A capa era amarela de um tom garrido, primário. A uma margem uma banda negra e discreta, e ao centro, uma mulher de fato amarelo-torrado, ar sério e espada na mão, parecendo perfeitamente capaz de levar a cabo a vingança prometida no letreiro. Eu teria uns seis, talvez cinco anos. Naquela altura, os discos que se acumulavam e as cassetes que iam resistindo no móvel de madeira ao lado do leitor tinham qualquer coisa de inacessível, um mistério que, por então, me estava vedado sem ser preciso perguntar. As fronteiras naturais da infância, limites que intuímos e que, a cada um conquistado, se tornam marcos de crescimento e pequenos fins da inocência. Talvez por isso, por na altura pressentir que não eram para mim, muitos desses objetos hoje não estejam lá ao vasculhar os recessos da memória. Mas aquela capa amarela, aquela mulher de aspeto decidido, permanece. É talvez – talvez não, é – das primeiras imagens de cinema que guardo.

Esta minha relação com o DVD de Kill Bill – A Vingança (Volume 1) não será muito diferente da que Quentin Tarantino recorda em Cinema Speculation, o seu livro de crítica/memórias de uma cinefilia nascente, nos anos 70, ao falar de The Wild Bunch, o clássico western de Sam Peckinpah, que Tarantino (apesar da sua exposição desde tenra idade ao cinema da Nova Hollywood) era demasiado novo para ver em 1969, quando estreou e quando o futuro enfant terrible tinha apenas seis anos. Na altura, escreve, o “estatuto mítico” do filme foi engrandecendo na sua mente à boleia de publicidades na televisão e de ouvir os adultos na sua vida a falar sobre o filme:
Mesmo que não o tivesse visto, sabia o que era. (…) Por um tempo, The Wild Bunch tornou-se um título ínfame na nossa casa. (p. 71-72)
Tal como Tarantino e a obra de Peckinpah, a primeira vez que vi, finalmente, os dois volumes de Kill Bill, era ‘demasiado novo’, o que significa que estava na idade certa. Passavam então alguns anos desde que assomara pela primeira vez consciência do filme; metade de uma vida, portanto. À época, junto com a restante filmografia do seu autor, já tinha ascendido ao estatuto de ‘Clássico da TV Cabo’, aqueles filmes orelhudos que víamos e revíamos no Canal Hollywood, FOX Movies, ou TVCine (para quem fosse rico) sem nos cansar.
Foi num destes que terei tido esse primeiro visionamento, do qual guardo poucas memórias, porque as que tenho se confundem com memórias que sempre tive, que pura e simplesmente não me lembro de algum dia não ter tido. O duelo samurai na Casa das Folhas Azuis, a sequência em anime da origem da O-Ren Ishii de Lucy Liu, a marca indelével deixada por personagens como Hattori Hanzo e Pai Mei (Sonny Chiba e Gordon Liu, lendas que aos doze desconhecia), o needle drop de Battle Without Honor or Humanity, o monólogo de Bill (David Carradine) sobre a mitologia do Super-Homem…
Como não ficar embevecido, fascinado? Um contemporâneo da geração Sundance de Tarantino – Kevin Smith, de Clerks, Mallrats ou Dogma (esqueçamos os filmes pós 2000) – localizou um fator importante no sucesso continuado do cineasta, particularmente quando se tem em conta que tantos o descobrem na adolescência: a ideia de um “cinema of cool”, um compêndio de referências e inspirações cinematográficas absorvidas desde tenra idade (dos clássicos da Nova Hollywood às indústrias e não-indústrias das margens, o cinema de minorias, o blaxploitation, filmes de artes marciais, westerns feios, porcos e maus e televisão, muita televisão americana de 60 e 70) e que formam em conjunto um ideário (masculino, é certo) de tudo o que é ‘fixe’, ‘brutal’, ‘do caralho’, numa idade em que tudo o que se quer de um filme é que nos derreta o cérebro e nos dê a sensação de estarmos vivos. Uma euforia que todos, de um modo ou de outro, passamos o resto da vida a perseguir.
