Festival de Veneza 83.ª edição, vol. III – As Mulheres e as Histórias que contam no Cinema

Lara Marques PereiraSetembro 13, 2026

Já vem sendo um hábito a cada festival de cinema de grande projeção, sucedem-se as críticas pelos desequilíbrios de programação e pela falta de representação de cinema no feminino. Em Veneza, este ano houve apenas uma mulher a entrar na competição oficial (tendo ganho o Leão de Ouro), mas houve várias mulheres a entregarem performances que tornam o cinema mais rico e vivo.

 

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Woman Unknown de May el-Toukhy
Leão de Ouro, melhor filme, e Coppa Volpi, melhor interpretação feminina

O único filme de uma mulher cineasta presente na competição oficial aborda questões do corpo feminino, do lugar das mulheres na sociedade e dos traumas do nazismo após a Segunda Guerra Mundial. The Woman Unknown tem a assinatura da dinamarquesa May el-Toukhy, cineasta que chegou a um público mais alargado com Rainha de Copas, de 2019. Controverso e provocador, o filme abordava o caso de uma advogada bem-sucedida, mãe de família, que se envolve sexualmente com o seu enteado. Depois disso, May el-Toukhy passou pela lista de realizadores de serviço da série The Crown, mas volta agora ao cinema para, mais uma vez, apontar a câmara a temas incómodos ou delicados. The Woman Unknown passa-se na Dinamarca, na ressaca da Segunda Guerra Mundial, numa altura em que os colaboracionistas do regime nazi eram chamados a prestar contas, mas, como o filme nos mostra, havia uma certa hipocrisia na sociedade da altura, que pretendia uma justiça ajustada à sua medida. Os homens coniventes com os nazis eram considerados corajosos por lidarem com as circunstâncias difíceis, enquanto as mulheres não eram sequer ouvidas sobre em que circunstâncias sobreviveram à ocupação. Marie, a protagonista desta história (que revela uma vibrante Mathilde Arcel), é uma empregada doméstica que está noiva do patrão, um viúvo, dono de uma fábrica, que tem uma filha ainda criança de quem Marie se ocupa. Os preparativos para o casamento estão em marcha, mas podem ser comprometidos quando aparece um jovem que conhece Marie e que a acusa de ter partilhado a cama com um oficial alemão. O filme, dramaticamente austero e contido, ajuda a criar esta figura da “mulher desconhecida”, com um passado que a compromete e que determina que ela se movimente em função das decisões dos outros, ou melhor, das decisões tomadas pelos homens que a rodeiam. A realizadora May el-Toukhy assume que quis fazer uma reflexão sobre o corpo feminino como um domínio público, como se fosse algo que a sociedade pode julgar e sobre o qual pode fazer juízos morais. O filme cumpre a visão da realizadora, nem sempre conseguimos acompanhá-lo com entusiasmo, mas é ainda assim uma obra de alguma originalidade.

 

Look Back de Hirokazu Kore-eda

O fascínio pela banda desenhada manga é o que une Fujino e Kyomoto, duas crianças que adoram desenhar e expressar emoções através de pequenas tiras publicadas no jornal da escola. É este o ponto de partida da história contada pelo realizador japonês Hirokazu Kore-eda no filme Look Back, adaptado de uma novela gráfica de Tatsuki Fujimoto, que também colaborou na escrita do argumento do filme. A mesma história já teve direito a uma outra adaptação, em formato de média-metragem de animação. Kore-eda tem manifestado particular interesse em contar histórias de famílias ou de crianças, como acontece em Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões, que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2018, mas também em Broker – Intermediários (2022), Monster (2023) e até o mais recente Sheep in the Box, estreado em maio, na competição oficial do Festival de Cannes. No caso de Look Back, o cineasta rende-se à beleza de uma história de amizade entre duas raparigas que partilham a paixão pelo desenho e o sonho de se tornarem autoras de manga. O filme acompanha a amizade das duas até à idade adulta e ao momento em que seguem caminhos diferentes. Fujino e Kyomoto são interpretadas por quatro atrizes (crianças e adolescentes), num filme que segue à boleia do olhar das raparigas sobre o mundo. Look Back deslumbra-nos com o poder da história e ganha contornos de homenagem à banda desenhada manga, ao incorporar elementos de fantasia e um trabalho de fotografia que muitas vezes parece uma paisagem desenhada, como acontece no cinema de animação. Kore-eda nunca recebeu um prémio no Festival de Veneza, onde já esteve várias vezes; se tivesse entrado no palmarés de 2026, seria compreensível e até justo.

 

L’estranea de Paolo Strippoli

A atriz italiana Jasmine Trinca está a viver um ano poderoso na sua carreira, com dose dupla na competição oficial de Veneza, com os filmes Succederà Questa Notte, de Nanni Moretti, e L’estranea, de Paolo Strippoli.

