Festival de Veneza 83.ª edição, vol. II – Não há limite de idade para entrar na corrida ao Leão de Ouro

Lara Marques PereiraSetembro 9, 2026

Três veteranos do cinema marcam presença na competição oficial de Veneza com propostas muito distintas, mas com um elemento em comum. Paul Schrader, Werner Herzog e Nanni Moretti já passaram dos 70 anos (dois deles já passaram dos 80), mas o cinema que propõem (goste-se ou não) ainda não está em idade de reforma.

 

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The Basics of Philosophy de Paul Schrader

A reflexão sobre a culpa, a expiação dos pecados, a redenção ou os estilhaços emocionais de um segredo tem sido terreno fértil para a carreira de Paul Schrader, realizador americano de 80 anos, que tem trazido a Veneza os seus últimos filmes. Este ano, volta à competição com The Basics of Philosophy e novamente no centro da história está um homem que se defronta com os seus demónios e culpas. Jack Houston interpreta um professor de filosofia que guarda segredo sobre um incidente ocorrido no passado, mas que volta à sua vida no momento da morte do pai. Paul Schrader está familiarizado com personagens masculinas que carregam aos ombros um fardo de emoções e tumultos, ou não fosse Schrader o argumentista de Taxi Driver, de Martin Scorsese. No entanto, o filme perde-se nos detalhes e deixa-se contaminar por uma narrativa novelesca que retira carga dramática à história, deixando-a, por instantes, no limiar do despropósito ou até mesmo do ridículo. Paul Schrader habituou-nos a personagens em contenção, como acontece, por exemplo, nos filmes No Coração da Escuridão (2017), The Card Counter: O Jogador (2021) e Oh, Canada (2024), mas no novo filme, o atormentado professor parece perder algum rumo. Ainda assim, Schrader continua a conseguir filmar os conflitos mais escondidos das suas personagens. Aguardemos, pois, pelos próximos projetos do realizador, que já estão em marcha, na expectativa de que este The Basics of Philosophy tenha sido apenas um momento menos inspirado.

 

Bucking Fastard de Werner Herzog

Um caso real da década de oitenta, de gémeas britânicas que viviam em total sintonia e sincronia, serve de inspiração ao veterano Werner Herzog para o filme Bucking Fastard. Uma espécie de fábula sobre duas irmãs interpretadas por Rooney e Kate Mara, também irmãs e ambas atrizes, mas que até aqui nunca tinham trabalhado juntas. No início do filme, as irmãs enfrentam em tribunal uma acusação de assédio a um jovem (Orlando Bloom) que manteve uma relação com as duas. De resto, não podia ser de outra forma, de tal maneira as gémeas parecem uma só pessoa. É precisamente este o ponto que Werner Herzog parece querer sublinhar: a sintonia das duas irmãs, entendida pela sociedade em que se inserem com estranheza e rejeição. Herzog quer estimular a nossa capacidade de compreensão do diferente, mas vai mais longe na premissa, convidando-nos a entrar num universo bizarro e a acompanhar a busca das duas irmãs por um mundo onde sejam aceites. O que poderia ser um drama mais ou menos cómico sobre duas mulheres que tentam encontrar o seu lugar no mundo transforma-se numa grande alegoria onde cabe de tudo um pouco e onde o esforço por procurar o nexo do que estamos a ver se revela inglório. Werner Herzog tem uma carreira recheada de ficções, mas também de documentários, que mostram um cineasta atento e obstinado em mexer com as questões do nosso tempo. Em Bucking Fastard haverá seguramente uma intenção que vai além das metáforas, mas talvez não seja possível detetá-la e refletir sobre ela no decorrer do filme. Vale, ainda assim, sublinhar o trabalho das atrizes irmãs, que merece figurar no palmarés do Festival. Não há nenhum galardão que contemple o título, mas se existisse, seria seguramente para Bucking Fastard!

 

 

Succederà Questa Notte de Nanni Moretti

Eis que chega o momento de Nanni Moretti se render à comédia romântica, no filme Succederà Questa Notte, que curiosamente pode ser entendido como o momento de reconciliação do realizador com o festival italiano. Desde 1989 que Moretti alimenta uma espécie de zanga com Veneza, pelo facto de o festival ter deixado de fora da competição oficial o filme Palombella Rossa. No regresso ao Lido e à corrida pelo Leão de Ouro, Moretti traz um filme com muito amor lá dentro. Succederà Questa Notte divide-se em capítulos que saltam no tempo, 7 anos, mais 7 anos e mais 3 anos, para contar a história das personagens de Louis Garrel e Jasmine Trinca, que se conhecem por mero acaso e que se encontram e desencontram ao longo das suas vidas. Moretti tem sido feliz na forma como consegue equilibrar drama e comédia nos seus filmes, mas neste caso parece ficar sempre aquém do tom certo. Há uma abordagem demasiado juvenil à forma como se desenvolve a paixão deste casal e há personagens que ficam por explicar, mesmo que tenham sido fulcrais em determinadas decisões que fazem o romance evoluir ou retroceder. Nem mesmo a banda sonora assinada por Alberto Iglesias (habitual colaborador de Pedro Almodóvar) consegue dar profundidade a uma história que muitas vezes fica apenas à flor da pele. Moretti veio finalmente a Veneza e trouxe amor, mas talvez não chegue para convencer o júri.