IndieLisboa 2026 – Dias 9, 10 e 11: C’est arrivé (…), Dry Leaf, Noite Escura, Lo demás es ruido, Kiss and Be Friends, Conference of the Birds, This Is Spinal Tap, 18 Buracos Para o Paraíso

EquipaMaio 11, 2026

Chegou ao fim a 23ª edição do IndieLisboa, que óptimos momentos nos deu e que se revelou um sucesso a praticamente todos os níveis. Para além de uma programação que consideramos excelente ao longo das categorias, com estreias de variadíssimos filmes tanto nacionais como internacionais que vão dar que falar ao longo do ano, o festival fez mais de 36 mil espectadores, registo que se traduz na terceira melhor edição do IndieLisboa de sempre, com um total de 40 sessões esgotadas – que este ano tiveram mais recursos de acessibilidade numa parceria com a Fundação MEO que o IndieLisboa deseja e espera dar continuidade. 

A lista de filmes premiados pelos vários júris oficiais e não-oficiais pode ser consultada aqui, sendo que os premiados da secção Indústria – projectos work-in-progress – podem ser consultados aqui. Por esta hora, já foi terminada a contagem de votos em relação aos Prémios do Público, sendo que o Prémio do Público para Longa Metragem (mil euros) sorriu a Mulheres de Abril, de Raquel Freire, presente na secção Rizoma; o Prémio do Público para Curta Metragem (750 euros) foi atribuído a Intersecting Memory, de Shayma’ Awawdeh, presente na Competição Internacional, e o Prémio do Público IndieJúnior foi entregue a Dueto, de Léo Brunel. 

De recordar ainda que os filmes premiados serão todos exibidos no Cinema Ideal, durante as tardes e noites de hoje, amanhã dia 12 de Maio, e quarta-feira dia 13 de Maio, com essa programação disponível aqui

Deixamo-vos com as críticas aos filmes finais a que assistimos por estes dias, com muita vontade de nos voltarmos a ver para o ano.

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C’est arrivé près de chez vous de Rémy Belvaux, André Bonzel & Benoît Poelvoorde
Retrospectiva Mockumentary

Quando Charlie Shackleton satirizou a obsessão ocidental com os documentários criminais em Zodiac Killer Project (2025), a força da sua mensagem passava essencialmente pela desconstrução de género que fazia. Seguir as pistas e os passos do assassino, poder tornar cada um em detective amador a partir de casa, colocar-nos perante a excitação do crime em primeira mão. Formas de retenção do cliente aos algoritmos da Netflix ou da Amazon Prime. Em C’est arrivé près de chez vous, seguimos um falso documentário sobre um assassino em série (Benoît Poelvoorde) que mata as vítimas em frente à câmara e convida a equipa de filmagem a tomar parte dos crimes. Poelvoorde é, desde logo, uma presença magnética. Tem conversa para tudo e mais alguma coisa, opinião sobre todas as matérias, da mais filosófica à mundana, e não se coíbe de alternar instantaneamente entre o psicótico e o afável. Nesse aspecto, a realização tripartida de Rémy Belvaux, André Bonzel, e Benoît Poelvoorde, atira-se abertamente para este abismo de niilismo cómico com o uso de uma montagem brusca e impositiva que faz suceder o rocambolesco ao corriqueiro.

O que C’est arrivé près de chez vous não consegue superar é a limitação da sua própria premissa. Ainda que este registo habilmente preveja a obsessão contemporânea com a necessidade mórbida de qualquer tipo de proximidade ao crime, quanto mais revoltante melhor, também não se pode dizer que tenha muito mais para oferecer do que o cinismo de gargalhadas repetidas. A crescente cumplicidade entre a equipa de filmagens e o assassino reflecte o esgaravatar pós-modernista da cultura de notícias de 24 horas diárias no mundo do chocante e do revoltante. Esta ideia não perdeu, de algum modo, qualquer relevância com o avançar dos anos, bastando para isso observar também registos como Nightcrawler (2014) ou, apenas dois anos depois de C’est arrivé près de chez vous, Natural Born Killers (1994).

Ao passo que esta vertente conceptual se revela um absoluto sucesso no registo maníaco de Poelvoorde, também não se pode dizer que a execução se mantenha constantemente interessante para o espectador em face de gags repetidos e construções que tanto se podiam referir a um assassino em série como a qualquer outro narcisista. C’est arrivé près de chez vous, ou aquilo que nos está próximo, é muito mais a cultura da sociopatia como curiosidade social, o escândalo e o mórbido como forma de entretenimento. Nesse aspecto, o filme de Belvaux, Bonzel e Poelvoorde é um documento cómico que honra a linha em que se movimenta o assassino que retrata: a celebração de um espectador mórbido que é, na verdade, o objecto das suas próprias piadas.

