Guru, de Yann Gozlan – A panela ficou ao lume

Ana MatosAgosto 31, 2026

Guru é uma palavra de apenas quatro letras, tão carregada de associações que basta pronunciá-la para convocar todo um imaginário. O cartão de visita perfeito para este filme. O ator e produtor Pierre Niney vinha desde há algum tempo a acompanhar com fascínio o fenómeno dos life coaches. Desafiou o realizador Yann Gozlan a entrar no projeto, naquela que é a sua terceira parceria. Juntos deram vida a Guru, um filme que olha criticamente para o presente sem esperar pela distância histórica de que geralmente precisamos para perceber o tempo em que vivemos.

Matt Vasseur, brilhantemente interpretado por Pierre Niney, não é apenas mais um life coach, é o life coach mais popular de França. Fenómeno nas redes sociais, esgota seminários e construiu uma marca que emprega centenas de colaboradores. Um caso de sucesso à escala dos grandes nomes do coaching nos Estados Unidos.

 

 

A grande força de Guru está precisamente na construção desta personagem. Os coaches que encontramos na vida real já são muitas vezes caricaturas e é difícil entender como conseguem influenciar as massas. Matt Vasseur tem um estilo relativamente sóbrio, com apenas alguns apontamentos, como um anel que sugere um certo misticismo, mas toda a sua força vem da presença. Corpo direito, postura firme, olha fixamente nos olhos, fala com convicção, emana uma vibração capaz de energizar multidões. O próprio discurso de Matt foi escrito com uma justeza admirável. Seria muito fácil cair na óbvia figura do charlatão, no típico discurso da banha da cobra, mas este guru tem uma inteligência e uma subtileza que provavelmente explicam o sucesso alcançado. Em nenhum momento este coach faz pouco dos seus seguidores ou confessa, em privado, que não acredita no que apregoa. Matt tem uma disciplina de ferro: faz desporto, toma banhos gelados, é cuidadoso com a alimentação, tem foco e ouve diariamente um coach americano, a referência máxima da sua filosofia de vida. Tudo corre bem a Matt Vasseur até que começa a ser discutida em França uma lei para regulamentar o exercício desta nova profissão. E, novamente, confirma-se a inteligência na construção da personagem: Matt vê com bons olhos a iniciativa, porque há muita gente desonesta neste meio e considera importante proteger os cidadãos. No entanto, é este o momento de viragem do filme, a partir do qual a personagem cai, aos poucos, em desgraça.

Para além da mestria de Niney, a câmara de Yann Gozlan também nos transporta para o universo do thriller psicológico com tons sombrios, travellings circulares que remetem para uma dimensão hipnótica, planos fechados nos rostos. Tudo intensifica a força das mensagens, a adrenalina das multidões, a asfixia, o prenúncio de uma queda. Matt sabe tocar nas feridas e atiçar as feras. Toda a sua retórica assenta na ideia de que a sociedade nos domestica e de que, para nos libertarmos, temos de largar as convenções, pôr de lado o politicamente correto e deixar vir ao de cima os nossos instintos. Mas o que acontece quando lhes damos rédea solta? Teremos necessariamente a paz de espírito que tanto procuramos? A resposta talvez esteja nas redes sociais, onde se reproduz a selvajaria de um western sem lei. E o resultado está à vista.

 

 

Guru tem cenas brilhantes, diálogos fortes, e mais uma atuação excecional de Anthony Bajon, já arrebatador em Chien de la casse, mas por vezes perde-nos em pequenos detalhes que deixam à vista as costuras de uma peça que parecia cosida na perfeição. Uma ou outra atuação fora de tom, algumas sequências precipitadas, uma cena que se adivinha demasiado cedo, uma certa cedência aos códigos dos thrillers americanos. Ainda assim, são pequenas falhas que não retiram força ao conjunto.

Pierre Niney conseguiu aquilo a que se tinha proposto. O filme expõe a angústia existencial, a confrontação diária com uma janela virtual para vidas perfeitas, o peso da comparação, a ideia de que somos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso, de que basta acreditar muito para sermos felizes. Ironicamente, Matt Vasseur vai acabar no lugar dos seus seguidores, obrigado a testar a receita em si próprio. A panela está ao lume, a pressão aumenta. E depois, veio o estrondo.