La cicatrice intérieure (1972) de Philippe Garrel – “Meet me on the desertshore”

Eduardo MagalhãesAbril 1, 2026

 

Was I to have never parted from thy side?
As good have grown there still a lifeless rib.
Being as I am, why didst not thou the head
Command me absolutely not to go

[…]

Is this the love, is this the recompense
Of mine to thee, ingrateful Eve, expressed
Immutable when thou wert lost, not I,
Who might have lived and joyed immortal bliss,
Yet willingly chose rather death with thee

[…]

Thus they in mutual accusation spent
The fruitless hours, but neither self-condemning,
And of their vain contest appeared no end.

[J. Milton, Paradise Lost, Livro IX]

 

Do deserto do Sinai ao vale norte-americano da Morte, um homem e uma mulher condenados ao círculo. Vagueiam exaustos em toada seca. Entre silêncio e exasperos, regressam a um mesmo sítio. “Petrify the empty cradle”. “Mortalize my memory”, ouve-se na música que acompanha a ação. Não se trata de um recolher do tempo, a consciência do mesmo tudo turvou. Esgotaram-se os cálculos, já não interessa a hora, e o dia parece nunca ter fim. Sem ambiguidade, a paisagem desprovida de fauna e flora como palco da catarse. O deserto divide o plano a meio com o céu. Sempre em travelling, vamos perdendo noção da origem e do destino ganha força a expressão da cor como sinal. O cabelo-chama de uma Nico em traje de serapilheira ou estopa, megafone da perdição em flor.

 

 

Adão e Eva errando como Caim. Ou Caim errou como os pais antes dele? A imagem da expulsão do Paraíso com o casal destituído da brisa da ignorância agora tornado carne que transpira. Viscoso desconforto sempre a crescer: “GOD!” Os golpes e empurrões dela ao homem mudo e inerte como o chão que pisam. Numa primeira luta que nem os românticos imaginaram, continua a agitá-lo ao ritmo da sua birra infantil. Este longo introito é cansaço, as duas figuras perdidas sem vestígio de razão. É também exórdio. Quem é o Janitor of Lunacy referido na banda sonora? Sele-se a vaidade, o ciúme, o desespero, este benévolo contínuo tudo serena. A canção guarda assim um sentimento comum ao das preces mais triviais.

Há um grande prazer em ver todo este quadro. Ainda uma ou outra provocação (sempre da parte dela), mas o mergulho neste areal de insatisfação já foi dado. A incompreensão do conhecimento há medida que se passeiam cabisbaixos pelo branco. As questões suscitadas pelo cenário não beliscam este prazer, formam quase uma nuvem potente em crescendo no reservatório da nossa atenção ao filme. Não há nada para dizer, uma paralisia assolou a vontade do homem e da mulher. Aqui também na modernidade, com a carência e o apetite eclipsados pouco resta no horizonte deste ou de outro par.

 

 

Os tumultos na vida pessoal de Philippe Garrel fizeram-no abandonar a ideia presente na primeira parte do filme, acompanhar um casal errante em paisagens agrestes. O seu papel enquanto actor pára no término do introito. Fica Nico a clamar pelo Dilúvio que tudo há de engolir quando o homem sai de cena a manejar um rebanho. Dir-se-ia antes e depois do tempo, pois foram afinal os pastores os proclamadores da graça do Menino que aqui vemos por duas vezes. Na primeira, ainda antes da saída de cena do homem, um rapaz não temente às encantações do profano guiando a mulher para fora do círculo, um círculo de fogo. Na segunda, uma criança ainda mais pequena a fazer a vez de pérola entre glaciares perto dos vulcões da Islândia.

 

 

My only child, be not so blind
See what you hold
There are no words, no ears, no eyes
To show them what you know

 

 

A contemplação da criança como resgaste de parte dessa ignorância que é saber inalcançável. Ganha o filme um trajeto mais fragmentado com a partida do Garrel intérprete, sustem Nico a aura de sacerdotisa ante os mistérios da oferenda. A embarcação que ardeu, a gruta, a mencionada criança a rir-se nas encostas da Islândia também observada por um cavaleiro nu. Em vaivém dentro do labirinto bíblico, o cavaleiro vai apresentando os sinais a Nico culminando com a entrega de uma espada. Está completo o desenho onírico, sucessivos esboços do templo seja a encosta, o desenho da linha da costa que cai sobre o mar, a lagoa, ou o próprio corpo de Nico, tudo aponta para a anuência pacífica.

Em Milton, o Filho serenava o caos da criação em voluntário esforço e sacrifício pelo Homem, enquanto os Anjos indicavam a Adão as sucessivas quedas da Humanidade até ao grande Dilúvio já referido. No filme de Garrel, a presença dos infantes e do arqueiro despido é igualmente guia e apaziguamento. O mesmo panorama, seja nos vulcões ou na linha do mar, em adagio até à cadência autêntica perfeita. Os cortes em fade out numa brandura aparentemente contrastante com a violência ou insolência de certas imagens.

As canções retiradas do álbum Desertshore de Nico, cuja capa é um dos planos do filme, foram inspiração para o mesmo. Se o trabalho visual recai na composição sobretudo através dos quatro elementos, a música age como o quinto acentuando a tónica e articulando as expressões vazias dos intérpretes com a mise-en-scène alicerçada na cor e no simbolismo. Temas como Abscheid ou All that is my own tornam-se indissociáveis da prancha hipnótica, os planos gerais insistentes numa orfandade das figuras e congelamento da palavra acoplados na repetição dos versos que escutamos – “Meet me on the desertshore” / “Your ways have led me to bleed”.

 

 

Bending his eare; persuasion in me grew
That I was heard with favour; peace returnd
Home to my brest, and to my memorie
His promise, that thy Seed shall bruise our Foe;
Which then not minded in dismay, yet now
Assures me that the bitterness of death
Is past, and we shall live. Whence Haile to thee,
Eve rightly call’d, Mother of all Mankind,
Mother of all things living, since by thee
Man is to live, and all things live for Man.

[J. Milton, Paradise Lost, Livro X]

 

O filme e o disco como as duas faces de uma projeção da maternidade como o pleno da vida. Não é necessário falar em salvação, a dor e o sangue, a morte e o fogo, tudo etapas de um círculo. Nico na cascata e Nico a receber a espada, majestade pensada pelo corpo e será no corpo que o tempo será ultrapassado. Na emoção que parte do corpo e o transcende a metamorfose, outra forma do círculo, a mãe que suporta as dores do parto e o recém-nascido que grita e chora. Novamente, a canção: “Den heulenden Jubel erkenne ich nicht/Der mir den heiligen Frieden zerbricht/Sein schweigender Mund, seine schlafende Brust/Harren zärtlich der süßen Lust”.

A cicatriz interior parte do combate com o conhecimento. Sim, Adão e Eva descobriram-se e o sexo revelou-se. Entre o pensamento e a ação, diferentes sinais questionam este conhecimento. As diferentes quedas do Homem, seja a vaidade, a luxúria, a tirania ou a idolatria como passos em falso na integração do saber. Só mesmo na oração, um pensamento luminoso ou uma imagem panteísta, pela afirmação da dúvida que implica. Tornam-se as inquietações nas Plêiades e nós, como outro caçador, em perseguição bendita.

 

 

Eduardo Magalhães