Les Plages d´Agnès (2008), de Agnès Varda – Cinema de Maresia

Laura MendesAgosto 12, 2026

Em praias anónimas transformadas em cenários, uma cineasta vem dar à costa: Agnès Varda ocupa o lugar onde o mar se dá a conhecer, dando-se ela também a conhecer aos seus espectadores, expondo objetos, família, dores e lembranças, num trabalho cinematográfico (e fotográfico) de encantamento do mundo e de si. Praias feitas filmes, é sobretudo com a imagem dos vários espelhos que dispõe na paisagem que ficamos; espelhos que refletem – distorcendo e deformando, como não podia deixar de ser quando falamos de uma imaginação documental como é esta – as suas marés altas e baixas, os seus olhares-lugares, mas também as ondas dos outros, as espécies que neles habitam.

 

 

Les Plages d´Agnès é um filme de descoberta: nossa, que nos deparamos com a multiplicidade de uma artista em aberto, desvelada, ainda repleta de coisas por dizer e cuja inesgotável energia surpreende e provoca; bem como da própria Varda, que parte numa viagem de retrospetiva, onde se recorda de si própria, dos seus feitos e de todos aqueles com quem se cruzou, de olhar atento mas castiço, um exercício sério mascarado de brincadeira ternurenta.

Partimos de uma infância da qual se afasta, ancestralidade grega desconhecida, neutralidade face a uma nostalgia desnecessária, passamos por uma juventude entre barcos e a descoberta da fotografia, até chegarmos às aventuras do cinema. O que mais parece interessar a Varda são os caminhos inversamente percorridos – manifestos nos seus recorrentes movimentos, quais passos de dança, de recuo –, a capacidade de reinvenção e permuta entre passado e presente, através de revisitações dos lugares que habitou, dos gestos que realizou, das conversas que teve com vizinhos ou conhecidos circunstanciais. Papel importantíssimo também para as peripécias materiais, numa abordagem que privilegia a mundanidade, a necessidade física, vulgaridade transformada em fantasia.  É nas reconstruções teatrais, nas imagens projetadas de alguns momentos desta vida – sejam elas manobras automóveis ou um escritório balnear em plena Paris – que consegue encontrar a reconciliação entre o íntimo e o público, a memória e a partilha, com o cinema a funcionar enquanto mediador, complexo e nunca esclarecedor, ligação imprescindível para a análise de uma vida dele feita.

 

 

O desabafo, a saudade, a política, as vivências numa América de personalidades – com curiosos encontros com Jim Morrison e Harrison Ford – não se reduzem a relato, abrem antes espaço para a conversa em torno da sua filmografia, da experimentação que sempre levou a cabo. A sua é uma obra que parte de experiência vivida, do diálogo com o outro, e neste filme percebemos onde, mesmo dentro da ficção, se encontra o ponto de encontro com a realidade. Estas construções imaginadas – e falamos de Les Plages d´Agnès como compêndio, obra-mãe para compreendermos todo o seu cinema – fazem-se mais a partir de instintos e de uma imensa necessidade de compreensão dos movimentos do mundo, do que de uma técnica estruturada e planeada ao longo do tempo, como se acompanhasse um compasso natural, atenta às emergências de um mundo em ebulição.

A luta feminista, os borbulhantes movimentos de rotura que captou em Cuba e nos Estados Unidos, são todos parte de um olhar atento e preocupado com a sociedade, com a defesa das causas da mudança, disruptoras, questionadoras. Não deixa de existir uma animalidade presente nas visões de Varda, uma impulsividade e impetuosidade que tornam este filme – e todos os outros –, acima de tudo, documentos em torno de pessoas, da humanidade que o cinema ainda pode preservar, bem como a sua estreita relação com a brutalidade da vida, das emoções. Um filme do olhar para trás, é inevitável demorar-se na morte, nas recordações que apenas moram na interioridade,  no que já foi e na mágoa do porvir. Descobrimos, em tom confessional, os segredos da relação com o seu parceiro e colega de trabalho Jacques Demy: um dos momentos mais significativos para percebermos que a separação entre arte e artista parece aqui incompatível, dada a profunda força pessoal que move a sua criação.

Impressionante não apenas pelas histórias que conta, mas pela inventividade com que aborda o género documental, Les Plages d´Agnès confirma a mestria de uma cineasta que sempre soube brincar com a possibilidade, a curiosidade, a perpetuidade da vida e do cinema.

 

 

Les Plages d’Agnés encontra-se em exibição no Cinema Trindade, como parte da retrospectiva “Ao Sol da Nouvelle Vague – Agnés Varda“.

 

Laura Mendes