Livros Restantes, de Marcia Paraiso – Nostalgia sem Saudosismo

Paulo VenturaOutubro 1, 2026

Consciente da sua proposta, Livros Restantes assume-se simples – tanto na sua narrativa pouco climática como nas suas escolhas de realização conservadoras – e afasta-se do típico objetivo mercantil de entreter por entreter. Destaca-se, em vez disso, pelo seu olhar despretensioso e sincero, e pela sua vontade empática e emocionalmente honesta de representar encontros e despedidas, através de um conjunto de performances naturais e despojadas, fixadas no desenrolar de um guião discreto composto por breves momentos sociais e quotidianos. Uma construção que revela uma enorme coragem ao aceitar ser menos cinematográfica, mas mais humana.

Livros Restantes assenta então numa estética mais voltada para a entrega do que para o deslumbre, e opta por seguir uma forma que coloca no seu centro a interação e o diálogo dos seus intervenientes, acima do poder da sua imagem. À exceção de determinados planos reservados para os momentos mais poéticos e introspetivos do filme – que conseguem brilhar pela sua inventividade –, grande parte da construção visual da obra respeita uma certa contingência e simplicidade que, em vez de a mancharem com um tom de amadorismo, a revestem numa aura de humildade.

 

 

É de notar, no entanto, que, de forma quase contraintuitiva, Livros Restantes peca precisamente quando procura exaltar a sua expressividade e tornar mais intrigante a sua trama, sendo que o seu principal defeito acaba por ser o exagero nos seus pontuais momentos (supostamente) mais intensos. Neles, Marcia Paraiso pressiona a sua narrativa por caminhos mais apertados e nem sempre sucede em chegar vitoriosa ao outro lado. Contudo, talvez pelo excelente desempenho do seu elenco, talvez pela coerência até então obtida pela obra como um todo, o impacto da sua mensagem nunca chega a ser colocado em causa.

Longe de se prender ao que já foi ou de idealizar o que há por vir, Livros Restantes chega-nos como um relato nostálgico que nunca chega a cair no saudosismo, aproveitando-se da memória da sua protagonista como uma ponte para o presente. Com uma nuance equilibrada entre a nostalgia e a esperança, Livros Restantes consegue, em simultâneo, contemplar o passado e ansiar pelo futuro – quase que a olhar para trás e para a frente ao mesmo tempo – enquanto representa com delicadeza tanto o que está prestes a partir quanto o que fica para trás. Apesar do óbvio lugar central da personagem de Ana Catarina – interpretada com mestria e delicadeza por Denise Fraga – e da sua mudança para Portugal, o filme rapidamente revela uma enorme disposição para conectar o espectador ao alargado conjunto de personagens e lugares que marcaram (e continuam a marcar) a vida da protagonista. A viagem para Portugal – o anunciado destino desta história – acaba então por funcionar mais como um catalisador de reencontros e de experiências do que como um objetivo diegético a cumprir, dando-nos a possibilidade de nos conectarmos a este universo tão pessoal e íntimo, através da retrospetiva de uma vida, e não propriamente da progressão gradual e esquematizada de um enredo ascendente.

Assim, Livros Restantes usa a despedida da sua protagonista como uma tela onde pinta uma comunidade; um lugar; um núcleo, por vezes esperançoso, por vezes nostálgico, mas acima de tudo, humano, onde se depositam memórias, desejos e identidades que nos são cautelosamente entregues com carinho e brio.