in memoriam J-L G (1930-2022)

Miguel AllenSetembro 13, 2022
On allait souvent au cinéma. L’écran s’éclairait et on frémissait.
Mais encore plus souvent aussi, Madeleine et moi, on était déçus.
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Mais encore plus souvent aussi, Madeleine et moi, on était déçus.
Les images dataient et sautaient. Et Marilyn Monroe avait terriblement vieilli. On était tristes. Ce n’était pas le film dont nous avions rêvé. Ce n’était pas ce film total que chacun parmi nous portait en soi. Ce film qu’on aurait voulu faire. Ou, plus secrètement sans doute, qu’on aurait voulu vivre.
Masculin Féminin
Forever Godard.
Morreu aquele que foi seguramente o mais importante realizador de cinema da segunda metade do século XX. Godard é hoje amplamente recordado pelos seus momentos, digamos, mais simpáticos, mas a sua influência estende-se bem além dos posters que enchem os quartos de jovens cinéfilos em flor. Uma filmografia heróica e extensa, nunca deixando de se colocar em questão e de colocar questões, na qual praticamente não ficou campo cinematográfico por cobrir.
 
Podemos dividir a obra de Godard em três fases, mesmo se não particularmente exactas. Os “anos Cahiers”, entre 1959 e 1967, a partir do gesto inaugural de À Bout de Souffle, que formaliza (e romantiza) uma primeira cisão com o cinema do Passado, prolongando para a tela o seu trabalho de crítico. Por entre múltiplos desvios (musical, noir, grande produção e cinema de baixo orçamento) e tantos filmes emblemáticos, esta fase “jovem” (e a mais feliz?) de Godard terminaria com Masculin-Féminin, um filme charneira também a nível formal, em prenúncio da militância dos anos seguintes.
 
Os “anos Mao”, perdidos num extremismo radical, foram uma etapa revolucionária, hoje algo maldita, que o ocuparia entre 1968 e 1978, mais ou menos de La Chinoise a Ici et Ailleurs. Pelo meio, muito passaria pela criação e dissolução do Grupo Dziga Vertov, e alguns dos filmes tanto mais livres como definitivamente mais aborrecidos ou obtusos de Godard.
 
O badalado renascimento comercial do autor chega com Sauve Qui Peut (La Vie), o seu “segundo primeiro filme”, nas palavras do próprio, com um regresso às salas de cinema que é sinónimo tanto duma maior tranquilidade pessoal como de um evidente e perene pessimismo na sua visão do mundo. Esta nova fase não seria tanto um corte, mas sobretudo construída em continuidade com a obra completa que a precede. A presença de Anne-Marie Mièville terá tido um impacto considerável no novo desvio, sendo que Ici et Ailleurs, co-realizado entre os dois (mas definitivamente um filme de Godard) evocava já um distanciamento para com a militância de 68. A partir 1979-80, nas suas produções “comerciais”, Godard apresenta um cinema talvez menos impulsivo ou frenético, mais ponderado e maduro, mas sempre livre e radical, onde o seu “estilo” ecoa de forma abrangente toda a sua obra anterior. A partir do final da década de 80, as experimentações em vídeo (que têm a sua origem nos projectos televisivos da década de 70) tornar-se-iam o terreno ideal para que Godard rencontrasse uma maior violência formal que caracterizara a sua “juventude” de  60 – sem quaisquer concessões na procura por um cinema definitivamente novo.
 
Rien n’est aussi commode qu’un texte
Et rien n’est aussi commode qu’un mot dans un texte.
Nous n’avions que du livre à mettre dans du livre.
Que serait-ce quand il faut dans un livre, dans du livre, mettre de la réalité ?
Et, au deuxième degré, quand il faut dans la réalité, mettre de la réalité ?
Qu’arrive-t-il toujours mon ami ?
Le soir tombe. Les vacances finissent.
Il me faut une journée pour faire l’histoire d’une seconde.
Il me faut une année pour faire l’histoire d’une minute.
Il me faut une vie pour faire l’histoire d’une heure.
Il me faut une éternité pour faire l’histoire d’un jour.
Charles Péguy, Clio
citação que abre Le Livre d’Image
Será sempre mais fácil falar de Godard repetindo as habituais apologias ao apaixonante A Bout de Souffle, ao lírico, mas particularmente invulgar, Le Mépris, ou à variada colecção de filmes com a belíssima Anna Karina – e é verdade que nunca será demais apontar Pierrot Le Fou como o (epi)centro dos anos 60. No entanto, uma leitura de Godard é talvez mais completa a partir do filme com o qual nos deixou, Le Livre d’Image.
 
Epílogo duma carreira rica em referencialismo, Le Livre d’Image surge como possível resposta a uma « terre surchargée de lettres d’alphabet (…) étouffée de connaissance » (Anne-Marie Miéville). Filme que “queima os olhos”, é um testamento em desespero à arte do século passado (o cinema), uma obra aberta, difícil, de raccords frustrados, construída de imagens mutiladas, isoladas por entre planos negros fechados. Uma obra frustrante, mas um filme que captiva o nosso pensamento e imaginação, que nos desafia, finalmente, a pensar. E, nesse sentido, não poderia ser uma conclusão mais adequada a uma filmografia de 60 anos que se confunde com a própria história do cinema desde a segunda metade do século XX. Autêntica quimera cinematográfica, o último dos filmes, Le Livre d’Image terá de ser visto (bem) mais do que uma vez para que possa enfim ser relativamente compreendido. Mas uma coisa é certa: «pour [sa] part, [Godard sera] toujours du côté des bombes.»

Miguel Allen