A competição oficial do Festival de Veneza reúne 21 longas-metragens e (aparentemente) parece ter deixado de ser montra para as produções americanas com aspirações aos Óscares. Em vez disso, há Nanni Moretti de regresso a casa 37 anos depois de Palombella Rossa ter estreado em Veneza fora da competição principal; há o veterano Werner Herzog; Danny Boyle em estreia na competição do Lido; Martin McDonagh já premiado por duas vezes no Festival. Não há cinema português em nenhuma das competições, mas o realizador Pedro Costa irá ao Lido receber um prémio atribuído pela Santa Sé.

Nanni Moretti faz as pazes com o Festival de Veneza?
O lote de filmes italianos na competição principal de Veneza é composto por cinco títulos, mas as atenções vão para o novo filme de Nanni Moretti, cineasta que nos últimos anos parecia ter residência fixa garantida no Festival de Cannes. Moretti entra na corrida ao Leão de Ouro com Succederà Questa Notte, numa participação que pode ser entendida como a reconciliação do cineasta com o Festival do Lido, de onde esteve ausente várias décadas, depois de Palombella Rossa ter ficado fora da competição oficial na edição de 1989. Succederà Questa Notte conta uma história de amor, interpretada pelo francês Louis Garrel e pela italiana Jasmine Trinca e tem a participação do próprio Moretti.

Menos cinema americano não significa menos filmes que podem chegar aos Óscares
O britânico Martin McDonagh volta a ser um dos motivos de interesse na competição oficial de Veneza, depois de ter sido premiado em 2017 com Três Cartazes à Beira da Estrada e em 2022 com Os Espíritos de Inisherin. Em ambos os filmes, Veneza foi o primeiro teste na temporada de prémios que termina na cerimónia dos Óscares no ano seguinte, por isso é legítimo esperar que o cineasta possa repetir a proeza. Wild Horse Nine volta a contar com Sam Rockwell, acompanhado por John Malkovich, Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits. McDonagh mergulha na História, com um thriller político passado no Chile nas vésperas do golpe de 1973, liderado por Augusto Pinochet, que derrubou Salvador Allende e instaurou uma ditadura militar no país, que só terminou em 1990. Outro britânico, Danny Boyle, está em estreia no Festival de Veneza com Ink, filme que teve honras de abertura da competição oficial esta quarta-feira. Uma ficção sobre o momento em que o magnata Rupert Murdoch compra o jornal The Sun, na altura à beira da falência, e o transforma num meio de comunicação rentável e diferente, alterando com isso o futuro do jornalismo até ao nosso presente, em que o clickbait se tornou prática comum e as notícias de sangue e choque parecem contaminar toda a comunicação social. Jack O’Connell, Guy Pearce e Claire Foy garantem os papéis principais e Danny Boyle mantém a aura de cinema pop com alma, como aconteceu em Trainspotting ou Quem Quer Ser Milionário, abordando um episódio que pode ter uma leitura política, o que nos dias que correm é sinónimo de dividir opiniões. Ink chega às salas portuguesas ainda antes do ano terminar.
A lista de temas que podem valer a pena discutir termina com o novo filme do dramaturgo francês, cada vez mais cineasta, Florian Zeller. Em Bunker, Javier Bardem e Penélope Cruz veem a relação entre os dois ser abalada por uma proposta para que ele desenhe um abrigo nuclear para um multimilionário. Zeller venceu o Óscar de argumento adaptado em 2021 pelo filme O Pai, com o qual se estreou por trás das câmaras e que o colocou desde então num patamar de cineastas aos quais devemos prestar atenção.
O último destaque vai para o alemão Werner Herzog, quase a completar 83 anos, que não está propriamente a fazer corridas aos prémios, mas é alguém que se mantém pertinente e que tem uma voz importante e ativa no cinema. Depois de no ano passado ter recebido um Leão de Carreira, Herzog regressa a Veneza com o filme Bucking Fastard, com as irmãs Kate e Rooney Mara a trabalharem juntas pela primeira vez. O filme conta a história verídica de duas gémeas britânicas que ficaram conhecidas nos anos 80 pela total sincronia nos gestos, na fala e até na forma como se apaixonam pelo mesmo homem, interpretado por Orlando Bloom. Entre a bizarria e a comédia, Werner Herzog não facilita e propõe um drama que pode deixar muitos espectadores à deriva.

Pedro Costa recebe o prémio Robert Bresson
Promovido pela Fondazione Ente dello Spettacolo e pela Rivista del Cinematografo, este é o único prémio de cinema concedido pela Santa Sé. É atribuído anualmente desde 2000 e pretende distinguir um cineasta que tenha testemunhado a difícil jornada do sentido espiritual das nossas vidas. Pedro Costa, considerado muitas vezes herdeiro da marca de Robert Bresson, tem dado voz a quem vive na margem e os seus filmes propõem um olhar singular e poético sobre as vidas dos que são menos vistos no cinema. É o caso de filmes como O Sangue (1989), Ossos (1997), No Quarto da Vanda (2000), Juventude em Marcha (2006), Cavalo Dinheiro (2014), ou Vitalina Varela (2019). O prémio Robert Bresson será entregue a Pedro Costa numa cerimónia marcada para sábado, 5 de setembro.