No primeiro caso, a atriz vive um romance atribulado e partilha o protagonismo com Louis Garrel, mas no segundo é ela quem faz avançar a história, num filme que arrisca no universo do terror. Anna é uma mãe de família que leva uma vida plena com o marido e os filhos, até ser confrontada com um incidente que ameaça deixar um dos filhos com uma perna amputada, a menos que… não, não vamos entrar por aí e desvendar a história, mas é possível contar que a personagem de Jasmine Trinca tem nas mãos o poder de decidir o rumo de alguns momentos da vida da sua família. L’estranea é um filme de género – que nem sempre consegue cair nas boas graças dos festivais – e é um filme sobre as escolhas de uma mãe para proteger a família, uma parábola sobre o que os pais esperam e anseiam para os filhos. Paolo Strippoli arriscou com um filme que não precisa de sustos nem sangue para chegar ao que pretende. Jasmine Trinca junta mais uma etapa à sua carreira e, mesmo que o filme por vezes resvale para lugares menos interessantes, a atriz sai ilesa com um desempenho convincente de uma mãe que leva longe demais a ideia de proteger a família.

 

Un Bon Petit Soldat de Stéphane Brizé
Prémio para o Melhor Argumento

A atriz italiana Alba Rohrwacher segura bem toda a carga dramática do mais recente filme de Stéphane Brizé, cineasta que tem abordado muitas vezes no cinema o mundo do trabalho. No filme Un Bon Petit Soldat, Alba interpreta Carla, diretora de recursos humanos de uma grande empresa, que vai ser forçada a refletir sobre quais são as linhas vermelhas que está disponível a deixar cair para vingar no meio corporativo. Carla é inteligente, competente e incansável. Vemo-la às voltas com o computador e o telemóvel, no escritório ou nos transportes públicos, atarefada entre o novo emprego e a família (filho e ex-marido), com quem comunica à distância. A estreia na nova empresa não é perfeita; o CEO interpretado por Vincent Lindon, ator recorrente no cinema de Brizé, diz-lhe sem rodeios que não gosta da abordagem para captar jovens talentos e que o lugar dela é tão frágil como qualquer outro, numa empresa que só quer trabalhar com os melhores dos melhores. Os funcionários vivem para cumprir a máxima expressa no título do filme e ser um bom soldado numa engrenagem invencível. Brizé continua a explorar o filão de como o trabalho pode afetar e moldar o nosso carácter e humanidade, como fez em A Lei do Mercado (2015), com Vincent Lindon a questionar a sua moral no emprego que acabou de conseguir, depois de um longo período sem trabalho. O ator já foi também porta-voz dos trabalhadores de uma fábrica, cujos patrões quebram a promessa de manter os postos de trabalho no filme Em Guerra (2018) e, finalmente, em Um Outro Mundo (2021), foi gestor de uma grande empresa que vê a sua vida familiar devastada pelas pressões do emprego numa altura em que lhe é pedido que prepare o despedimento de vários trabalhadores. Em Le Bon Petit Soldat, Stéphane Brizé ajusta o foco para a figura de uma mulher num meio que continua a ter uma medida muito machista, hipócrita e que não permite qualquer tipo de fragilidade. Brizé está no seu território dramático favorito, Lindon já parece fazer parte deste universo e Alba Rohrwacher mostra que é uma atriz com muitas nuances para explorar no cinema.

 

A Place to Be de Kornél Mundruczó

A atriz que em 1974 venceu um Óscar pelo desempenho em Alice Já Não Mora Aqui, de Martin Scorsese, foi homenageada em Veneza e, fora de competição, passou o seu mais recente trabalho em cinema. No filme Place to Be, Ellen Burstyn, de 93 anos, mostra que ainda mora aqui: no cinema feito de muito talento. O filme do realizador Kornél Mundruczó é um daqueles casos de drama habitado por atores que impedem o desastre. Ellen Burstyn é uma idosa determinada em devolver ao dono um pombo-correio que parece perdido e que lhe apareceu em casa. Num impulso, e também porque quer fugir aos filhos que insistem que ela aceite deixar a casa onde mora para ter quem possa cuidar dela, Brooke mete-se no comboio que a irá levar de Chicago a Nova Iorque. É assim que conhece um homem de meia-idade, que acaba por se transformar em companhia, numa viagem que dura mais de 20 horas. Taika Waititi é ator, mas também realizador e argumentista, vencedor de um Óscar por escrever o argumento de Jojo Rabbit, onde deu vida à personagem Adolf – o Hitler que povoa o imaginário de um miúdo. Os dois, Burstyn e Waititi, conduzem a narrativa de uma viagem emocional, na qual as personagens irão chegar a um destino revelador ou enriquecedor. É o que acontece em Place to Be, que, apesar de ser um filme comovente, está assente num argumento que em diversos momentos parece pobre ou sem capacidade para a dimensão do desempenho dos protagonistas. Ellen Burstyn é o maior atrativo da história e Taika Waititi soube dar-lhe palco e luz, para que pudesse brilhar naquele que, a esta altura da vida, pode muito bem vir a ser o último grande papel da atriz. Num ano em que recebeu o Leão de Ouro pela carreira, Burstyn mostra que está em boa forma e não causaria grande espanto se conseguisse fazer todo o caminho até uma nomeação aos Óscares. Foi o que aconteceu no ano 2000, quando Burstyn conseguiu a única nomeação do filme A Vida não é um Sonho, de Darren Aronofsky, com o papel de uma dona de casa que vive colada à televisão e que se vicia em comprimidos para emagrecer, quando é escolhida para estar em estúdio num dos seus programas favoritos. Versátil, talentosa e ainda poderosa, Ellen Burstyn foi uma das figuras da edição 2026 do Festival de Veneza.