IndieLisboa 2026 – Dia 1: The Loneliest Man in Town, Punishment Park, Obsession, The Bewilderment of Chile, O Velho Salazar, Le Cri des Gardes

EquipaMaio 4, 2026

O mês de abril despediu-se com o início de mais uma edição do IndieLisboa. A 23ª edição do festival prolonga-se por toda a próxima semana, mas os primeiros dias deram já a provar alguns dos principais destaques das várias secções do evento.

A cerimónia de abertura decorreu com a habitual pompa e azáfama no Cinema São Jorge, onde após os tradicionais discursos os presentes puderam assistir à estreia nacional de The Loneliest Man in Town, produção austríaca e um dos destaques da última Berlinale. Uma ficção com laivos documentais e influência clara do cinema de Aki Kaurismäki, o filme da dupla Tizza Covi/Rainer Frimmel centra-se na figura de um velho músico rockabilly viúvo que, confrontado com as forças da especulação imobiliária moderna e um despejo iminente, resolve cumprir o sonho de ir à América, desfazendo-se dos bens materiais que o prendem a Viena e à vida que deixa para trás.

A partir daqui, o fim-de-semana prolongado desdobrou-se em mostras pertencentes às várias secções – destaque para o mockumentary, com exibições de obras como Punishment Park ou Real Life, a sessão especial de O Velho Salazar, novo trabalho documental de João Botelho sobre o golpe militar de maio de 1926, Obsession na tradicional Boca do Inferno, secção dedicada ao terror, Newport and the Great Folk Dream no IndieMusic, e, nas mostras competitivas, propostas como Blue Heron, Dry Leaf (competição internacional), Segundo Amor ou Óculos de Sol Pretos (nacional). A Tribuna do Cinema marcou presença nestas e noutras sessões, e continuará a cobrir todos os acontecimentos do IndieLisboa até ao próximo dia 10 de maio.

Críticas aos seis filmes que vimos no primeiro dia do IndieLisboa.

 

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The Loneliest Man in Town de Rainer Frimmel & Tizza Covi
Sessão de Abertura

Há dois traços que caracterizam o filme da dupla de realizadores Tizza Covi e Rainer Frimmel e que os mesmos procuram equilibrar sem comprometer a identidade: a aproximação evidente ao cinema de Aki Kaurismäki e a nostalgia por um tempo que já passou. The Loneliest Man in Town acompanha Al Cook, interpretado pelo próprio octogenário músico de blues vienense que idolatra Elvis Presley. Al vive sozinho no apartamento de um prédio onde é o único inquilino. Adquirido por um grupo de investimento, Al procura resistir às pressões dos novos proprietários do edifício, que almejam desalojá-lo para procederem à sua demolição. O filme retrata então a resistência de um indivíduo que vive fora do seu tempo, profundamente apegado às suas guitarras, pianos, posters, vinis e cassetes VHS, como último reduto da sua história e legado. A dupla de cineastas detém-se vagarosamente no ritualista quotidiano do artista, conjugando eficazmente a leveza do humor deadpan e a melancolia inerente às circunstâncias da vida. Se, no final, poderemos sentir um leve reverberar do pedal da nostalgia, a verdade é que é difícil ficar indiferente à honestidade e complexidade do retrato de um subtilmente carismático Al Cook.

Bruno Victorino

 

Punishment Park de Peter Watkins
Retrospectiva Mockumentary

A celebração do cinema de Peter Watkins passa sobretudo pela sua acepção contemporânea como arte de antecipação. Tendo em conta o panorama politico actual, é difícil argumentar o contrário. Mas importa qualificar a presciência de trabalhos como Punishment Park enquanto reflexo de uma futurologia de outros tempos. Ao olharmos para a sua estrutura, somos confrontados com os papéis sociais das posições de poder e de violência. No topo, o poder político encontra-se largamente ausente, apenas na alusão sonora a boletins noticiosos e colecções de figuras contemporâneas (Nixon mantém-se como a representação de um sistema de repressão policial inteiramente mais sofisticado do que no seu passado). A classe profissional, representada pelo painel de figuras que vai julgando os candidatos à punição pela entrada no parque titular, dirige os tradicionais argumentos repressores de um sistema que se auto-confirma. A legalidade duvidosa destes procedimentos em tribunal é levada a cabo por um corpo policial crescentemente sedento de vingança social e violência sancionada pelo Estado.

