Dias do Festival Cannes 2026, vol. I – La Vénus Électrique, The Match, La Vie d’une femme

Arrancou a 79ª Edição do Festival de Cannes. A Tribuna do Cinema está presente através da Lara Marques Pereira para assistir à corrida à Palma de Ouro lançada com 22 filmes a concurso. La Vénus Électrique foi o primeiro a ser exibido, fora de competição, não criando grande impacto, tal como La Vie d’une Femme, já em competição. A grande surpresa até agora foi The Match, sobre o mítico jogo de futebol que opôs Argentina e Inglaterra no Mundial do México 86. O Festival de Cannes ainda agora começou e há bons motivos para aguentar a maratona de filmes que se avizinha.

 

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La Vénus Électrique de Pierre Salvadori
Fora de Competição

Pouca corrente na abertura do Festival de Cannes 2026

O cinema de matriz popular e entretenimento, no caso uma comédia romântica de época, foi a proposta para a abertura da 79.ª edição do Festival de Cannes. La Vénus Électrique tem a assinatura de Pierre Salvadori, realizador com alguma carreira e experiência no campo da comédia. A história desenrola-se em 1928, em Paris, e a Vénus Elétrica do título é uma artista de rua que vende beijos que literalmente dão choques e obviamente arrebatam as plateias masculinas. Por uma sucessão de acasos, esta rapariga vê-se forçada a fingir que é médium, capaz de comunicar com o mundo dos mortos, e surpreende um pintor que a procura para tentar comunicar com a amada que entretanto morreu e que o deixou sem qualquer inspiração criativa. O embuste é incentivado pelo agente do pintor (a estrela do cinema francês Gilles Lellouche), que começa por ameaçar a rapariga, mas acaba por perceber que as sessões espíritas fizeram com que o artista voltasse a pintar.

 

 

Estamos no universo da comédia de enganos, com uma história de impostores, que é também, desde o primeiro minuto, uma história de amor, imaginada, na génese, por nomes que fazem parte da história do cinema francês mais recente. Os realizadores Robin Campillo (A Turma; 120 Batimentos por Minuto) e Rebecca Zlotowski (Uma Rapariga Fácil; Os Filhos dos Outros; Vida Privada) foram criadores da ideia original, mas, ainda assim, não há verdadeiramente nenhum rasgo de grande originalidade. La Vénus Électrique é, acima de tudo, um filme com perfil de abertura de festa, ligeiro e ligeiramente divertido, de entretenimento e funcional. Não foi uma abertura em grande, mas permitiu ao Festival começar mais uma edição com um filme francês e cumprir a tradição de dar passadeira vermelha e antecipar uma estreia que chega nos dias seguintes aos cinemas em França.

 

The Match de Juan Cabral & Santiago Franco
Cannes Première

Um jogo de futebol entre seleções ficou para a história do desporto e não só

The Match realizado por Juan Cabral e Santiago Franco é um documentário que volta ao mítico jogo entre Argentina e Inglaterra, no Mundial México 86. Para que não haja qualquer dificuldade em situar a memória, o jogo em causa é aquele em que Maradona marca um golo decisivo com a ajuda da mão. Agora que estamos situados na memória do encontro, vamos ao filme, que nos leva de novo para o estádio Azteca, no México, com a ajuda de algumas estrelas do futebol, para reconstruir aquele momento das suas vidas. É desta forma que The Match oferece toda uma nova possibilidade de releitura do acontecimento, que aparentemente estaria esgotado depois de tantas notícias, abordagens, confissões e uso de tecnologia ao longo dos anos para mostrar a intervenção da mão de Maradona, também conhecida como a “mão de Deus”. A dupla de realizadores recorre a imagens da altura, mas também a depoimentos recolhidos para o filme de antigos jogadores que naquele jogo estavam ao serviço das duas seleções, como é o caso de Gary Lineker, Jorge Valdano, John Barnes ou Jorge Burruchaga. Mais interessante ainda é a forma como os realizadores contextualizam o jogo de 1986 com acontecimentos que tiveram lugar 200 anos antes de as seleções entrarem em campo, quando o arquipélago das Malvinas também entra para a história dos dois países. O contexto histórico permite explicar o momento político do encontro de futebol, na ressaca da guerra sobre a posse das Malvinas. A paixão do futebol, a forma como pode ser muito mais do que um jogo, o absurdo da guerra e as pequenas trivialidades paralelas que afinal também contam para a história interligam-se no documentário que nos leva a reviver o episódio em tamanho gigante. Em ano de Mundial de futebol, qualquer semelhança entre o nosso tempo e aquelas duas seleções que jogaram futebol na ressaca de uma guerra é, obviamente, mera coincidência, mas é também uma coincidência que se repete vezes sem conta ao longo do tempo, dando ao filme uma marca intemporal. The Match foi programado fora de competição, mas fica evidente que tem argumentos suficientes para poder ter entrado na corrida à Palma de Ouro.

 

La Vie d’une femme de Charline Bourgeois-Tacquet
Em Competição

Léa Drucker, uma mulher dos nossos dias

A segunda entrada francesa na competição oficial é um drama em torno de uma mulher que permite um grande desempenho por parte da atriz Léa Drucker. Ela é uma cirurgiã à frente de um departamento num hospital público, mas é também a filha que trata da mãe demente, a irmã que protege, a tia que alimenta os sonhos do sobrinho, a companheira de um homem com quem não casou, nem quis ter filhos, mas ajudou a criar os dele e é acima de tudo uma mulher resolvida em muitos aspetos. Será que nesta vida de decisões conscientes e de uma rotina intensa mas controlada, há espaço para o imprevisto? E como lidar com o que não se controla? A realizadora Charline Bourgeois–Tacquet entrega a Léa Drucker um filme dividido em 10 capítulos (talvez o detalhe menos interessante na estrutura narrativa), conta as rotinas desta mulher e da forma como decide, arruma e compartimenta todos os segmentos da sua vida. Pelo meio, Gabrielle é apanhada por um amor inesperado, intenso e fugaz que a abala, mas que a veia de cirurgiã ajuda a pragmatizar, para que a vida possa seguir em frente. Léa Drucker tem um excelente desempenho, capaz de oferecer muitas possibilidades numa mulher só: forte e frágil, combativa e desamparada, distante e emocional. O filme é um retrato bem tirado ao papel das mulheres maduras, realizadas e bem resolvidas, sem carregar na tecla feminista. Léa Drucker está em grande forma e é ela que nos fica na memória à medida que o tempo passa sobre o filme.