La Passion de Jeanne d’Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer: Fé e Resistência

Laura MendesFevereiro 12, 2026

La Passion de Jeanne d’Arc afirma-se como filme de resistência: se não bastasse a apresentação de uma protagonista à margem, cuja luta se espelha na profundidade do seu olhar, o mesmo confirmar-se-ia tendo em conta a conturbada jornada da sua preservação – entre a destruição e a censura que condicionaram a versão pretendida por Carl Theodor Dreyer, a cópia original e final foi (re)encontrada apenas em 1981, por acaso, numa instituição psiquiátrica.

A história de Jeanne é, nesta abordagem, condensada. Canonizada em 1920, oito anos antes desta produção, a atenção é desviada da coragem bélica com que empunharia uma arma na mão, liderando uma frente de guerra contra as forças britânicas, adentrando-se na figura já frágil e abatida no momento do seu julgamento, onde trava uma outra luta contra uma Igreja corrompida e cruel. Esta escolha permite que atentemos ao lado menos heroico – e, por isso, mais íntimo – desta figura, posicionando a reflexão em torno das injustiças que sofreu e da ascensão de uma espiritualidade viva e comovente.

 

 

A narrativa está concentrada nas acusações de que é vítima, bem como nas constantes manipulações que tenta contornar, criando a ambiência propícia ao desenlace de situações-limite, imprimidas no inesquecível rosto de Renée Maria Falconetti. O desgosto e a inquietação são constantes, encadeados na vulnerabilidade humana, e a iminente rutura é fruto de uma contestação obstinada, de uma reclamação digna dos atos que perpetrou, aceitando as consequências que daí advêm e recusando uma derrota moral e espiritual, que surge como a solução mais fácil.

O retrato de Jeanne é construído num espaço intersticial entre Cristo – como o título deixa antever – e Antígona: por um lado, os quadros de tristeza de uma mártir, as expressões que lembram, indubitavelmente, as do primeiro, simbolicamente adornadas com elementos que para ele remetem, bem como a notável humildade e o patente apoio do povo que faz mover; por outro, uma obstinação feminina assente na fé inabalável, a recusa em obedecer a leis voláteis, malignamente manuseadas, criando as suas próprias e obedecendo à sua interioridade, recusando, de igual modo, despir as vestes de homem, que honra.

 

 

A tensão entre o etéreo e o material é já interessante no caso real que dá origem ao filme – ainda assim, este último adensa o binómio em causa. As paredes que perfazem o cenário grave e oficioso, bem como a sacralidade do mesmo, são derrubadas com uma única expressão de Jeanne, mais solene do que qualquer manifestação dos pretensos devotos. A evocação das visões transcendentes e dos diálogos que mantém com deus intensificam a sensação de que estamos perante algo – alguém – que nos ultrapassa, ficando Jeanne envolta numa bruma inexplicavelmente majestosa que permanece ao longo do tempo. A sua resolução patriótica  não tem nada que ver com conquistas sanguinárias ou defesas estratégicas, mas sim com a vontade de uma França soberana, dissolvendo-se esta numa vontade superior, imaterial e até messiânica – uma missão a si confiada por deus.

 

 

A presença das figuras representantes da Igreja, tão perscrutadas como a própria protagonista, e cuja centralidade é inegável, é sintomática da feroz crítica à hipocrisia das mesmas e às estruturas que as sustentam – crítica essa que não se reduz ao tempo e espaço onde foi, em primeira mão, concebida. A ignorância eclesiástica é notável quando contraposta à sabedoria espiritual de Jeanne, que se revela profundamente consternada com as absurdas perguntas que lhe são colocadas, resistindo-lhes, ao mesmo tempo questionando as hierarquias implementadas e subvertendo o significado de heresia: quem é merecedor, ou não, do temor e piedade divinas? Quem está, realmente, ao serviço de deus e do bem? O viés da Igreja vai-se confirmando com a crescente divisão no seio da mesma, com alguns dos seus integrantes apiedando-se de Jeanne, numa tentativa de preservar a sua vida, enquanto outros defendem perversa e fervorosamente o seu desaparecimento.

 

 

Mas o fim da vida terrena não será aquilo que mais importa àquela que é condenada à fogueira e a sua desobediência – é-o mesmo? – surge como libertação. O culminar da narrativa dá azo tanto à transcendência de Jeanne como à revolta do povo que com ela caminhou, sendo o caos atordoante do seu corpo queimado – depois quase irreconhecível, mas ainda nítida e perturbadoramente visível, numa mortificante sequência – o expoente máximo dessa manifestação popular, política e humana.

 

 

La Passion de Jeanne d’Arc é apresentado este sábado, dia 13 de Fevereiro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Filipe Raposo.

 

Laura Mendes