Os melhores mágicos são aqueles que fazem o truque mesmo à frente do nosso nariz e, ainda assim, não temos ideia de como o fizeram. Fils de personne (“Filho de Ninguém“) deixa-nos um pouco com a mesma sensação. Neste remake do filme norueguês Hjertestart, de 2017, o realizador Safy Nebbou cria uma ligação forte com personagens que inicialmente nos são distantes, sem que consigamos perceber em que momento essa distância desapareceu.
Romain Duris interpreta Thomas, o pai adotivo de um rapaz tailandês, Mapring (Master Sanpasiri). Mathilde e Thomas tinham adotado Mapring há pouco tempo, um rapaz dócil com a mãe, mas com dificuldades em relacionar-se com a figura paterna. Até que Mathilde sofre um acidente fatal e Thomas tem de lidar não apenas com o seu luto, mas também com uma criança a quem nunca chegou a ligar-se. O plano de Thomas passa por regressar à Tailândia, devolver Mapring à família biológica e garantir que o menino de quatro anos fica bem.

Contudo, Safy Nebbou não nos conta tudo isto de imediato. Thomas e Mapring não falam a mesma língua, estão a refazer-se de um trauma, cada um à sua maneira, e a distância que os separa é abismal. Não há gestos carinhosos, momentos de cumplicidade ou tentativas de enternecer o espectador com uma relação entre pai e filho ainda recente e frágil. Duris contou que, durante as filmagens, sempre que ele e Nebbou sentiam estar a aproximar-se demasiado da linha do sentimentalismo, recuavam. Não era aí que queriam levar o filme. A rodagem foi também feita por ordem cronológica, permitindo que a relação entre Duris e Sanpasiri se fosse construindo ao mesmo ritmo que a relação entre Thomas e Mapring.

Pai e filho raramente sorriem, poucas vezes falam, ocasionalmente choram. Numa Tailândia pouco turística, Nebbou faz-nos acompanhar o percurso dos dois, sem que necessariamente surja empatia. Por muito adorável que seja Mapring e por mais desesperado que esteja Thomas, as personagens são contidas e a história é contada com tal sobriedade que não vemos o truque a acontecer. Não há uma primeira confidência, um abraço demorado ou uma brincadeira cúmplice a assinalar o momento em que a relação mudou. Há pequenos gestos, olhares e silêncios, mas Nebbou raramente os sublinha. A distância não existe apenas entre os dois, mas também entre eles e o espectador. E, à medida que uma se reduz, a outra diminui também. Duris é magistral ao tentar ser pai malgré lui. Não o condenamos por querer devolver uma criança à sua família de origem porque percebemos que até cuidar de si próprio é, naquele momento, um desafio.
As atuações excecionais de Duris e do jovem Master Sanpasiri, a banda sonora envolvente de Ibrahim Maalouf e Sonia Mohammed-Cherif, onde se destaca o excelente tema Memories, e a depuração das escolhas de realização trazem alguma poesia ao que tinha começado como uma história assética. É certo que há opções desnecessárias, como os flashbacks da vida em França, ou um chavão solto a certa altura pelo motorista tailandês, como que investido de uma sapiência ancestral. Mas são breves momentos que não roubam ao espectador a sensação de pertença que, afinal, todos ali procuram. E, de repente, percebemos que a distância desapareceu e deu lugar à comoção, sem termos visto o momento em que isso aconteceu.
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