Hugo Dinis

 

Dry Leaf / ხმელი ფოთოლი de Alexandre Koberidze
Competição Internacional

Fica esta nota en passant, daquele que foi o último filme que vimos no festival, que não pode substituir um texto ensaístico maior no futuro (Dry Leaf é um filme que pede naturalmente recensão). Do gabinete de curiosidades que são as características técnicas do filme, é preciso sublinhar que não há qualquer efeito handheld na captura de imagens, apesar de partirem de um telemóvel de 2009. O plano em tripé, o pan, o travelling são perfeitamente usados, tal e qual estivéssemos perante uma câmara normal. A certo ponto, acho que todos nos apercebemos de que estamos também perante algumas das paisagens mais belas na Terra: a roadtrip que os protagonistas (um deles invisível) empreendem no filme leva-os para vale verdejante atrás de vale verdejante, nascentes, rios, vistas sem fim. Quão curioso é então o facto de as vermos numa resolução estilo 144p, com um constante heartbeat hertziano do sensor de imagem a actualizar-se. Ou seja, dir-se-ia que não vemos quase nada destas belíssimas paisagens. E, no entanto, o filme está cheio de planos maravilhosos e imediatamente memoráveis. Não estaremos, adicionalmente, protegidos de uma “overdose” de realidade e de resolução que decorreria de tanta beleza?

A experiência duracional das 3h é notável, e é um filme que deve ser visto e revisto sem ruído ou distrações. Profundamente inspirador e sonhador.

Rafael Fonseca

 

Noite Escura de Joao Canijo
Rizoma

A dança dos corpos e da câmara – a beleza suja do cinema. Ponto alto pré-anunciado da programação do IndieLisboa 2026, o restauro de Noite Escura, numa versão integral e nunca antes vista (inclusive na sua passagem inaugural na primeira edição do festival), serviu a um tempo como homenagem a João Canijo, cineasta que nos deixou no início deste ano; um elogio fúnebre, sim, mas também uma tremenda prova de vida, de uma filmografia que só perto do fim da vida do realizador logrou o reconhecimento devido (e, como tantas vezes acontece, apenas após a sua premiação em terra estrangeira), uma obra singular no panorama português e que merece ser alvo de reapreciação e redescoberta.

As almas perdidas da noite conduzem-nos pela tragédia clássica e mundana do filme, um submundo familiar mesmo a quem nunca o viveu. A família nuclear não existe em Noite Escura, desintegrou-se muito antes da sua destruição final, a que assistimos em tempo quase real. Carla (Beatriz Batarda), a filha mais velha com o peso do mundo aos ombros, assiste impotente à monstruosidade do pai (Fernando Luís), à ignorância deliberada da mãe (Rita Blanco) e à perda de inocência da irmã mais nova (Cleia Almeida), uma jovem com um sonho que é à partida uma miragem condenada à morte – fenomenal o texto da cena em que a adolescente Carla, ciente do que lhe vai acontecer, habita o sonho de ir cantar para Espanha uma última vez, ladeada pelo pai que chora silenciosamente para expiar em vão a culpa, a câmara a filmar em registo próximo, os reflexos no espelho de ambos, vivos mas como se de fantasmas se tratassem já.

O trabalho de imagem é soberbo, uma fotografia de cores saturadas e enfermas, próprias daquele lugar de cantorias românticas e conversas paralelas que são, todas elas, ilusões. Os movimentos de câmara desorientadores são milimetricamente executados, a ação capturada em planos apertados e claustrofóbicos que não nos deixam escapar, porque também as personagens não têm escapatória. Noite Escura (e a restante filmografia de Canijo) é uma chapada de luva branca aos lugares comuns e percepções sobre o cinema português, uma obra crua, cruel e, mesmo passados 20 anos, arrebatadoramente lúcida sobre o país que somos. Aprendamos com ela.

André Filipe Antunes

 

Lo demás es ruido de Nicolás Pereda
Silvestre

Um engarrafamento. Ou uma sucessão deles. Lo demás es ruido filma a conjunção de várias gerações de compositoras por ocasião de uma entrevista a uma delas. No apartamento de Tere (Teresa Sánchez), a amiga de Rosa (Rosa Juárez Vargas), a entrevistada, e a mais velha das três, moram um sem número de distracções. Um cão ladra sem parar, sucedem-se os cortes de energia, abundam os problemas técnicos. A história parece ser tudo menos a da entrevistada, na verdade. Tere, mãe de Luisa (Luisa Pardo), é compositora há largos anos também, mas apenas para intervalar a necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro e sobreviver. Já Luisa encara a música como uma necessidade fisiológica, algo que serve para exprimir o que não é possível dizer por palavras.

