Lembramos agora com tristeza um dos momentos finais de Rocky Horror Picture Show (1975, Jim Sharman), onde Dr. Frank-N-Furter, desolado, numa rendição musical perversamente tocante e desesperada, se despede do planeta Terra, dos seus companheiros-reféns, cantando I´m Going Home, ameaçado pelos irmãos conterrâneos que regressarão a Transsexual, Transylvania, o seu planeta de origem. No entanto, folgamos ao pensar que Tim Curry, aproximando-se da melhor personagem que alguma vez interpretou, e reestruturando o seu destino, terá também regressado a um planeta desta espécie, distante e intrigante, deixando-nos à deriva, arrebatados com a experiência – tal como Brad e Janet –, desejando essa presença que, apesar de matreira, nos fez sonhar com a liberdade. Homenageemos o papel de uma vida e um filme eterno.
Uma clara subversão da história de Dr. Frankenstein, com referências a B movies de terror e ficção científica, ou antes, às figuras suas protagonistas feitas sugestivas e pulsantes – listadas na maravilhosa música introdutória –, Rocky Horror nasceu pelas mãos de Richard O´Brien (que no filme representa Riff Raff), após os seus primeiros passos enquanto peça de teatro, que se prolongaram, trazendo-nos um conto em imagens sobre o desejo, a mania, o êxtase, mas também o preconceito, acima de tudo, diversas formas de desconstruí-lo.

De início apreensivos, embora curiosos, Brad (Berry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), o casal do politicamente correto, pudicos por convenção – de uma sociedade conservadora, aqui caricaturada, que privilegia o casamento, deixando de parte a escolha e a exploração – embarcam, por um acaso, nesta aventura, a partir de um castelo assombrado, onde são ludibriados e aterrorizados, vindo esse terror a revelar-se mais prazeroso do que perigoso. Sempre deambulando entre a loucura e a simpática hospedagem, é nos limbos – ou seja, na destruição de binómios demarcados – que Frank-N-Furter mais encontra o seu espaço de energia e contágio. Torturando as noções estereotipadas de género e sexualidade, baralhando a firmeza e autoridade tipicamente masculinas e a delicadeza romântica associada à feminilidade (citando o próprio: I´m not much of a man by the light of day, but by night I´m one hell of a lover), é esta uma criatura de extravagante e contagiante monstruosidade, atraente porque propulsora de mudança e desafiadora de convenções.
Habilmente sedutor, frenético, sabe orientar a tentação e desvelar as prisões de cada um, guiando-nos pelos sons, toques e palavras de uma comunidade em ebulição. Apaixonado, obsessivamente, pela sua criação (o pueril Rocky (Peter Hinwood)), de tudo faz para o proteger, mas acaba embrulhado em maiores conspirações que, por fim, o destroem. É esta uma despedida amarga: a figura que não é herói, tampouco vilão, desfez o mundo para o refazer aos seus olhos, convidando-nos a todos a apreciar e participar no caos da sensualidade, no mundo insurreto da carne: don´t dream it, be it.
Mais do que um filme que continua a esgotar salas e sessões, prova do papel fundacional na expressão de uma subcultura marginalizada, de base de culto enorme e em expansão, vemo-lo, a si e a Tim Curry, bem como a todos os que nele participaram, enquanto peças belas e audazes, enquadradas num louvor às (id)entidades extraterrestres que acabam por salvar a terra, tirando-a do seu marasmo e deixando atrás de si a saudade, o regozijo, a vontade.




