Génesis, de José Oliveira e Marta Ramos – Histórias da Origem

Bruno VictorinoMarço 20, 2026

Quando nos debruçamos sobre a obra de José Oliveira e Marta Ramos, é possível identificar uma série de recorrências, nomeadamente, a desconexão dos seus personagens com a contemporaneidade e o predomínio vincado de retratos de lugares onde o sentimento de comunidade vai persistindo, como forma de resistência. Filmaram, por exemplo, a desconexão do ator José Lopes com o mundo que o rodeava, o convívio de ex-combatentes na Associação Amigos do Minho ou o reencontro da realizadora Manuela Serra com o seu O Movimento das Coisas (1985). O filme de Serra mostra-nos, precisamente, a ancestralidade do quotidiano de uma localidade no interior do país, em plena comunhão com a Terra e a natureza, um fotograma de um instante no tempo, ameaçado pela marcha imparável do progresso. 

Adequadamente, Génesis inicia com imagens a preto e branco filmadas em VHS. Vemos Lídia (Marta Ramos) e Maria (Marta Carvalho), as protagonistas do filme, a dançar num teatro grego, devidamente trajadas. A montagem de som, decisiva nos seus filmes, impregna as imagens com uma canção de embalar proveniente de uma caixa de música, antevendo o tema da parentalidade, que surgirá mais tarde no filme. Logo de seguida, um corte leva-nos para um plano contrapicado antonioniano de Maria, filmado em digital, enquadrado com um edifício moderno e onde podemos ouvir o ruído ensurdecedor da cidade. Mais um corte e vemos novamente Maria, agora no campo, junto a um riacho, com o som apaziguante da água a correr pelas suas margens.

 

 

Em poucos minutos, apenas com recurso à linguagem cinematográfica e sem que a trama esteja ainda lançada, é-nos apresentada a preponderante tensão e dicotomia que permeia o filme, entre a natureza, o avanço industrial e tecnológico, e o posicionamento do Homem nas consequências que produz e na repercussão das mesmas no quotidiano do povo. São várias as imagens que, ao longo do filme, incorporam precisamente esta dialética e cruzam os três centros de gravidade: natureza vs tecnologia vs Homem.

 

 

Os realizadores optam por intercalar várias camadas em diferentes registos temáticos e formais. Inicialmente, são três as dimensões que se vão sucedendo e entrelaçando no ecrã. Por um lado, na vertente mais ficcional do filme, acompanhamos a chegada de Maria ao Fundão e a sua incessante busca pela amiga Lídia, a quem pretende mostrar o filme que ambas protagonizaram (o tal a preto e branco que principia o filme) e convencê-la a encenar uma ópera inspirada em D. Quixote. No decorrer da aventura proporcionada pela investigação, Maria trava conhecimento com a comunidade. Um dos habitantes, protagonizado pelo próprio José Oliveira, leva Maria a conhecer as Minas da Panasqueira, onde teria sido avistada Lídia. Ali, apesar de não terem sucesso na busca, Maria contempla a triste beleza das montanhas a “sangrar”, resultado nefasto da extração do minério volfrâmio, central no extraordinário filme Wolfram, a Saliva do Lobo (2010), de Rodolfo Pimenta e Joana Torgal. A encenação destes momentos emana uma aura distópica, reforçada pela som não diegético de natureza apocalíptica.

 

 

Paralelamente, vamos desvendando a segunda camada predominante do filme, onde a ficção de Lídia se vai entrecruzando com momentos de maior aproximação ao documentário. Para além da interação com outros lugares e personalidades, sobressaem fundamentalmente as cenas de comunhão com os refugiados ucranianos acolhidos no antigo seminário do Fundão, das brincadeiras com as crianças à partilha de criações artísticas. Há uma passagem particularmente reveladora onde uma das artistas ucranianas refere, enquanto pinta um quadro: “I’m looking for nature, how everything is blooming now, nature is above all the things that are happening everywhere. After all this things, flowers will grow and bloom, and the sky is still above us.” Este limbo entre ficção e “real” é enfatizado pela intervenção em cena dos realizadores, não só como atores, como a sugerir ações aos seus “personagens”. “Can you just paint a little”, ouvimos José Oliveira sugerir atrás da câmara, reforçando a crueza e honestidade do retrato, e sintomático da proximidade dos cineastas com aquela realidade.