E, claro, na base estão os prisioneiros. Votados a lutar pela sobrevivência numa espécie de jogo pela própria vida, dividem-se em grupos marcados pela forma como encaram a utilização da violência. Watkins mostra-nos que esta divisão é, em última análise, um exercício de enorme futilidade. A raiva decorrente do seu olhar exterior, expressado inteligentemente através do artifício do mockumentary de reportagem, canalizar a mesma visão insidiosa de Pasolini em Saló. Os participantes neste jogo estão condenados, e, com eles, levam toda a comunidade. A bandeira americana que procuram, o objectivo de todo o parque punitivo, é apenas a miragem de um sonho que se abateu sobre uma geração de jovens. Mas se a presciência de Watkins na visão de futuro tem paralelos com o aqui e agora, particularmente o americano, estes jovens idealistas, em busca de criar uma sociedade nova, não são reconhecíveis aos olhos de hoje. A violência permaneceu, contudo. Tão brutal como nunca.

Hugo Dinis

 

Obsession de Curry Barker
Boca do Inferno

A chamada epidemia de solidão masculina tem sido objecto de repetidas parábolas conceptuais da parte do cinema anglo-saxónico de terror e suspense nos últimos anos. Títulos como Men (2022) ou It Follows (2014) colocaram o ênfase na questão de facto no evento da perseguição feminina. Este Obsession, primeiro filme do youtuber Curry Barker, entra no promontório masculino pela subversão do seu conceito. O desejo de conexão amorosa masculina a todo o custo representa não apenas um perigo para a mulher, mas também um preço a pagar pela remoção de agência ao objecto amoroso. Em Obsession, Michael Johnston é um jovem introvertido em busca do amor incondicional de Inde Navarrete e que o obtém através de um artefacto que concede um único desejo ao seu portador.

O conceito estilo pata-de-macaco não deixa de se revelar curto para suportar o peso de um filme de duas horas, mas Barker mostra-se surpreendentemente ágil na forma como vai moldando a narrativa para conseguir um efeito de crescendo na sua descida para o absurdo. Em parte, muito se deve ao casting de Navarrette como a mulher desejada que se converte em farrapo humano no cumprimento dos desejos amorosos de Johnston. Contudo, a forma decidida com que Barker assume a negação de saídas limpas para a toxicidade da ligação entre o casal não deixa de conferir a Obsession uma vilania negacionista de um populismo de final feliz.

Ao contrário de outros registos e variações no tema, Obsession conjuga a inocência envergonhada do seu protagonista com, inevitavelmente, a sua culpa em todo o lamaçal moral criado pelo desejo de Johnston. O seu papel anti-heróico ajuda a complexificar as incidências do ponto de vista da sua identificação com o espectador. Não será difícil revermo-nos a nós ou a alguém próximo no papel de perseguidor ou perseguido amoroso. Contudo, à medida que Navarrette se vai colocando no limiar da sanidade, também nós somos forçados a reavaliar o nosso próprio papel em relações actuais ou passadas, amorosas ou dependentes. O que resulta daqui, apesar de tudo, é um filme que se mostra apropriadamente eficaz na resolução de uma premissa transparente e directa, capaz de a transportar durante um longo período com relativa coerência tonal.