As três convergem em casa de Tere a propósito da entrevista de Rosa. O ambiente, que os jornalistas pressupunham ser natural para Rosa, é, na verdade, profundamente artificial. Aquela vida não é a sua, aquele bairro por onde pedem que passeie não é o seu, aquele cão que ladra não é o do seu vizinho. Rosa compõe para seguir o que as mulheres do seu passado começaram. Para estas três mulheres, a música parece ser algo marginal nas suas vidas, mas é, na realidade, aquilo que as confere presença no enorme engarrafamento da Cidade do México. Se Tere e Luisa partilham uma vida naquele apartamento, a sua união está marcada pelo abandono do pai de Luisa e ex-marido de Tere. Para ele, a música é uma forma de nostalgia e de de auto-engrandecimento, a forma de criar uma relação artificial entre si e a família que abandonou.

Lo demás es ruido sublima a cacofonia de sons e ruídos em torno destas três mulheres. O vizinho de baixo que se queixa a Tere do volume do som do seu contrabaixo pela manhã e a ameaça com uma queixa à associação de moradores parece alheio ao incessante barulho do cão que ininterruptamente ladra ali ao lado. A estas três mulheres cabem papéis de marginalização na sua própria vida. Quando Tere se queixa da letargia da filha, esta não hesita em acusá-la de não saber comunicar consigo. Lo demás es ruido é também, e talvez sobretudo, um filme sobre problemas de comunicação.

Hugo Dinis

 

Adorei esta duração de 70 minutos para uma longa — é leve e refrescante, o que são características ainda mais fortes quando o filme é tão denso e tão rico. A primeira setpiece do filme, que apresenta uma entrevista improvisada de um realizador de documentário a três mulheres compositoras de música contemporânea, é de uma atenção e debruçamento ao diálogo e à palavra que me evocou memórias de há dez anos atrás a ver La Academia de las Musas (2015, José Luis Guerín) — mas este filme de Nicolás Pereda é muito mais brincalhão. 

Ao longo desta entrevista, uma de várias, da personagem-documentarista às sujeitas-que-se-inventam, pois desde logo percebemos que uma ou duas das compositoras podem estar a aldrabar um bocadinho, por oposição a uma terceira sem a menor capacidade de dizer algo interessante sobre si mesma, vamos sendo consistentemente interrompidos por cortes de luz, bebés e cães no prédio, idas ao café, visitas, desventuras, trânsito. É um filme sobre comunicação, obstáculo, cortes, ruído, evidentemente, mas além de uma grande execução artística — estamos perante uma qualidade de encenação grande, com rimas cruzadas e emparelhadas constantes entre os elementos, callbacks, payoffs — está tão cheio de pequenos momentos que não são menos iluminativos em relação a estas personagens do que o são em relação à nossa própria compreensão delas, à nossa própria experiência de desembrulhar o filme. Como um texto que se comenta a ele mesmo, e que integra o nosso comentário interior. Um filme “interactivo”?

Rafael Fonseca

 

Kiss and Be Friends de Ana Baldini & Roly Witherow

Os amigos dos meus amigos, meus amigos são. O provérbio soa mais escorreito em francês, e serviu, em 1987, para abrir o último dos seis capítulos das Comédies et proverbes – L’Ami de mon amie – de Éric Rohmer, referência que parece surgir-nos quase inevitavelmente associada a este Kiss and Be Friends. Também neste filme é desses encontros au hasard, desses desencontros, que se faz o conto. Como de uma cidade – o centro de Lisboa – aqui tornada nova, quadro curioso, pelo olhar estrangeirado de duas estudantes de arte vindas de Londres, com Sofia, portuguesa, a servir de guia à sua melhor amiga, Amandine, francesa. Ambas vestem adequadamente o seu “papel”. A uma portuguesa mais reservada, de cabelo escuro, responde uma francesa fogosa, sempre decidida e um tanto impositiva. E é dessa amizade desajustada que se constrói a trama do filme.

