No cinema de Ernst Lubitsch, a sociedade (a alta) é uma farsa, mas é nela que o realizador encontra o objecto ideal para divertissements que, enquanto retratos de um comportamento profundamente artificial, se tratam também de obras maiores do cinematógrafo. Uma famosa comédia teatral de Oscar Wilde, Lady Windermere’s Fan (de 1892), sátira às superficialidades da sociedade vitoriana, revela-se o fundamento perfeito para Lubitsch, que passaria toda uma carreira entregue a jogos românticos, mais ou menos sexuais, muito próximos deste título. Se, ao chegar aos anos 40, o tom da abordagem de Lubitsch se tornaria um pouco mais sério, menos ácido, ainda que sempre dentro do terreno da comédia, podemos alegar que o período mais puro da sua obra se situa efectivamente entre meados dos anos 20 e meados dos anos 30. Dentro desse período encontramos, nomeadamente – e enquanto centro – as comédias musicais com Maurice Chevalier, das quais One Hour With You (1932) é herdeiro directo desta versão filmada de Lady Windermere’s Fan (1925). Lubitsch faria do famoso wit de Wilde referência ao seu gesto cinematográfico, mais do que uma autêntica base verbal. É nisso que nos interessa um filme como The Smiling Lieutenant (1931), cujos diálogos consideravelmente disparatados (sem que estejamos forçosamente a criticar) são trabalhados através de uma mise en scène de inteligência e requinte ímpares. Nesse mesmo sentido, podemos reconhecer na literatura de Wilde a estrutura de algo como One Hour With You, que Lubitsch reveste enquanto objecto popular através da música e dos diálogos (e da figura de Chevalier, é certo), para de seguida elevar através do seu jogo sentimental de rigor geométrico.
Em Lady Windermere’s Fan (1925), numa única associação directa entre Lubitsch e Wilde, o realizador propõe, na ausência de som, uma abordagem arrojada ao texto do autor inglês. Wilde, enquanto ideia de cinema, teria de ser outra coisa que teatro filmado e, sobretudo, outra coisa que texto. O seu estilo não poderia existir ali na oralidade, muito menos numa oralidade presa ao texto escrito na tela, que perturbaria a necessária graça do gesto. Lady Windermere’s Fan é assim um filme que quase tudo conta pelas imagens, e será na sua essencial materialidade que Lubitsch consegue mostrar-nos do que trata, afinal, o seu cinema (aqui ainda sem som). Tudo se passa num olhar, num sorriso, pelo gesto, nos objectos que as personagens manejam. O filme de um teatro interior, feito de interiores teatrais, de amplitude sumptuosa e intensa geometria. Narrativamente, e transpondo a acção para o ano do filme, Lubitsch mostra-se fiel à história de Wilde, mas rearranja e simplifica as suas peças de forma a fazê-las funcionar com maior agilidade na tela – novamente, tudo aqui se conta pela imagem em movimento. Em paralelo, esta versão assume também uma postura mais igualitária na abordagem às suas personagens. Estaremos ainda presos nessa “alta sociedade”, e é da sua comédia (ainda que mais atenuada) que se alimenta o espírito satírico do filme. No entanto, neste jogo de xadrez social, se Lubitsch se refere à tradicional diferença de posição oferecida aos dois sexos, o filme oferece uma maior clareza às suas duas figuras femininas centrais – Lady Windermere (May McAvoy) e Lady Erlynne (Irene Rich).
Lady Windermere esperará aqui até meio do segundo acto (o filme divide-se mais facilmente em três partes do que nos quatro actos da peça) para tomar conhecimento das suspeitas que recaem sobre o comportamento do seu marido. Por outro lado, é logo na cena de abertura que o espectador conhece o seu interesse mal velado, mas contido, por Lord Darlington (Ronald Colman). A braços com o “problema grave” – como graceja Lubitsch no intertítulo de introdução – que é a disposição dos lugares à mesa num evento social, Lady Windermere é importunada pela visita de Darlington. Uma primeira porta que se abre entre os diferentes estádios sociais do filme, e Darlington está apaixonado. Na sala ao lado, Lord Windermere (Bert Lytell) recebe uma misteriosa carta de Lady Erlynne, sendo, por sua vez, importunado pela mulher. Uma outra porta, com a prodigiosa hesitação de Darlington ao “entrar em cena”, e num inigualável jogo de mãos Lord Windermere trairá o seu jogo – que o próprio ainda desconhece – aos olhos do rival. Está lançado o enredo.
Tratando-se de diálogos sem palavras – quantas vezes no filme as personagens falam enquanto Lubitsch nos pede que observemos os seus gestos para ouvir o que têm a dizer – a trama é necessariamente sintetizada em relação à peça de Wilde. Lubitsch acrescenta-lhe um day at the races de alcance narrativo mais amplo e decisivo, onde coloca os Windermere e seus amigos sobre a imagem da figura solitária de Erlynne. Como uma constelação social reunida em torno de uma mulher “de vida excêntrica”, os homens desejam e as mulheres gracejam. Todos os olhares parecem seguir Lady Erlynne, sem que se saiba – fora o espectador e Lord Windermere – de quem se trata realmente. Nesta versão, a voz de Erlynne parece-nos menos de imposição ou chantagem do que de desespero. Se é certo que nunca esconde o gosto pelos zeros que Windermere acrescenta ao cheque que silencie a sua verdade, é igualmente evidente que deles precisa para sobreviver numa construção social que lhe permita aproximar-se da filha que perdera. E tal como Lady Windermere, Erlynne surge como figura menos caricatural pela mão de Lubitsch. Todos serão peões numa sátira sobre um mundo que se alimenta de “imagem”, mas, pela expressividade física que lhes é conferida, o realizador complexifica as duas personagens, apresentando-as numa forma mais perceptivelmente humana.
Se tanto, Erlynne é a figura trágica desta história (por muito que essa tragédia nos seja algo patética). Uma mulher que sacrificou a sua posição por amor, perdeu a aposta e se vê obrigada a recorrer a subterfúgios para se aproximar da filha que abandonou. Será, em tudo, uma figura “negativa” e, no entanto, o seu comportamento em cena é raramente refutável. É dela toda a amargura que o filme transporta, é dela o desespero no labirinto de portas que Lubitsch lhe constrói – nomeadamente durante a soirée em casa dos Windermere, quando procura Lady Windermere. E se o gesto heróico que assume lhe vem da peça teatral, a sua “deixa” final – um gesto e uma porta, é claro – é mais apimentada e, nisso, vitoriosa nesta versão (um touch final que fecha o filme em perfeição).
Lady Windermere’s Fan (1925), por Lubitsch, é ainda uma sátira – a mais elegante das sátiras – mas o realizador diverte-nos sem jamais ceder ao ridículo. Tudo isto faz pouco sentido moral, é evidente, mas o filme aceita as suas figuras enquanto joguetes, mais do que motores, de uma ubíqua e infindável construção social que lhes orienta o sentimento. Pelo jardim, de noite, parecem enfim poder perder-se da luz violenta dos salões de festa. Mas será de orelha a orelha, fora de cena, que toda a agressão operará. Segredos, portas fechadas, é tudo “gossip, gossip, gossip“. De pouco lhes serve ali a verdade. Que velem, então, o olhar por detrás daquele leque magnífico. Aqui todos se projetam pelo brilho que os envolve.
Lady Windermere’s Fan (um dos “dez” filmes favoritos de Jean-Marie Straub) é apresentado esta terça-feira, dia 30 de Dezembro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Filipe Raposo