Hugo Dinis

 

É sem dúvida uma das grandes surpresas do ano e até ver, numa época em que a esmagadora maioria do cinema produzido é francamente medíocre, um dos melhores de 2026. O filme de terror de Curry Barker coloca no centro da questão as relações amorosas tóxicas baseadas em possessividade, insegurança e obsessão que, no caso, se juntam por co-dependência deixando bem claro o seu vilão inicial à luz das interpretações mais modernas deste tipo de dinâmicas. O homem, Bear (Michael Johnston), incorpora o olhar masculino (na linguagem de hoje o dito male gaze) que sonha namorar com Nikki (excelente interpretação de Inde Navarrette), sua amiga e colega de trabalho. Em conversas com o seu amigo Ian sobre como abordar o assunto, Bear acaba por pedir o desejo mágico de Nikki se apaixonar por si, cartoonizando e materializando a metáfora. Nikki transforma-se então na namorada obsessiva, possessiva, insegura e violenta, criando assim duas personagens que todo o espectador irá, de uma forma ou outra, reconhecer.

Curry Barker tem assim o mérito de, na senda dos temas trazidos por filmes como It Follows (2014), Smile (2022), Talk to Me (2022) ou Resurrection (2022), tornar palpável o horror das relações tóxicas, com elementos sombrios, frios, clínicos, aterradores, sempre de mão dada com um humor negro afinadíssimo e um coração grande que irá fazer o espectador contorcer-se de desconforto e arrepio na cadeira. Além de todo este rico subtexto que parece estarmos sempre à procura com uma lupa para conseguir legitimar intelectualmente o cinema, a verdade é que Obsession é um filme tremendamente eficaz e divertido para os amantes de cinema de género. O terror, género que sempre corporizou as fobias e medos sociais das suas épocas desde os anos 1910, continua a ser o terreno mais fértil para os cineastas darem azo à criatividade. Enquanto apaixonado pelo género, e falando na primeira pessoa (raramente o faço), o filme de Curry Barker é facilmente o filme de terror de nicho mais interessante do último par de anos.

David Bernardino

 

The Bewilderment of Chile de Lucía Seles
Silvestre

A cineasta argentina Lucía Seles é certamente uma das vozes mais singulares e entusiasmantes do cinema contemporâneo. Os seus filmes são autênticas city symphonies onde vão despontando personagens e situações que, frequentemente, se posicionam no limbo entre a realidade e a ficção, o documentário e a encenação. Se, em Avenida Saenz 1073, um filme também de 2025, podemos encontrar um retrato de um ginásio em Buenos Aires e do seu proprietário (representado pelo próprio), e temos um vislumbre mais direto de Seles, que surge também à frente da câmara, em The Bewilderment of Chile o caso muda de figura. O filme gira em torno da Confeteria Ritz em La Plata, onde vamos acompanhando as peripécias da família que gere o espaço. Aqui, todos os personagens são interpretados por atores, o que nos leva a julgar que todas as cenas terão sido encenadas. No entanto, contrapondo The Bewilderment of Chile com Avenida Saenz 1073, é difícil discernir grandes diferenças. É a forma e estilo da realizadora que criam este efeito. A montagem acelerada, os comentários de Seles ao desenrolar dos acontecimentos (que surgem como pequenas legendas no canto do ecrã) e, fundamentalmente, a ilusão de cinema direto que a câmara e as imagens da cineasta nos suscita. Realidade ou ficção, ficamos sobretudo com os mais de trezentos autocarros que vão atravessando o plano, compondo um mosaico desfragmentado daquela cidade argentina, onde os pequenos dramas familiares espontaneamente despontam, transportando-nos para o idiossincrático génio de Lucía Seles.

Bruno Victorino

 

O Velho Salazar de João Botelho
Rizoma

Hão-de dizer muito mal de mim”, António Oliveira Salazar
Assim será”, João Botelho

Estreia mundial no IndieLisboa 2026, secção Rizoma, O Velho Salazar, de João Botelho, surge como o reverso de O Jovem Cunhal: depois de filmar Cunhal, o realizador volta-se agora para Salazar, a propósito dos 100 anos da revolução militar de 1926, acontecimento que abriu caminho à ditadura portuguesa.