As intersecções sociais aqui propostas serão, afinal, bastante simples: um encontro na praia potencia outro encontro na cidade, motor do conflito entre as duas amigas. Mas se a “história” de Kiss and Be Friends é, no fundo, muito fácil de contar – de uma simplicidade e entrega mais contemporâneas, sem os necessários emaranhados amorosos que alimentavam os filmes de Rohmer -, o romance atravessado pelas ocorrências do filme é aquele que as duas estudantes pareciam, afinal, já trazer na bagagem. Uma paixoneta não correspondida, transformada em brincadeira jocosa pelo objecto amado. Sofia gosta de Amandine, e Amandine faz de Sofia “gato-sapato” enquanto se diverte com os diferentes rapazes que encontra pelo caminho.

Este será, enfim, um fim-de-semana completamente falhado para ambas. O castelo “da Disney” fechado (que programa tão inesperado), e o príncipe português de uma noite… adormecido pelo álcool. Pelo meio, vistas da cidade por olhos que aprenderam a reapreciá-la de fora para dentro. E um registo sempre assumidamente ligeiro, que não parece acreditar na gravidade daquele amor frustrado. Kiss and Be Friends nunca pretende muito mais do que pintar com graça estes romances passageiros de Verão e, perante a desolação, ou inação, de Sofia, o protagonismo acaba entregue àquela “cabra francesa” (atenciosamente…) que tanto lhe troca as voltas.

What the fuck, pare o carro! ” E o melhor é que tudo volte então ao seu devido lugar. Faz-nos bem que certos filmes pareçam divertir-se tão descontraidamente com as peculiaridades das suas personagens. E este enamora-se de uma cidade, das suas vistas, e de uma língua franca continuamente moldada pelos sotaques nativos de cada um.

Miguel Allen

 

Conference of the Birds de Amin Motallebzadeh
Competição Internacional

A conferência dos pássaros é uma noção que se refere ao poema de Farid al-Din Attar, no qual um conjunto de aves embarca numa jornada para ir de encontro a um líder apenas para descobrir que essa figura já residia entre eles. Ao vermos este Conference of The Birds, a primeira longa de Amin Motallebzadeh, realizador radicado em Hamburgo, ficamos com a nítida noção da sua escolha para servir de mote a um conjunto de imagens que se amontoa sem particular estrutura ou significado global. Motallebzadeh trabalha sob a premissa da morte de um treinador de uma equipa de futebol que representa muito mais do que um simples líder no seu conjunto. A perda da sua figura leva a uma desorientação geral dos processos colectivos de trabalho e quotidiano, mas sobretudo a uma incapacidade individual de cada qual saber lídar com a representação da sua ausência.

Os diversos elementos desta comunidade comunicam entre si de forma atabalhoada, em busca de significados partilhados, mas sem qualquer noção da sua direcção. Tudo isto é apresentado por Motallebzadeh de forma não linear. De facto, é o próprio realizador a apontar que a ideia de fazer um filme sobre a perda de uma figura de liderança apenas surgiu já após o começo da sua produção. À medida que as imagens se juntam para a montagem de uma narrativa circular, Conference of The Birds assume-se como um objecto difuso, mais difícil de apreender do que propriamente de fazer sensibilizar. O espectador apercebe-se do sentimento de deriva, mas raramente possui uma qualquer noção de interesse perante a conjugação de imagens introspectivas. O resultado é um trabalho esteticamente agradável de apresentar no circuito festivaleiro, mas pouco dado a algum tipo de memória perene.

Hugo Dinis

 

This Is Spinal Tap de Rob Reiner
Retrospectiva Mockumentary

Encontrarmo-nos com This Is Spinal Tap é descobrir a cultura pop dos últimos quarenta anos. Mais do que a dinâmica do spoof, é o tipo de humor que Rob Reiner veio cristalizar, com a chancela de Saturday Night Live e de The Simpsons, que deixou um lore maior do que o próprio filme. Christopher Guest, guitarrista dos Tap, criou uma afinidade tão grande pelo género que viria a fazer pelo menos mais três mockumentaries (Waiting for Guffman, Best in Show, e A Mighty Wind). Reiner abandonaria a comédia pura para se centrar em veículos para o seu sentido dramático inato. Mas os Tap nunca deixaram de fazer parte do legado que deixaram estes dois ao cinema contemporâneo.

This Is Spinal Tap é um filme que trabalha a dois níveis para nos conquistar. Aquilo que aparece enquadrado pela câmara de Reiner, o rockumentary que levou a descobrir o magnetismo de uma banda que o seu Marty DiBergi achou ser mais barulhenta que as outras, e aquilo a que é apenas aludido. No ecrã vemos as histórias que a banda se conta a si mesmo. A mitologia da sua virilidade, que é tão forte que inadvertidamente repele as mulheres por receio instintivo. Fora do ecrã está a verdadeira banda, contudo. Um frontman inseguro, um guitarrista reprimido, um baixista a viver a infância aos 40.

