Friendship, de Andrew DeYoung: Como Perder um Amigo em 10 Dias

Carla RodriguesJulho 9, 2025

Fazer amigos depois de adulto pode ser uma coisa complicada. As regras e o contexto social já não são os mesmos. A convivência da escola, da universidade, dos intervalos, das festas, já não sustenta a criação natural de laços com os nossos pares. Temos de depender de outros contextos. Às vezes, o que acaba por acontecer é que a formação de amizades de maneira espontânea e despreocupada, é substituída por mensagens trocadas com hesitação, tentativas meio constrangidas de marcar cafés que ficam em visto, horários de trabalho que minam o tempo livre, chorrilhos de responsabilidades isolantes, acompanhados de uma espécie de medo constrangedor de estar a pedir demais. Friendship agarra no princípio desta dificuldade e leva-o ao extremo, com um humor desconcertante, mas, no seu âmago e apesar de todo o exagero, reconhecível.

Tim Robinson transporta para o cinema o tipo de personagem que tem vindo a aperfeiçoar desde Detroiters mas especialmente desde I Think You Should Leave: aquela pessoa que não se sabe afastar de uma situação social falhada, que se implode num vórtice de estupidez nas situações menos convenientes, que agarra uma conversa embaraçosa com unhas e dentes e a transforma numa espiral absurda em direcção ao abismo. Só que aqui, em vez de sketches de dois minutos, temos uma narrativa de hora e meia. E resulta.

comédia desconfortável
Tim Robinson

Robinson interpreta Craig, o típico homem de meia idade, criatura dos subúrbios com um bom emprego, casado, com um filho, mas solitário até ao limite do trágico. Por obra de uma casualidade digna de comédia romântica, com moradas trocadas e correspondência mal entregue, Craig cria uma amizade com Austin (Paul Rudd), o seu novo vizinho. Mas Craig não consegue desligar a estranheza que lhe transpira dos poros a todos os momentos, e que contrasta de forma quase dolorosa com a aura relaxada de Austin. Paul Rudd tem o carisma ideal para interpretar Austin, um tipo afável, cativante, mas algo hermético. É a personificação do clássico “devíamos combinar um café!” que nunca se concretiza. É essa leveza de espírito, esse charme desprendido, que faz com que Craig veja nele algo quase aspiracional.

Mais do que ser amigo de Austin, Craig deseja ser como ele, e é essa a receita para o desastre. Quando Austin começa a querer ganhar distância do caos ambulante que é Craig, com aquela simpatia vaga que todos já experienciámos ou encenámos, Craig entra numa queda livre psicótica. O que começa como uma comédia de constrangimentos quotidianos acaba por ganhar espessura psicológica e tornar-se um retrato da auto-sabotagem; embaraçoso, surrealista, imprevisível e, quase sempre, hilariante.

comédia desconfortável
Tim Robinson e Paul Rudd

A realização é de Andrew DeYoung (PEN15, Dave). Nesta sua primeira longa, mergulha no terreno pantanoso da amizade com uma abordagem visual que deve mais aos thrillers psicológicos do que às comédias, com o uso de zooms lentos e de uma banda‑sonora minimalista que acentua tanto o humor como a tensão que palpita sob ele. Acima de tudo, DeYoung sabe gerir bem o ritmo da narrativa. Não tenta forçar piadas a cada momento. Deixa que o constrangimento fale por si, o que, com frequência, acaba por dar a volta e tornar-se um delírio cómico.

Em termos visuais, o filme opta por uma estética suburbana, banal até, com tons desbotados e uma abundância de espaços sem personalidade. A monotonia e a exigência da chamada “vida perfeita” suburbana que tantos americanos almejam fazem Craig sobressair ainda mais como alguém que não pertence nem ali, nem a lado nenhum. É como se o mundo inteiro tivesse aprendido as regras e ele tivesse faltado às aulas.

É aqui que Robinson mostra o seu valor: sim, Craig é ridículo, é um poço de vergonha alheia, roça o psicótico, mas há ali mais confusão do que malícia. Há uma certa inocência, uma tristeza até, por trás de cada badagaio over the top. Ele não é o vilão, é só alguém que quer que gostem dele, que achem que ele é cool, mas não faz ideia de como se consegue isso. O filme mostra bem esse equilíbrio: fazer-nos rir (muito) sem nunca deixar de mostrar que existe angústia por trás do teatro do absurdo onde Craig é a atração principal.

comédia desconfortável
Tim Robinson

Tim Robinson vem de um percurso começado no Second City e no Saturday Night Live, passando depois por Detroiters e pela icónica I Think You Should Leave. Nota-se a influência mista quer de figuras do humor pouco convencional como Tim Heidecker ou Eric André, quer da expressividade física de mestres do slapstick como Buster Keaton (embora reconfigurada aqui com ansiedades modernas). Em Friendship, Robinson combina tudo isso com um olhar mais pessoal, mais consciente do que é ser humano em 2025: precisar de contacto, mas ter medo dele; querer ser aceite, mas não saber como.

Friendship não é um filme fácil. Desafia o espectador a permanecer dentro de um embaraço social que quase nunca encontra alívio. Se há algo que poderá não funcionar para todos, é a sensação de se assistir a uma dinâmica repetida em ciclos: aproximação, desconforto, explosão de insanidade. Para alguns espectadores, isso pode tornar-se cansativo. Além disso, quem não se revê em ansiedades sociais ou momentos de vergonha pública, pode achar tudo isto alienante. Mas se alguma vez demos por nós a pensar demais numa mensagem que enviamos, ou a revermos mentalmente uma conversa banal durante dias, há aqui algo que pode soar familiar. E, para quem gostar do estilo surrealista de Tim Robinson, é um prato cheio.

Robinson e DeYoung constroem aqui uma comédia desconfortável, sim, mas também uma análise sensível sobre o valor (e o perigo) de depender emocionalmente de outro ser humano, da necessidade aflita de validação externa. E, por estranho que pareça, acabam por nos mostrar que algumas destas coisas dolorosas podem resultar também numa libertação: a catarse da vergonha pela gargalhada.

 

Carla Rodrigues