Movimento Pendular
Kill Bill é um eixo fulcral na filmografia de Tarantino. Quarta obra do cineasta e a sua primeira no século XXI, seguiu-se a um interregno de seis anos entre projetos que, até recentemente (já lá vão sete desde Era Uma Vez… em Hollywood), era o mais prolongado da sua carreira. É também o primeiro filme no encalço da sua trilogia informal do submundo de Los Angeles – Cães Danados, Pulp Fiction e Jackie Brown –, três obras constitutivas de um universo cinematográfico, e sobretudo literário (o hardboiled criminal de capa mole de autores como Elmore Leonard e Jim Thompson), que o anunciaram com estrondo como nome na vanguarda da geração de brats suburbanos da década de 90 (como ele Paul Thomas Anderson, John Singleton, na costa leste Kevin Smith, os texanos Wes Anderson, Robert Rodriguez e Richard Linklater).
Aqui, veríamos o início declarado do projeto que ocuparia a próxima década da sua carreira: a remistura assumida do cinema de género que formou e informou Tarantino na juventude de samurais, cowboys e heróis de matiné, filmes assumidamente herdeiros desses códigos, agora elevados acima do kitsch e até ao estatuto de arte de primeira linha pela mão do virtuosismo técnico e narrativo do homem do leme.
No entanto, e uma vez vista Toda A Obra Sangrenta, o corte de mais de 4 horas idealizado desde o primeiro dia pelo autor – a ideia de dividir Kill Bill em dois volumes partiu do desgraçado Harvey Weinstein, uma mera consideração económica atendendo à duração do filme completo como estreado em Cannes, e como Tarantino o foi exibindo periodicamente no seu próprio cinema em Los Angeles – nunca a ideia desse exercício de revisitação/elevação das séries B e C dos anos 70 foi melhor executada como aqui.
Kill Bill pode não ser o melhor filme de Tarantino (e talvez o seja), mas é a sua obra-prima definitiva, o ponto alto do seu projeto autoral. Mais do que qualquer outro, é aquele que melhor representa o cineasta na sua totalidade, para o bem e para o mal: a energia contagiante, o controlo magistral da ação e do espaço (A Noiva contra os ‘Crazy 88’ é a melhor sequência de ação a sair de Hollywood no século XXI, com a possível exceção de um ou outro momento de John Wick), a atenção quase literária concedida às personagens e à linguagem… e também o excesso maximalista, as sequências demasiado longas, a conduta nos bastidores que a posteriori mancha alguns momentos (ver Uma Thurman ao volante hoje…), a relação profissional com o predador Weinstein, a quem Tarantino deve a carreira.
É acima de tudo um deleite revisitar estas sequências, pela primeira vez num grande ecrã; e redescobrir a singularidade deste cinema, idealizado por um ‘reaproveitador-mor’ de imagens e códigos narrativos que a história descartou, a quem foi possível fazer um filme deste tipo e gabarito, numa indústria que, então ainda não o sabíamos, seria profundamente alterada e deixaria de existir com estas condições e esta centralidade daí por poucos anos. Nesse sentido, torna-se também, por mais cliché que seja, num daqueles filmes “que já não se fazem como antigamente”. Visto em 2026, ganha outra força.
O Destino do Guerreiro
Também porque, como antes já se disse, nunca vimos Kill Bill assim, literalmente. A apresentação dos dois volumes na sua verdadeira forma, como um só filme, permite compreender aquilo que a sua separação ocultava. O desequilíbrio sentido entre as duas partes foi sempre consensual: se Volume 1 evidenciava um desinteresse com explicações narrativas, em favor de uma entrega total à ação pura, o segundo tomo era muito mais um filme “à Tarantino”, com queda para longos diálogos e guerras de palavras mais do que de espadas, traduzindo-se em dois filmes algo ‘desencontrados’ entre si.