Antes de entrar propriamente na farsa, Botelho faz questão de mostrar de onde vem a matéria do filme. Os livros aparecem no início, quase como prova documental, e o realizador sublinha que as frases ditas pelas personagens não foram inventadas, mas retiradas dessa mesma investigação. O filme abre ainda com uma imagem de arquivo de Salazar sentado na relva, encostado a uma árvore, de pernas estendidas, deixando ver um buraco na sola do sapato. É uma entrada perfeita: antes do ditador, aparece o homem pequeno, gasto, quase ridículo, já pronto para ser desmontado pela comédia.

O Velho Salazar não é um filme solene, nem uma revisitação pesada da figura do ditador. É, antes de tudo, uma comédia. E talvez seja precisamente aí que encontra a sua inteligência. Botelho olha para Salazar já velho, diminuído, caído da cadeira, preso a uma espécie de teatro doméstico onde tudo à sua volta parece continuar a funcionar como se o poder ainda estivesse intacto. O ridículo nasce desse desfasamento: o corpo já falhou, mas a reverência continua. À volta dele aparecem figuras como o médico, o calista, o conselheiro, e a governanta. Todos orbitam aquele velho corpo com uma seriedade que se torna cómica. Há qualquer coisa de profundamente portuguesa nessa cerimónia do respeito, nessa obediência quase automática, nessa forma de continuar a servir uma autoridade mesmo quando ela já só existe como sombra. O filme entende que a ditadura também pode ser exposta pelo absurdo, não apenas pela denúncia. A encenação é rígida, teatral, muito apoiada na palavra, mas essa rigidez funciona bem. Botelho constrói um espaço fechado, quase de farsa, onde cada figura parece presa ao seu papel. O humor não suaviza Salazar; pelo contrário, desmonta-o. Ao mostrar o ditador como velho, dependente, cercado por pequenas vaidades e gestos servis, o filme retira-lhe a aura histórica e devolve-lhe uma materialidade grotesca. O mais interessante é que O Velho Salazar não transforma a comédia em leveza. Rimos, mas o riso não limpa nada. Fica sempre por baixo uma ideia incómoda: a de que certas formas de servidão continuam vivas, disfarçadas de respeito, prudência ou bons costumes. É um filme seco, estranho, muito mais vivo do que parece à primeira vista. Botelho monta uma farsa sobre um país que ainda não sabe bem como rir dos seus fantasmas.

Rita Costa

 

Le Cri des Gardes de Claire Denis
Rizoma

A fase mais recente da carreira da cineasta francesa Claire Denis tem sido marcada pela irregularidade. A receção divisiva de Le Cri des Gardes adivinhava mais um hesitante passo nesse sentido. O seu mais recente filme retoma uma preocupação recorrente no seu cinema, a problematização do colonialismo, que encontramos em filmes como Chocolat e White Material. Baseado numa peça de Bernard-Marie Koltès, Le Cri des Gardes desenrola-se em apenas uma noite num estaleiro de construção em território africano. Um extraordinariamente estóico Isaach de Bankolé (Alboury) vem reclamar o corpo do seu falecido irmão a Matt Dillon (Horn), o gerente do espaço. Separados pela vedação que delimita o estaleiro, o núcleo principal do filme é o diálogo e negociação que decorre precisamente nesse local entre os protagonistas. À sua volta orbitam situações e personagens que nem sempre são capazes de sustentar a tensão que paulatinamente se entranha na narrativa. Mas, ainda que seja inegável a obviedade das metáforas e signos propositadamente explícitos, a verdade é que Denis continua a demonstrar capacidade para, através da violência da montagem, e do confronto entre os corpos dos seus atores, encontrar imagens e sequências que permanecem na retina do espectador. Le Cri des Gardes é um thriller que invade o território do b movie, alicerçado na dialética suscitada pelo confronto neo-colonial entre o homem negro e o homem branco, que abraça o óbvio e caricatural, consciente de quem permanece perpetuamente na margem, à sombra.

Bruno Victorino