Não acredito em bruxas, mas que as há, há.
Este ditado, como tantos outros, sobrevive porque diz muito com pouco. Neste caso, encerra a paradoxal coexistência entre a razão e a superstição com o típico bom humor de um provérbio popular. No entanto, ao contrário do bonacheirão adágio, este paradoxo teve consequências muito pouco inofensivas entre os séculos XV e XVII. Dezenas de milhares de pessoas foram torturadas e executadas sob acusações de bruxaria, num processo sustentado por um sistema complexo de instituições cujo interesse passava por diabolizar a diferença e organizar o medo dentro das comunidades. Foi deste sombrio período histórico que nasceu Häxan (1922), de Benjamin Christensen, um filme que tenta perceber de onde veio tudo isto e como acabou por ganhar a forma que ganhou.
Estruturado em sete capítulos, Häxan percorre a história do ocultismo no Ocidente, com particular atenção à bruxaria medieval e à perseguição das mulheres associadas a ela. Christensen caracterizou a sua obra como uma “aula de história cultural em imagens em movimento”, e essa dimensão pedagógica é evidente desde o início, não tivesse ele passado vários anos a estudar tratados medievais sobre bruxaria antes de fazer o filme (incluindo o Malleus Maleficarum, o famoso tratado inquisitorial do século XV que sistematizou a forma como a bruxaria era identificada e punida na Europa).
Visto hoje, Häxan é um objeto difícil de classificar. Parte documentário, outra parte ficção, outra ainda qualquer coisa que não tinha nome em 1922 (aquilo que hoje talvez chamemos ensaio cinematográfico). O filme oscila entre o rigor didático de um documentário e o delírio sensorial do expressionismo mais puro. Christensen utiliza gravuras medievais e diagramas para fundamentar a sua tese, apenas para saltar, no frame seguinte, para uma reconstituição dramática onde o experimentalismo visual atinge picos de criatividade que deixariam muitos realizadores contemporâneos com inveja. Resulta. Os visuais não são só impressionantes para a época; são impressionantes, ponto final. Há uma materialidade no medo que o cinema moderno, dependente de pixéis e luzes limpas, poucas vezes consegue replicar. As criaturas demoníacas têm peso, volume e uma textura que sugere que, se lhes tocássemos, a nossa mão ficaria suja de lama e gordura animal. O filme é um banquete para quem aprecia a estética do bizarro elevada a forma de arte, com a técnica a dar corpo ao que deveria ser uma projeção mental da superstição.

Contudo, não nos deixemos enganar pelo espetáculo das vassouras voadoras e dos sabats profanos. Apesar de todo o imaginário que dá corpo a Häxan, há uma realidade histórica muito concreta que o filme nunca perde de vista. A perseguição às bruxas não foi um episódio isolado. Foi um fenómeno sistemático que atravessou séculos e levou à tortura e execução de dezenas de milhares de pessoas. As vítimas, na sua esmagadora maioria, eram mulheres. Mulheres que viviam sós, mulheres que detinham conhecimentos ancestrais sobre ervas, ou simplesmente mulheres que o sistema patriarcal e religioso da época considerava descartáveis. Christensen mostra-nos como o sistema precisava de criar monstros para justificar a sua própria existência e para proteger noções de moralidade que só sobreviviam através da repressão. O ciclo fechava-se sempre da mesma maneira. Acusação, interrogatórios, tortura, confissões, execuções. Em Häxan, as expressões das mulheres acusadas, sobretudo nas sequências de interrogatório, são filmadas em close-ups invasivos, ao ponto de terem sido consideradas excessivas por alguns censores da época pela intensidade emocional que carregavam.

Häxan não apresenta esta perseguição como algo 100% resolvido. No seu ato final, quando introduz uma leitura psicológica sobre o tema, o filme procura corrigir o erro histórico e acaba por sugerir uma continuidade. O problema de fundo nunca foi a crença no sobrenatural, mas sim a necessidade compulsiva da sociedade em isolar e controlar aquilo que não compreende ou que ameaça a sua estabilidade. Ontem o rótulo era “bruxa” e o destino era a fogueira; no tempo de Christensen, o rótulo era “histérica” e o destino era o asilo ou tratamentos médicos duvidosos. O alvo, porém, mantém-se o mesmo: o corpo feminino sob o escrutínio constante de um sistema que se sente ameaçado pela autonomia ou pela marginalidade.
Na altura da sua estreia, o filme foi, sem grandes surpresas, controverso. Foi censurado em vários países, sobretudo devido à nudez, à heresia, à violência e ao seu tom crítico em relação às instituições religiosas, as estruturas que tornaram este sombrio período histórico aceitável durante centenas de anos. Ao mesmo tempo, foi também uma das produções mais ambiciosas do cinema escandinavo, com um orçamento chorudo e um processo de filmagem longo e exigente (quase 3 anos, um feito virtualmente inédito até então). Christensen construiu cenários, experimentou com stop-motion, trabalhou a iluminação, maquilhagem e a composição, muitas vezes filmando de noite para controlar melhor a atmosfera. Compensou. O cuidado visual com o filme faz com que seja ainda hoje um marco do cinema de terror experimental, onde o pesadelo e a beleza coexistem. Vê-lo quase nos faz acreditar que estamos perante um documento histórico autêntico que não devia estar assim à mão de semear.

Muito do imaginário visual associado à bruxaria e ao satanismo no cinema, dos rituais coletivos às figuras demoníacas, encontra aqui uma das suas primeiras formas consolidadas. O impacto de Häxan estende-se pela história do cinema de terror. Quando Eduardo Sánchez e Daniel Myrick fundaram a Häxan Films para lançar O Projecto Blair Witch, estavam a prestar vassalagem a este mestre dinamarquês. Filmes como The Witch, de Robert Eggers, bebem da mesma fonte, esta textura de realidade suja onde o sobrenatural é uma extensão da opressão quotidiana. A sua durabilidade e influência é parte do que o torna único dentro do contexto do cinema da época. Num momento em que a linguagem cinematográfica ainda estava a ser definida, Christensen fez um filme que não escolhe apenas uma única função para a imagem. Usa-a ora para explicar, ora para perturbar.
Apesar do seu aparato visual e das suas sequências mais perturbadoras, Häxan sobressai pela forma como articula esse imaginário com uma atenção persistente ao sofrimento humano. A estrutura ensaística permite que navegue entre explicação e encenação sem eliminar o peso do que é mostrado. Mais do que o oculto, é a forma como a superstição e a crença legitimam a crueldade que se revela inquietante. Independentemente da leitura, sobrenatural ou racional, a violência permanece.
Haxan é apresentado esta sexta-feira, dia 08 de Maio, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” e da “Retrospectiva Mockumentary” do IndieLisboa – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz.



