Desde que Mary Shelley lançou “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” ao mundo em 1818, o cinema, a televisão, o teatro e a animação pegaram nele e moldaram-no de novo e de novo, em terror, drama, comédia e até musical. A figura do cientista que desafia Deus não pertence só à literatura, é praticamente mito. Mesmo quem nunca abriu o livro reconhece a silhueta pesada, a pele cinzenta e a face quadradona da Criatura de Boris Karloff, cristalizada nos filmes da Universal nos anos 30. Frankenstein existe na cultura pop há mais de duzentos anos e, ainda assim, há sempre alguém pronto para ressuscitá-lo de novo.
2025 traz mais uma reinterpretação e a pergunta ergue-se franca: que mais haveria a explorar num texto tão usado, tão conhecido, tão devorado por adaptações? A resposta encontra-se no nome que assina esta versão. Guillermo del Toro, talvez o autor mais romântico do horror contemporâneo, finalmente realiza o projeto que acalenta há mais de três décadas. O facto de ser um filme Netflix só não causa arrepios porque percebemos o quanto este cineasta vive obcecado pelo tema. Os monstros são as suas orações e os excluídos, a sua fé. Confiamos.
Nesta nova versão, Victor Frankenstein irrompe pelo ecrã como uma espécie de rockstar egocêntrica do mundo médico. Narcisista, ambicioso, sedento por glória. O que o move é derrubar as leis da Natureza e declarar a morte obsoleta, sem qualquer intenção benemérita, apenas para poder desfilar o troféu de ter superado a própria biologia.
Rejeitado pelos seus pares da academia médica e acusado de heresia científica, Victor encontra apoio em Herr Harlander, um fabricante de armas riquíssimo que, movido por curiosidade (e talvez mais qualquer coisa) financia a sua busca por restos humanos utilizáveis. O filme mergulha então num inventário macabro de tendões arrancados, olhos encaixados, elétrodos cravados, articulações a ranger sob o peso de uma nova vida.
O processo não é limpinho. Del Toro transforma a necromancia numa espécie de haute couture anatómica: punhos a abrir cadáveres, ossos a ceder, músculos a ser costurados com urgência e mestria. Eis que a Criatura ganha forma. Não grotesca, como nos habituamos a ver em versões passadas, mas estranhamente etérea e bela. Tal como Tom Ford não enviaria para a passerelle um balandrau qualquer, Victor Frankenstein recusaria um corpo torcido, imperfeito, à mercê da sua vaidade.
Somos então, depois dos vislumbres do prólogo, reapresentados à Criatura. Do olhar assustado aos gestos incertos, é a imagem da fragilidade. O corpo é alto, só que os seus movimentos hesitam como os de uma criança que aprende, bamboleante, os primeiros passos. No primeiro encontro, Victor trata-o como um filho milagroso. Ensina-lhe o seu nome, ri com ele, mostra-lhe o sol. Mas depois recua. Não quer ser pai de um ser que não corresponde à sua fantasia de grandeza. A Criatura olha para o Criador com olhos que perguntam porque nasceu, porém, a resposta nunca chega.
A interpretação sensível e física de Jacob Elordi dá à Criatura uma vulnerabilidade que encaixa como uma luva na visão de Del Toro. Mary Shelley escreveu a Criatura como uma figura pensante, eloquente e filosófica. Nesta versão, a erudição dá lugar a gestos, a silêncios, a descoberta, a curiosidade. A inteligência está lá. Mas o sofrimento, a pureza e a mágoa também. Percebemos que ali está um ser que só pede para ser amado, para ser aceite.
Oscar Isaac, por sua vez, constrói um Victor que não é a vítima do próprio erro, mas sim o autor convicto da sua desgraça. A obsessão que o move nasce, em parte, de traumas de infância (quem nunca), de uma relação tóxica com o seu próprio pai, e fortalece-se pela cegueira do seu ego, pelo desejo de ser venerado. Victor torna-se vilão mais por nunca saber amar do que por querer, de modo lato, destruir. E é por isso que a Criatura que nasce sem saber nada do mundo depressa aprende o que significa ser usada e rejeitada. Afinal, o seu pai, o seu criador, não a quer e o mundo não a entende. O filme estuda-a como alguém que, aos poucos, se vê forçada a retribuir aquilo que aprendeu. Os pecados do Pai passam mais pelo exemplo do que pelo sangue.
Dan Laustsen, diretor de fotografia de The Shape of Water e Nightmare Alley, regressa para trabalhar com Del Toro e filma o conto com um sistema de grande formato, lentes de 24 milímetros como opção mais ampla, o que cria uma sensação de espaço imenso e de escala brutal. Além disso, o trabalho do design de produção de Tamara Deverell e o guarda-roupa irrepreensível criado por Kate Hawley também merecem destaque. Juntos, conseguem uma alquimia que dá ao filme um aspeto muito particular. Corpos grandes em salas pequenas. O verde químico das baterias do laboratório junto ao vermelho viscoso do sangue. Vestidos que parecem flutuar numa Edimburgo coberta de nevoeiro, entranhas e lama. O cinema de Del Toro sempre entendeu que a beleza pode ser terrível e aqui ele e a sua equipa levam isso ao extremo. Tudo respira gótico com elegância.
Ainda assim, há alguns tropeções. A devoção de Del Toro pelo seu monstro, que é o coração do filme, também é culpado por algumas das suas falhas. O realizador quer mostrar tudo, quer que o público sinta tudo. Há sequências que se prolongam por amor às imagens e não à narrativa. Volta e meia, o ritmo coxeia e o lirismo atrasa o avanço dramático, o que nos leva a perguntar se alguma desta gordura extra não deveria ter ficado no chão da sala de edição. Contudo, quando Frankenstein se permite ser simples, quando deixa a Criatura caminhar sozinha pela neve, quando um gesto trémulo tenta agarrar um afeto impossível, o filme atinge o seu estado de graça.
O que fica é um projeto de paixão, não há como o negar. No fundo, Del Toro realizou um agradecimento. Um obrigado ao monstro que o acompanhou pela vida inteira. Um tributo àquilo que a sociedade rejeita. Pode parecer pueril, mas, sob o olhar genuinamente encantado e sincero de Del Toro, deixamos que a mensagem nos pouse no coração.
Mesmo com os seus soluços narrativos, Frankenstein é, em última análise, um sucesso emocional e visual. Percebe-se nele o cinema de um artista que acredita que a fantasia serve para desenterrar a verdade. A Criatura de Elordi merece todas as flores. O Victor de Isaac também, ainda que pela razão inversa. Saímos sem medo da Criatura. Saímos, sim, com medo da indiferença, a pensar que talvez todos sejamos feitos de partes que alguém largou pelo caminho. Se o cinema ainda tem a capacidade de nos fazer sentir assim, então a Criatura, de facto, vive.
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