Mas o verdadeiro crédito de This Is Spinal Tap está na forma como nos liga à banda. Os Tap, por entre todo o seu ridículo e absurdo, são as mesmas crianças sonhadoras que todos fomos e, de certa forma, ainda somos. Ou, nas palavras de Roger Ebert, “they’re not bad men; they’re holy fools, living in a dream that still somehow, barely, holds together for them“. Também será por isso que Guest, Reiner, mas também Michael McKean e Harry Shearer sempre serão, no fundo, Spinal Tap. Ainda que ridículos, somos sonhadores.

Hugo Dinis

 

18 Buracos Para o Paraíso de João Nuno Pinto
Competição Nacional

Há qualquer coisa de podre naquela herdade ainda antes de o filme começar. A terra está seca, a família está partida, as relações parecem contaminadas por dinheiro, herança e ressentimento. 18 Buracos para o Paraíso vive muito desse ambiente: um espaço fechado, quente, quase sufocante, onde ninguém parece realmente livre.

João Nuno Pinto filma a decadência de uma certa ideia de propriedade, de família e de poder. A possibilidade de um campo de golfe, quase absurda naquele cenário de seca, funciona como imagem forte de um país que continua a vender o pouco que ainda tem, mesmo quando já não há água, futuro ou vergonha. O melhor do filme está aí: na forma como transforma a herdade num território moral, e não a usa apenas num cenário. A seca, o fogo, a terra e a casa carregam um peso simbólico evidente, mas o filme consegue muitas vezes fazer com que esses elementos nasçam do próprio ambiente, sem parecerem apenas ideias colocadas em cima das personagens. Quando se concentra nos gestos, nos silêncios e na tensão entre corpos que já não sabem como habitar o mesmo espaço, ganha uma força seca e incómoda. Há aqui uma ambição que se sente e que raramente se torna gratuita. 18 Buracos para o Paraíso fala de um país cansado, de uma classe agarrada aos seus restos e de um futuro que parece chegar já estragado. Pode não ser sempre subtil, mas tem matéria, tem atmosfera e tem uma ferida real por baixo da superfície.

É um filme de decadência, ressentimento e calor acumulado. Arde devagar, mas arde.

Rita Costa

 

O realizador João Nuno Pinto volta a lançar-se num universo caracteristicamente português, aquele da família de uma antiga classe alta cuja fortuna escasseia. A herdade do Alentejo encontra-se em estado degradado com os azulejos partidos da piscina, a sua cozinha muito antiga e a parca manutenção de uma grande propriedade. Os irmãos dividem-se entre o valor monetário e o emocional.

A quinta ocupa um lugar idílico: o afastamento da azáfama lisboeta, o regresso à vida familiar que ameaça extinguir-se com o título de propriedade. A questão da venda da propriedade deixa à vista os interesses dos irmãos Francisca (Margarida Marinho), Catarina (Beatriz Batarda) e Lourenço (Jorge Andrade) enquanto são confrontados com a própria moralidade por Susana (Rita Cabaço), a filha da caseira que, com a venda, ficaria sem qualquer tipo de compensação justa pelas suas décadas de serviço à família. São, ainda, contaminados por um incêndio florestal fruto da realidade ambiental que tem devastado o interior do país ano após ano.

João Nuno Pinto repete o dia do deflagrar do incêndio três vezes através da perspectiva de Francisca, que se recusa a vender a casa onde cresceu; de Catarina, que precisa desesperadamente de dinheiro; e de Susana, que pretende encontrar um lugar onde a mãe possa viver os seus últimos anos com dignidade. As três atrizes são absolutamente magnéticas, aproximando-nos e fazendo-nos torcer pelas suas personagens, nem que somente por um momento. Cada narrativa culmina com uma chuva de cinzas tão real que se torna metafórica na mente citadina, já que é acompanhada de situações inusitadas. Distante da piscina da herdade que a família indecisa frequenta (e como não relembrar Lucrecia Martel?) está Susana, também ela moradora da capital, que mantém o filme num plano concreto com o seu vínculo e preocupação com os habitantes da aldeia. O filme funciona neste antagonismo entre um individualismo patológico e uma noção comunitária aliada a uma vontade de vingança e pertença. Ainda que tropece por alguns lugares-comuns, 18 Buracos para o Paraíso é uma boa sátira no retrato das dinâmicas de classe portuguesa que conta com uma excelente banda sonora e um registo de imagem muito interessante, ainda que alusivo a outras obras.

Maria Inês Opinião