Heat, de Michael Mann (1995) – Trinta Anos Depois

Em 1995 Michael Mann, talvez o principal estudioso da masculinidade no cinema contemporâneo, realiza aquele que é para muitos considerado não só a sua obra-prima, como um dos grandes filmes definidores dos anos 90. O argumento de Heat já havia sido escrito por Mann em 1979, dois anos antes de Thief, e o hoje veterano realizador tentou em 1989 um primeiro ensaio desta história com o que acabaria por se tornar no telefilme L.A. Takedown, hoje em dia relegado ao esquecimento.

Heat é um filme crime/noir, com todos os seus códigos, aqui explorados de forma “moderna” ao mais ínfimo detalhe, por oposição aos noirs dos anos 40 e 50. O género crime/noir sempre se debateu com a questão do realismo vs estilo. Profundamente masculino, o noir define-se, entre outras coisas, pelo debate interno do ego dos seus protagonistas e precisamente em Heat observamos em contraposição Robert De Niro e Al Pacino, ambos em pico de forma, confiança e carisma, interpretando bandido e polícia. O primeiro, McCauley, é o líder de um grupo de criminosos. Pragmático e calculista, McCauley vive sob o seu próprio código de conduta segundo o qual é desapegado de qualquer coisa ou pessoa, devendo estar pronto para abandonar tudo em 30 segundos se necessário. O segundo, Hanna, é um detective obcecado com o seu trabalho que vê em McCauley o catalisador para o seu intenso estilo de vida.

 

 

Ambos os protagonistas fazem questão de construir a sua personalidade perante terceiros à volta daquilo que fazem, característica normalmente associada ao tal ego masculino. De Niro é frio, um verdadeiro profissional, que evita criar laços pessoais, mas que vive na luta interna de observar o mundo que o rodeia, em Heat representado pelas suas relações profissionais. Existe uma cena em particular, um jantar entre McCauley e os seus associados e famílias, em que a personagem de De Niro está visivelmente entristecida, solitária e isolada, observando os seus comparsas a rir e confraternizar com aqueles que lhes são próximos. De Niro sai do local e procura encontrar-se com Eady (Amy Brenneman), uma mulher que havia conhecido por acaso num restaurante e a quem havia concedido uma noite de romance fortuito numa cena absolutamente brilhante na qual ambos observam as luzes nocturnas de Los Angeles da varanda casa de Eady, numa casa nas colinas que observam a cidade, sempre ao som da soberba banda sonora composta por Elliot Goldenthal. É aqui que De Niro, ciente daquilo que é, cede a aquilo que deseja: estabilidade e felicidade, numa luta constante com o seu ego, a sua projecção de ser. A banda sonora de Goldenthal, uma espécie de ambient em sintetizador, num estilo nostálgico e bem definidor dos anos 90 (hoje em dia apelidar-se-ia o género de vaporwave), é o adorno perfeito para a estética de Heat, outro dos seus pontos fortes.

 

 

Michael Mann filma Heat em 23:9, um verdadeiro widescreen que coloca o espectador num ponto de vista expansivo, de observador por vezes distante, apenas para depois o colocar no meio da acção e das suas tensas cenas de forma claustrofóbica, enfiando personagens dentro do frame de forma por vezes desorientadora, cruzando rostos e olhares. Depois temos as luzes, os néons, os túneis, os automóveis, os vapores, numa espécie de Blade Runner contemporâneo. A cena que ilustra na perfeição a estética de Heat é a perseguição automóvel de Pacino a De Niro, ao som de “New Dawn Fades” dos Joy Division aqui na versão de Moby, que viria depois a ser integrada no infame álbum punk Animal Rights do músico mais conhecido pela electrónica.

 

 

Pacino, o detective, é um morto vivo que se alimenta dos seus casos e do seu trabalho. Constantemente acelerado, de olhar vítreo, renega a sua vida pessoal, a sua terceira esposa, estabelecendo uma curiosa relação de figura paternal com Natalie Portman, aqui com 14 anos, interpretando a filha da mulher de Pacino. É nesta interação labiríntica entre Pacino/De Niro/ego/parecer/ser que se move Heat.

Ainda assim Michael Mann não se fica por aqui. Os dois veteranos actores são coadjuvados por um leque do melhor que os anos 90 americanos tinham para oferecer. Além de uma Natalie Portman na segunda interpretação da sua carreira (antes só Léon: O Profissional, de Luc Besson) temos Val Kilmer na pele de Chris, o jovem braço direito de De Niro com quem mantém uma relação de figura paternal. Confuso com a sua vida de fora da lei, mantém relação com Ashley Judd, apaixonada, mas infeliz. Tom Sizemore é outro membro da quadrilha, simbolizando o homem de família cujo maior alimento é a adrenalina. Dennis Haysbert, William Fichtner, Diane Venora, Kevin Gage, Jon Voight, enfim, o leque é vasto, com Mann a desenvolver todas as suas personagens secundárias de forma exímia como se de algo científico se tratasse.

 

 

Já tudo foi escrito sobre Heat e estas linhas de pouco mais servem do que de homenagem a uma obra-prima dos anos 90, a um raro momento de cinema em que pudemos observar duas lendas vivas da interpretação a serem dirigidas por um mestre no seu auge. Heat deve ser visto por toda a gente e é um dos derradeiros casos de estudo sobre desenvolvimento de personagem e masculinidade que o cinema americano nos ofereceu. Um portento.

 

Artigo publicado originalmente em Janeiro de 2024, no âmbito do nosso Dossier Michael Mann

David Bernardino