 

 

E, por fim, uma terceira camada, também aproximada do registo documental e protagonizada por Tom G. Hamilton, com a Serra da Argemela como fundo. O músico, profundo conhecedor da história, etnografia e geologia daquele lugar, partilha com o espectador uma séries de curiosidades históricas e lendas, estabelecendo um paralelismo entre o povo romano que, outrora, veio explorar e conquistar o território, e os grandes grupos económicos que, hoje, ambicionam explorar os minérios da serra. 

Toda a mitologia narrada por Tom conflui na lenda de uma mulher que terá sido queimada viva para defender a Serra da Argemela. Enquanto ouvimos o narrador a câmara vai-nos encaminhado para o interior de uma gruta na serra. Quando nos aproximamos da saída, a luz exterior encadeia, o plano fica branco – corta – e vemos a imagem do filho dos realizadores.

 

A partir deste momento o filme transforma-se, impregnado pela benção do nascimento. A mãe grávida (Lídia ou Marta?) é posteriormente encenada em planos diversos em plena comunhão com a natureza e as rochas da serra. Os cineastas socorrem-se da organicidade do cinema experimental para evidenciar o esplendor da maternidade. Na história do cinema, vários foram os cineastas que ousaram encenar de forma crua a sua própria experiência parental. O parto natural da filha de Stan Brakhage em Window Water Baby Moving (1959) ou o momento do nascimento da filha de Jonas Mekas em As I Was Moving Ahead, Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty (2000), são dois icónicos exemplos. José Oliveira e Marta Ramos revelam semelhante sensibilidade, oferecendo-nos um enternecedor vislumbre da sua vivência pessoal.

 

 

Enquanto seguimos Marta e o filho pelas paisagens rochosas da serra, recordamo-nos que estamos, desde o início do filme, perante uma obra forjada pelos códigos do western, com uma abordagem formal profundamente alicerçada no cinema clássico americano, de John Ford a Sam Peckinpah, de Jacques Tourneur a Michael Cimino. A busca por um personagem desaparecido, o enorme peso dado à paisagem, que nos transporta espontaneamente para Monument Valley ou Lone Pine, a guerra civilizacional travada entre população (indígena) e exploradores, e todo o misticismo que envolve aquele lugar, denunciam incontestavelmente a intenção dos realizadores.

 

 

A introdução do filho ao quotidiano da terra e da natureza, progride posteriormente para as tradições e costumes da comunidade beirã, das mulheres que fazem croché e cortam a couve para o caldo verde enquanto cantam, em partilha e comunhão, com a câmara dos cineastas sempre a focar as mãos, o manuseamento, o fazer artesanal.

Génesis é um filme simultânea e paradoxalmente muito pessoal e extraordinariamente vasto e ambicioso. José Oliveira e Marta Ramos procuram, na particularidade da sua experiência pessoal – do nascimento do seu filho ao retrato das serras e comunidades beirãs – atingir o âmago das origens do mundo e da natureza humana. Que o façam com tamanho compromisso com a realidade que pretendem representar, com tamanha atenção aos pequenos detalhes e com tamanha empatia e carinho pelas gentes beirãs, permite-lhes retirar do quotidiano a dimensão universal que apenas o cinema permite alcançar.

 

 

Génesis teve ante-estreia na Cinemateca Portuguesa no passado dia 07 de Março de 2026. O filme ainda não tem data de estreia comercial.

Bruno Victorino