A montagem completa de Toda a Obra Sangrenta resolve e estabiliza essa contradição, ao mesmo tempo amplificando a dimensão épica da obra, em termos narrativos e até geográficos. Onde a primeira metade continua a servir como viagem a 220 km/h pelas convenções do(s) género(s), a segunda serve como um prolongado denouement de duas horas, expondo aquilo que é, acima de tudo, uma história sobre parentalidade, arrependimento e destino.
A Noiva/Beatrix Kiddo, construção maior de Uma Thurman – uma atriz e sobretudo uma presença de ecrã evidentemente superior, admira não ter tido uma carreira mais fulgurante do que aquela que, para todos os efeitos, até teve – busca vingativa os assassinos que lhe roubaram a filha, numa viagem que é, sem que a própria o saiba, uma jornada de reconciliação. Algo maior a move, sim: vingança, talvez, mas também um ímpeto primário, um impulso não-reconhecido, que inevitavelmente a conduz na direção dos braços da cria, numa reunião que nesta versão tem uma carga redobrada porque o espectador a descobre ao lado da protagonista (a informação é-nos revelada em jeito de “não perca o próximo episódio” no final da versão Volume 1, num diálogo que aqui é omitido. Uma mudança simplicíssima e que por si só justifica que seja esta a versão definitiva do filme daqui por diante).
Pelo caminho, as personagens aludem, com palavras mas também com atos, aos pecados cometidos e à necessidade de os expiar. Budd (Michael Madsen), sabe do que Beatrix é capaz, conhece as suas capacidades formidáveis – e ainda assim enterra-a viva com uma lanterna, no que só pode ser entendido como uma hipótese de sobrevivência que concede à rival, deixando o desenlace nas mãos do destino. “Não fujo da culpa, e não me esquivo de pagar a minha dívida”.
O mesmo com o próprio Bill, o inimitável David Carradine, por quem esperamos durante toda a primeira parte e cuja a aparição fulgurante após a intermissão não desaponta. Quando Beatrix o confronta, finalmente, no México, Bill está à espera, mas não sabemos imediatemente do quê. “Sabia o que ia fazer à mamã”, responde à pequena B.B., quando questionado sobre o tiro quase fatal que deixou a ex-companheira em coma mais de quatro anos antes. “O que não sabia era o que me ia fazer a mim”. O antagonista trágico do épico sabe, como nós, que o confronto decisivo está iminente, e ocupa os momentos anteriores a beber shots de tequila, entorpecendo os sentidos menos como alguém que se prepara para o combate, e mais como quem aceita o reencontro com a amada como um último adeus. Na cena com B.B., parece mesmo despedir-se da filha: “Deixo-vos a sós“.
Durante alguns anos, no olho da mente e à medida que ia apurando o gosto adulto, olhava para Kill Bill com alguma desilusão. Tarantino, depois da explosão do fenómeno Pulp Fiction, não obteve a mesma aceitação com a sua sequência. Jackie Brown foi reclamado retroativamente, sim, mas à época desiludiu face às expectativas; o próprio não voltaria a tentar uma abordagem mais introspetiva, melancólica e ‘madura’ até Era Uma Vez… em Hollywood, trinta anos depois (a sua outra obra-prima, por sinal).
À luz dessa leitura, o quarto filme de Quentin Tarantino aparentava um retrocesso, uma retirada estratégica de um autor que preferiu enveredar pela mímica deliberada dos seus heróis ao invés de continuar a sua jornada de desenvolvimento artístico (como fez o seu rival amigável de sempre, Paul Thomas Anderson). Talvez assim o seja, mas hoje, Kill Bill assume outra leitura: a de um labor de amor e de homenagem, uma empreitada de alguém obcecado em não deixar o (seu) passado morrer e, no processo, em reescrever a história. Se não formos nós a recordar os que vieram antes, quem o fará?




