Immaculate, de Michael Mohan: Abençoado e Sangrento Pastiche

Tem sido um período forte para Sydney Sweeney que continua a cimentar a sua posição de estrela em ascensão do cinema norte-americano. Depois de presenças fortes em série como Euphoria ou White Lotus, passando pelo mais discreto e interessante filme Reality, Sweeney atingiu o estrelato mainstream com a comédia romântica Anyone But You. Regressa agora ao terror, terreno no qual já tem alguma história, para Immaculate, um objecto fílmico bastante interessante que provavelmente não teria captado tanta atenção se não fosse este fenómeno de ascensão da actriz.

Immaculate é um filme ciente do que tem em mãos ao trazer a nova menina bonita de Hollywood para interpretar uma freira, símbolo de um certo fetichismo por vezes demasiado evidente. Talvez seja esse o ponto menos bem conseguido do filme que não perde uma oportunidade para colocar a actriz em camisa de noite transparente ou a tomar banho alimentando essa fetichização. Talvez seja por outro lado esse também um ponto forte, indo ao encontro de uma linguagem mais série B do cinema de terror norte americano, procurando consolidar Sweeney como uma verdadeira scream queen do cinema de género.

Aquilo que Michael Mohan, realizador sem grandes créditos mas que em 2021 já havia assinado o mistério The Voyeurs também protagonizado pela actriz, fez de melhor em Immaculate foi precisamente saber rentalibilizar os vários aspectos do filme de terror, desde a sua protagonista, aos seus temas, passando pelas referências cinematográficas. Mohan conseguiu colar ao filme uma certa aura blasfema e transgressiva ao abordar um convento católico, a vida de reclusão feminina das irmãs, o olhar masculino sobre elas, e ainda temas como a maternidade. Nada que não tenha sido já visto um milhão de vezes no cinema de terror pelo que a reacção não faz muito sentido, mas o marketing do filme, em prol de um certo voyeurismo, soube jogar isso a seu favor, e o resultado é um razoável êxito de bilheteira que provavelmente de outra forma não aconteceria.

Foquemo-nos agora no filme, com dois primeiros actos expectáveis na linguagem do terror. Sustos, mistérios ao virar da esquina, personagens ominosas, “algo está para acontecer”, mas o quê? O filme funcionará bem melhor se não soubermos. Competente no seu setup para o terceiro acto, Immaculate é um filme de belo efeito que vai beber a inúmeras referências do género sem grandes pudores. Uma delas será Suspiria, de Argento, com as suas cores, os seus corredores, a sua reclusão, os seus rituais, todos presentes em Immaculate. Por outro lado temos obviamente Rosemary’s Baby de Polanski, numa versão quase a papel químico de certa parte da sua narrativa. Referência imagética ainda para The Descent, particularmente no terceiro acto da narrativa, e a hemoglobina sobre branco de Carrie, mas muitas outras fontes existiriam desde Inside a Frankenstein. De original o filme não tem nada, mas a sua execução é… imaculada, atingindo o seu propósito de entretenimento de filme de terror série B na perfeição.

O ponto mais alto do filme, que terá dado a machadada final para a sua “aprovação”, é a sua cena final. Depois de 80 minutos bem executados, mas que não deixam de ser formulaicos, Immaculate ganha asas na sua audácia e apresenta uma admirável sequência que traz ao de cima a capacidade e dedicação da protagonista, bem como aí sim finalmente, uma certa epifania transgressiva até então não reconhecida, em direção ao seu final abrupto e excitante. Immaculate é sem dúvida pastiche comercial feito da melhor forma.

David Bernardino