Como em qualquer outro grande filme de Ford, Kentucky Pride evoca esses verdes vales da nossa terra natal. Estreado em 1925, este poderia facilmente passar por uma “obra menor” do realizador. E, no entanto, qualquer obra aparentemente menos importante de Ford merece ser apreciada como algo de singular. A partir do romance Black Beauty (1877), de Anna Sewell, a história de um cavalo, apresentada e narrada pelo próprio, esse “orgulho” de Kentucky é, efectivamente, uma égua, criada no rancho de Beaumont (Henry B. Walthall). Vemo-la no dia do seu nascimento, com Donovan (John Farrell MacDonald), o tratador irlandês, a irromper com a noticia, excitado e de indumentária desfeita, por um jantar de sociedade. A cena choca alguns dos convidados e irrita Mrs. Beaumont (Gertrude Astor – a madrasta desta fábula), mas Beaumont não se mostra minimamente contrariado. Corre para o estábulo, a convite de Donovan, para conhecer aquela que só pode ser “a mais bela égua do mundo”, Virginia’s Future (a partir do nome de Virginia, a sua filha de um casamento precedente).

Beaumont tem o vício do jogo e vemo-lo perder, pouco a pouco, a fortuna para tudo depositar, dinheiro e esperança, naquele seu cavalo. Mas apesar dos problemas crescentes de Beaumont, e apesar da infidelidade da esposa com o “amigo” Carter (Malcolm Waite) – que os cavalos denunciam -, o primeiro acto de Kentucky Pride decorre com relativa leveza. Ford, que tinha ainda trinta anos, mostra-se particularmente interessado no retrato ao natural daqueles animais que tanto lhe valeram na carreira. O filme vive de um certo gosto documental, que o realizador molda, então, a partir do bom humor do discurso. Mas se as cenas pelos campos, com cavalos que brincam, correm (sempre em frente, dizem-nos) ou simplesmente observam, são particularmente inspiradas, o filme arrisca-se a valer maioritariamente como curiosidade até ao glorioso, ou fatídico, dia da primeira corrida de Virginia’s Future.
As coisas não correm como se gostaria, necessariamente, mas o evento é tratado com uma mestria griffithiana ímpar. Por muito que, enquanto espectadores, nos seja difícil distinguir o “nosso” cavalo dos restantes, a propulsão das imagens de animais em movimento veloz, ritmada pelos olhares dos diferentes participantes (Beaumont, Carter, Donovan e, o filho, Danny – Winston Miller), é tão empolgante quanto outra grande cavalgada dos filmes “maiores” de Ford.
Do paroxismo emotivo dessa corrida, e seu desfecho tristíssimo, o filme discorre então num belíssimo segundo acto, onde Ford se concentra no pathos (humano e animal) da narrativa. Afinal, mais do que uma simples história “de cavalos”, Kentucky Pride é, como sempre, uma história de pais e de filhos, uma história de valores familiares. E também um conto moral (jamais moralizante) sobre os mais basilares princípios humanos. Beaumont, arruinado pela derradeira aposta, terá de fugir de casa. E a prenda que deixará à filha, aquela belíssima égua, de pouco lhes serve: uma perna partida e uma carreira terminada no dia em que começara. A sua propriedade passará para as mãos da esposa, que se apressará a convidar o Carter para ocupar o lugar do infortunado Beaumont.
A acção reverte aí, definitivamente, para as mãos de Donovan, esse bom irlandês, a quem é exigido, pela nova proprietária do clube rancho, que abata a égua. Uma tarefa “simbólica”, o sacrifício pretende tanto celebrar a desfortuna de Beaumont como o fim de um futuro, a galope, da pequena Virginia. Ford, é certo, não se prestará a tal crueldade (uma bela mentira de Donovan), mas quanto nos pesa aquele pedido da pequena Virginia, no quarto, nessa noite de silêncios, para que o pai possa, um dia, smile an’ laugh again.

No universo do realizador, sabemo-lo, o sol, quando brilha, brilha sobre todos. Virginia será adoptada por Donovan no seio e ternura da sua família, e Virginia’s Future vive uma paixão numa propriedade vizinha, acabando por dar à luz Confederacy. O nome da poldra (cuja vitória libertará a trama) será um dos traços polémicos de um filme onde, um dos intertítulos de abertura evoca o “orgulho da raça”, e cuja acção decorre num quadro abertamente segregado.
Para que a nossa apreciação não redunde então num politicamente correcto contemporâneo vale a pena recordar em como o cinema de Ford sempre se preocupou com uma, chamemos-lhe, “honestidade” factual na elaboração do seu campo narrativo, nomeadamente as suas personagens. Ford sempre afirmara o controlo artístico limitado que tivera durante o seu tempo na Fox (produtora do filme). Mas no caso de Kentucky Pride, um fazendeiro abastado e sua serventia, num estado americano próximo da dita Confederação, se a história se conta com “imagens” que descrevam ideias segregacionistas (ou discriminatórias, ou racistas), o filme em si está longe de as utilizar enquanto discurso “cinematográfico” próprio. Importa, pelo contrário, salientar a igualdade formal que o realizador estabelece entre as figuras em cena. Se se trata de “uma história de brancos”, entre ricos, pobres, emigrantes ou serventes negros, existe aqui uma câmara sempre ao nível do homem como, de preferência, também do seu “melhor amigo”, o cavalo. E poucos como Ford terão sabido pintar com tamanho respeito, tamanha humanidade, cada um dos figurantes em cena – uma qualidade evidente até mesmo neste filme inicial, pequeno e pouco valorizado.

Faith, an’ can it be Saint Patrick’s Day?
Dos campos verdes, e por vicissitudes várias, a acção deslocar-se-à, no terceiro acto, para a cidade. Perde-se o rasto de Virginia’s Future, Donovan torna-se polícia (e daí sargento) e Danny, seu filho, jockey – algo que teria um dia de acontecer. As imagens urbanas do filme são tanto animadíssimas como carregadas de um ritmo que contrasta fortemente com os outros dois espaços abertos do filme – o prado e a pista. E como entre os dois primeiros actos, o corte acentua-se aqui por um profundo contraste tonal. Daí que, necessariamente, o filme só se possa resolver por novo reencontro com esse movimento livre, essa velocidade impetuosa, pelos quais as suas personagens – homens e cavalos – tanto parecem ansiar. Danny descobre Confederacy, e o sargento Donovan reencontra Beaumont, partindo ao resgate de Virginia’s Future. O cinema é maior quando feito dos mais felizes acasos. E através dos seus, Kentucky Pride poderá enfim fechar pelo mais belo dos desenlaces. Afinal, a extensa família fordiana que aqui se reencontra, é um valor inestimável da história do cinema. E este pequeno filme pode, com ela, encontrar o seu lugar na mais importante filmografia que, por ventura, jamais teremos conhecido.

Kentucky’s Pride é apresentado esta terça-feira, dia 02 de Junho, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por João Paulo Esteves da Silva.



