Os filmes premiados na 79ª Edição do Festival de Cannes estão entre os radicalismos do presente e as guerras do passado. Ficam ainda para a história do Festival os prémios partilhados. Foram muitos e justos. O realizador romeno Cristian Mungiu voltou a vencer e a convencer em Cannes, com um cinema que se faz faz de pequenos incidentes domésticos que crescem para a dimensão de problemáticas globais.

Um drama para refletir sobre crenças fundamentalistas e questionar o que fazer com a educação das nossas crianças. Quase 20 anos depois de ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes, com o filme 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o romeno Cristian Mungiu voltou ao Festival para uma nova consagração. Fjord foi escolhido para a Palma de Ouro, mas foi também vencedor do prémio Fipresci, atribuído pela crítica internacional, e do prémio Ecuménico. Desta vez, Mungiu filmou na paisagem fria da Noruega, numa pequena comunidade que acolhe uma família romena, profundamente católica e que aplica aos cinco filhos, todos menores, uma disciplina muito rígida que inclui castigos físicos. Na Noruega, país que figura em vários rankings como exemplo da democracia mais avançada do mundo, as práticas desta família não são aceitáveis, sobretudo quando uma das crianças chega à escola com nódoas negras e admite que foi castigada pelos pais. O caso chega ao organismo de proteção de crianças, que, segundo a lei da Noruega, pode intervir de forma imediata, retirando as crianças da família até que um tribunal decida sobre o caso. Pelo meio, os pais tentam reagir e chamar a atenção dos media, através do apoio que conseguem por parte de grupos religiosos e ultraconservadores da Roménia. Em tribunal, julga-se a possível agressão cometida contra menores, mas também o modo de educação que pode ser condicionado pela fé de uma família, num país assumidamente laico. Cristian Mungiu olha para o dilema com a inteligência de quem sabe que não pode apontar um caminho melhor que o outro, mas que o cinema serve apenas para questionar e colocar frente ao espelho as nossas convicções. Fjord é um drama familiar que aborda a questão da violência exercida contra menores, mas é também um filme sobre o funcionamento de um sistema progressista, exemplar na defesa dos direitos fundamentais, mas que pode revelar-se intrusivo. Num mundo cada vez mais polarizado, Cristian Mungiu faz uma reflexão sobre posições extremadas, partindo, como sempre no seu cinema, de um microcosmos familiar para a visão macro de como lidamos com a educação das nossas crianças.

As guerras e a agenda queer
Uma das evidências que sobressai da competição oficial do Festival é a existência de vários filmes (5 em 22) que abordaram ou recriaram contextos de guerra. Não será de espantar que alguns desses filmes estejam contemplados no palmarés, como é o caso de Minotaur, do russo Andreï Zviaguintsev, que venceu o Grande Prémio do Júri. No discurso de agradecimento, o cineasta dissidente dirigiu um apelo ao Presidente da Federação Russa, dizendo que só ele pode parar a carnificina na Ucrânia e que o mundo inteiro está à espera. Minotaur retrata a vida de um casal da alta burguesia russa a viver uma crise conjugal, enquanto Moscovo dá início à ofensiva na Ucrânia. Zviaguintsev tem usado o cinema para construir um olhar crítico sobre a Rússia (Leviathan; Loveless); em Minotaur, volta a apontar o dedo a uma sociedade que vive alheada e indiferente perante o conflito com o país vizinho e o envio de civis para o combate.

A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Civil Espanhola são abordadas nos dois filmes que dividiram o prémio de realização. Em Fatherland, o polaco Paweł Pawlikowski reconstrói a viagem que o escritor Thomas Mann realizou à Alemanha em 1949, depois de ter trocado o seu país pelos EUA em 1933. No regresso a casa, depara-se com um país em ruínas, dividido entre sentimentos de culpa ou de complacência com o regime nazi. Pawlikowski é um cineasta de rigor e depuração, como exemplificam os filmes Ida e Guerra Fria. Continua a filmar a preto e branco e a remexer nos fantasmas de uma Europa que ainda não se recompôs plenamente do seu passado. A outra guerra, em Espanha, revela uma dupla de jovens cineastas: Los Javis (Javier Calvo & Javier Ambrossi), autores do filme La Bola Negra, um drama que parte da peça inacabada de Federico García Lorca para cruzar a história de três personagens separadas no tempo, mas que são afetadas direta ou indiretamente pela Espanha franquista que perseguiu a comunidade LGBT. Los Javis vieram da televisão e da cultura pop para a maior montra de cinema do mundo e mostraram que a herança de Almodóvar (produtor do filme) está assegurada, com uma obra que não receia o excesso e que trouxe até Cannes um dos momentos mais vibrantes da competição oficial. Este foi um palmarés que contemplou vários prémios ex aequo; além dos realizadores, também os atores foram premiados em dupla. Virginie Efira e Tao Okamoto foram distinguidas por Soudain, obra simples e fundamental do japonês Ryūsuke Hamaguchi, sobre o envelhecimento, a empatia e a amizade. Emmanuel Macchia e Valentin Campagne foram premiados por Coward, do realizador belga Lukas Dhont, que encontrou no cinema uma forma de abordar as agressões sociais e psicológicas e os seus efeitos nas emoções e sentimentos dos rapazes e jovens. As escolhas do júri podem ser entendidas como preguiçosas, por tantos prémios em dupla, mas esta poderá ter sido também a forma encontrada de fazer justiça.



