Jay Kelly, de Noah Baumbach – Todos o conhecem

Hugo DinisJaneiro 6, 2026

Traduzido à letra, o mote de Jay Kelly é: “Todos conhecem Jay Kelly, mas Jay Kelly não se conhece a si próprio”. A mera existência da frase parece convocar em nós um esgar de vergonha alheia quase por instinto. Jay Kelly é um filme pretensamente inspirado na persona real projectada por George Clooney, mantendo a face de uma peça de ficção pura. O piscar de olho de Noah Baumbach, o realizador desta peça em particular, dá para identificar à distância. Numa altura em que a Netflix aparenta vir a comprar as operações de cinema da Warner e dinamitar com isso boa parte da experiência de sala, o tipo de produção de prestígio que a Netflix tem para apresentar ao seu público pagante é este. Baumbach é, de resto, um dos muitos cineastas de renome agora no estábulo exclusivo da Netflix, votado a filmes que já nem sequer passam pelas salas, como o seu anterior White Noise. Este Jay Kelly é firmemente o seu trabalho menos conseguido. Passando pelo pastiche de uma qualquer noção do cinema de Fellini, este é um argumento escrito para dizer as palavras “Jay Kelly” o maior número de vezes possível. É suposto já conhecermos a pessoa em questão, na realidade. É isso que diz o seu slogan. E, em abono da verdade, já todos conhecemos George Clooney.

Clooney não tem um óscar de melhor actor, é importante dizer a este ponto. Apenas um como melhor actor secundário. Isso acaba por ser relevante para explicar não apenas a personagem de Jay Kelly como a existência desta empreitada. Este é um filme dedicado a servir de prémio de carreira a Clooney de início ao fim, mas sobretudo no seu final pretensamente impactante. Não conhecemos Clooney, não pessoalmente pelo menos, tal como não conhecemos Jay Kelly. Mas pelo menos podemos dizer com confiança que Kelly não só não é uma personagem minimamente interessante como até procura puxar galões que não tem. Em seu torno estão os suspeitos do costume: uma família distante, composta por filhos que Kelly deixou ignorados, sempre em prol de uma carreira cinematográfica memorável. Sabemos que é memorável porque Baumbach assim nos diz. Várias vezes, de facto. Mas ao invés de perguntarmos como é que será possível que alguém tão desinteressante e vápido como Kelly seja capaz de produzir uma obra artística tão relevante, Baumbach coloca a ênfase em “todos conhecem Jay Kelly, mas Jay Kelly não se conhece a si próprio”. Kelly reconhece a distância familiar, seria difícil não o fazer, mas não tem a noção de que o tempo para o corrigir já lá vai.

 

 

Para Baumbach, o verdadeiro pano de fundo relacional para Kelly é o seu agente. Um sofredor de profissão, dono de uma lealdade e dedicação inabaláveis, Adam Sandler gere não apenas a carreira de Clooney como todos os mais pequenos pormenores da sua vida. Sandler é um amigo profissional que lida com a sua própria ausência familiar e essa mesma condição de companheiro pago. Certamente um plot point tratado de forma mais interessante que qualquer drama em torno do Jay Kelly de Clooney. Ao passo que o centro emocional de Jay Kelly se encontra inexplicavelmente no seu agente, nada de particularmente interessante se passa com o próprio Kelly. Após um encontro com um ex-actor com quem competiu por papéis no início da carreira de ambos (Billy Crudup), Kelly decide partir na mesma viagem europeia da filha mais nova, em compensação pelo tempo que ambos perderam. A sua reflexão pessoal é praticamente nula, mas a profissional é simples de definir: na verdade, foi preciso abdicar de tudo para ser um actor de nomeada. Kelly trai a confiança de amigos, abandona familiares, e torna-se um estranho dentro da sua própria vida.

 

 

Mas dentro deste panorama, o que nos apresenta Baumbach que não seja a celebração gratuita desta personagem que ninguém conhece (nem sequer o próprio)? Por altura das decisões, já Sandler passou por algum tipo de reflexão própria, motivada até pelos projectos de vida que abandonou enquanto acompanhou Clooney. Mas Clooney apenas serve para ser celebrado e não necessariamente conhecido, conforme reza o mote de Jay Kelly. A cena chave do filme tem o mesmo tom e sentimento afectivo artificial de tudo o resto, colocando-nos forçosamente no campo da homenagem à obra do homem. Nesta carreira brilham os momentos dos trabalhos passados de Clooney, num (in)feliz e trapalhão piscar de olho ao Birdmanismo de tudo isto. A crise de meia idade de Kelly redunda no vazio de um momento apoteótico em que podemos todos olhar para o ecrã e recordar aquela vez em que Clooney entrou em Syriana, Three Kings, ou Up In The Air. Baumbach torna este Jay Kelly tão ou mais referencial do que um filme de superheróis. O que sentimos ao ver a montagem de carreira na homenagem a Kelly não é a vontade de um sentido obrigado a Clooney, é a certeza de que preferíamos estar a ver qualquer um desses outros filmes.

 

 

Hugo Dinis