requiem. Ludwig será o Rei Kitsch, toda a arte será kitsch, Wagner será o homem das gordas que gritam e dos capacetes vikings. E não será só o fascismo que recorrerá aos estereótipos quando modela no barro os seus slogans, também a plataforma democrática da sitcom aqui assenta as suas fundações. Em suma, o kitsch é imperativo para uma alienação coletiva mais eficaz.
Como agente estético do filme, Wagner não podia ser personagem nem deixar de o ser. Na sua vez, o realizador coloca uma mulher alta toda vestida de preto usando a boina do feiticeiro de Bayreuth. Anjo negro inofensivo lendo elogios no diário do compositor ao jovem monarca. A figura contrasta com o Wagner apresentado na biografia realizada por Visconti também em 1972. No filme do italiano, os factos históricos entregavam um Wagner genial é certo (a cena do Idílio de Siegfried) e também pouco mais que um traste face ao chorrilho de mentiras e dívidas que escondia. Para Syberberg, o verdadeiro trabalho do Requiem está na exegese do Romantismo.

Ao recriar o grande compositor como uma mulher ensimesmada no sucesso ou falhanço do Tristão e na candura do rei, sem qualquer propósito narrativo, plasma um enlevo feminino algures perdido no tempo. Não é o pessimismo de que o Romantismo foi o catalisador dos males alemães, assusta mais a fragilidade da identidade nacional que o movimento expôs.
Vejamos. “Poluição ambiental! Excedente produtivo! Crimes contra a natureza!” Syberberg faz o decalque cénico da abertura de Das Rheingold (O Ouro do Reno) para começar o filme. As ninfas do Reno em gargalhadas entusiastas proclamam o apocalipse que espera Ludwig e a Alemanha. A maldição nórdica, Götterdämmerung, é a maldição de Lola Montez, antiga amante de Ludwig I, que bolsou que não sobreviveriam herdeiros para o trono. Qual trono? Aquele na antecâmara das chamas de Valhala. Richard Wagner é o último profeta, Götterdämmerung aguarda-nos.

A paixão continua. Mesmo esperançosos na entrega a um estado de “pureza” final, algumas personagens vão falando com um brilho nos olhos sobre os errantes. A imperatriz Elizabeth (Sissi) fala de Sitting Bull, sobre como este não tinha chances face ao progresso da Cristandade e acabou vítima de um massacre. Ludwig coloca-se sempre contra o progresso, em parte porque considera que todos os progressistas acabam nas mãos dos próximos progressistas. O progresso é, pois, uma força que procura a mudança apenas como escada para o poder, e tal como o tempo o ergueu assim o envelhecerá e rejeitará. O conservador não é entendido como o antigo progressista que foi substituído pelo novo, para Ludwig sê-lo é um ato de rejeição da norma, de projeção da Arte, até de afirmação de loucura – vou construir um balão para ir aos Alpes, assim serei definitivamente considerado louco. Sissi responde: “também os palhaços de Shakespeare eram os únicos dotados de sensibilidade”.
Entre o kitsch do ícone Ludwig que chegou aos nossos tempos, o rei dos castelos e excessos wagnerianos, e o Ludwig furioso e sentimental de Syberberg vai a distância da perversão, da capa que o tempo usou para simplificar a figura. Se a isso chamamos a visão do progresso fica por responder. O Requiem não deve ser tido como uma martirização de Ludwig apesar de algumas imagens assim o mostrarem, será talvez um resgate de uma consciência.
A curta aparição de Karl May, o alemão que escrevia livros infantis passados no Velho Oeste e futuro vértice da obra de Syberberg, vestido como Lázaro pagão a tecer considerações sobre como o estudo de Wagner implicou a libertação de um terrível potencial no alemão, confirma o que desconfiávamos Wagner foi o Prometeu alemão. Syberberg não prescinde da hipérbole mitológica para acrescentar ainda mais camadas ao drama em movimento.
O grande problema encontra-se no renascimento por cumprir. O realizador cumprimenta os seus contemporâneos. “Só quando Niki de Saint Phalle, Jim Dine, Werner Schroeter, Magdalena Montezuma e Ernst Fuchs produzirem o Anel serei livre novamente” diz a atriz que interpreta Richard Wagner. Os espíritos precisam de descanso. Ludwig, o nosso Édipo doente, procura agora outra viagem livre de teatros, livre de récitas e julgamentos durante o Anel.
A assinatura de Syberberg no fim com o Ludwig de calções a cantar yodel, já depois do seu desaparecimento no lago, faz temer o pior. Não há viagem. Desistiu-se dela. Não ficámos pelo cruzamento, nem pelo rebate que o realizador propunha na pátria da dialética. Ludwig, Wagner e companhia vendem agora champô e bolos numa banca perto de si. Ein Traum, was sonst? Um pesadelo…
Ludwig, Requiem para um Rei Virgem é exibido esta sexta-feira, dia 2 de Outubro no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa.






